Junho 05, 2005

Tipos de relações II

Em artigo anterior (aqui) iniciou-se a digressão sobre uma possível classificação dos mais frequentes tipos de relações amorosas, tendo-se ilustrado o género de relação que se designou por co-dependência. Em resumo, as ideias principais contidas nesse artigo apontavam para que a) a selecção dos relacionamentos seria maioritariamente feita de modo inconsciente b) essa selecção visaria criar, na grande maioria dos casos, uma dinâmica que pudesse resolver/ultrapassar o modelo não resolvido da infância c) as relações criadas desse modo seriam condicionais, provocando nos parceiros, uma reacção do tipo co-dependente. Hoje iremos um pouco mais longe, na tentativa de explicação deste modelo, e apontaremos novos modelos relacionais que possam ilustrar outro tipo de dinâmicas. Começamos novamente pela infância, momento em que se parecem sedimentar as dinâmicas relacionais que perdurarão pela vida fora, até que o indivíduo tenha noção das mesmas e decida pôr-lhes termo ou mudá-las.

À medida que a criança começa a experienciar-se a si própria como um ser diferenciado e separado de outros seres, gradualmente e através da relação com outras pessoas significativas, a criança começa a formar um conceito de self (si), que por sua vez requer cuidados e protecção, não se tratando somente de protecção e cuidados físicos. Essa consciência e percepção da diferença e da separação do Self, de si em relação aos outros, leva ao aparecimento de uma nova necessidade: a do olhar positivo externo, olhar esse que não é apenas de aprovação, é algo diferente, mais do âmbito da aceitação e compreensão do mundo e da dinâmica interior da criança. A força desta necessidade não deve ser menosprezada ou sobrestimada, porque a sua satisfação torna-se na dinâmica principal para a criança em desenvolvimento. A primeira falha no modelo educacional parental surge aqui, na incapacidade para compreender e aceitar a dinâmica interior do mundo infantil, vemos a criança pelos nossos olhos de adulto, falhamos em perceber o que vai dentro desse mundo, ou seja, parte daquilo de que a criança necessita para se desenvolver e que está nas nossas mãos podermos fornecer, está intimamente ligado à nossa capacidade de compreender e transmitir essa compreensão, e isso não acontece de forma continuada e correcta. Este olhar positivo externo é um trabalho adicional para os pais? É, sem dúvida, neste gesto diário de compreensão, aceitação e comunicação adequada destes factores, estão as sementes para o desenvolvimento de uma adequada perspectiva sobre si, vejamos como.

Em conjunto com o olhar positivo, desenvolve-se também na criança, a necessidade do auto olhar, que derivará no auto conceito, que por sua vez originará a auto-estima, a segurança interior, a auto-crítica, a auto-avaliação, etc. Precisamos de nos sentir bem connosco próprios e se esta necessidade não é satisfeita, é-nos difícil funcionar no mundo. Aqueles que recolheram de seus parentes somente olhares positivos de forma muito selectiva ou condicionada, dificilmente conseguirão manter um olhar positivo sobre si, a qualidade do auto-olhar é proporcional à do olhar positivo recebido. A criança que está rodeada de ambiente crítico e desaprovador ou por aqueles que fornecem sinais ambíguos ou conflituosos torna-se dolorosamente confusa. Está em permanente ansiedade e sempre tentando descobrir novas maneiras de como ganhar, ao menos ocasionalmente, um sinal de amor ou afeição, um sinal de olhar positivo externo. É provável que algumas áreas de potencial validação sejam descobertas (muitas vezes os pais consideram que é isto a EDUCAÇÃO…) e que a criança aprenda comportamentos que lhe garantam uma aprovação limitada. Lendo livros, fazendo a cama, mantendo as roupas limpas, não perdendo o temperamento, apercebe-se que ganha a aprovação parental e também algum olhar positivo, mas há também a hipótese de isto ser convertido num frágil e precário auto olhar, especialmente se a criança souber que detesta ler, que não vê problemas em andar suja, ou que se sente altamente tempestuosa por dentro. É muito provável que desta forma se estejam a criar seres amestrados, prisioneiros da esmola do olhar positivo externo, algo que lhes foi negado e que por sua vez distorceu o seu próprio mecanismo de avaliação interior. Esta dinâmica condiciona toda a vida futura, mesmo na idade adulta, obstruindo, pelo menos em parte, o potencial evolucionário desse ser. Quando a vida proporciona oportunidades para que cada um se desenvencilhe do modelo que lhe foi imposto (o 1º retorno de Saturno, os trânsitos maiores, etc), elas nem sempre surgem pelas vias mais fáceis e as grandes crises aparecem. Não é à toa que os grandes períodos depressivos estão claramente associados aos 30 e aos 60 anos, respectivamente o 1º e o 2º retorno de Saturno, os momentos de crise surgem como indicadores das necessidades de mudança, e é sempre doloroso tomar consciência dessas necessidades. O mal está sempre nos outros…

A nossa capacidade futura para nos sentirmos bem connosco próprios, está dependente da qualidade e consistência do olhar positivo que recebemos na infância, e na medida em que foi selectivo (a quem isto não aconteceu?) somos vítimas das condições de valor. Por outras palavras, o nosso auto olhar, torna-se tão ou mais selectivo do que aquele que nos foi proporcionado. Aos nossos próprios olhos, temos valor apenas na condição de sentirmos, pensarmos e comportarmo-nos, das formas que outros nos disseram serem merecedoras de amor e respeito, do modelo relacional fornecido exteriormente. Para muitas pessoas, todo este triste processo leva a uma introjecção de valores que emanam de parentes que julgam, punem e criticam, e que pouco ou nada se apoiam nas necessidades do organismo humano para a actualização. Algo que pode ser visto diariamente quando afirmamos que “gostaríamos de nos sentir mais fortes”, mas não dizemos, “gostava de me sentir aceite como sou”, porque sabemos que sentindo-nos mais fortes, somos imediatamente aceites. Em quantos relacionamentos, quando um dos parceiros se sente enfraquecido, quantas vezes não acontece que o outro se afasta? De onde deriva o afastamento? Medo da fraqueza do outro ou da própria? Insegurança quanto ao amor do Outro ou ao próprio? Porque aceitamos os outros apenas quando estão fortes e não sempre? Qual é o condicionamento que está implícito neste gesto? Porque somos tão críticos de nós próprios? Porque escolhemos outros que nos criticam?

A dolorosa e gritante procura por olhar positivo, resulta num ser humano encarcerado num sentimento de desvalorização (uma total ausência de olhar próprio) e que está quase totalmente divorciado das suas raízes organismicas e processo de valorização pessoal. A constante introjecção de valores estranhos, porque impostos de fora, resultou na internalização de condições de valor, que tornam o viver autêntico quase impossível. Como resultado dessa desesperante necessidade de olhar positivo, é evidente que muitas pessoas desenvolvem uma total discrepância entre a maneira como o seu Self é percebido e a sua experiência organismica, aquilo a que se chama incongruência entre o Self e a experiência. Esta incongruência leva a uma vulnerabilidade psicológica, que torna a pessoa ansiosa e confusa, sempre que a experiência é percebida ou de certo modo antecipada como sendo incongruente com a estrutura do Self e com o actual auto conceito. A ocorrência desta vulnerabilidade psicológica, é uma resposta defensiva (que pode tomar várias formas, negação, distorção) a experiências que de certo modo ameaçam o sentido de Self da pessoa.

A sujeição a condições de valor e à experiência de aprovação parental, condicional a certos comportamentos, faz com que um auto-conceito gradualmente tome forma, que está alinhado com a visão parental do que é aceitável e admirável, a pessoa pode ver-se a si própria como paciente, calma, lógica, porque essas características lhe trazem a admiração e são altamente valorizadas pelos pais. Um auto conceito desses, ainda que ávido e intolerável, ganha a aprovação dos outros, no entanto o auto-olhar estará sempre dependente da manutenção desse auto-conceito.

Nas ocasiões em que a pessoa se sinta interiormente desconfortável, através da intolerância ou agitação, esse auto conceito estará ameaçado. A distorção defensiva entra em jogo quando a pessoa tenta ver a realidade, os sentimentos ameaçadores são tomados pelo resultado ou como vindos do exterior, por exemplo agarrando-se a princípios elevados ou como uma resposta inapropriada a um comportamento ultrajante por parte de outros. A negação acontece quando a pessoa rejeita terminantemente a possibilidade de intolerância ou agitação em si, quando nos outros a consegue ver perfeitamente, através de palavras e comportamentos.

Em face disto, há claramente um distúrbio psicológico, no entanto a pessoa pode não se aperceber disso, nem outros poderão se aperceber, dado que também tem um interesse velado em manter ou encorajar, aquilo que é com efeito, um trágico mas rigoroso acto individual ou colectivo de auto-ilusão.

Resumindo, necessitamos de um olhar positivo, obtemo-lo apenas de forma condicional, parecemos solicitar na idade adulta relacionamentos que prolonguem esse amor condicional, porque esse foi o modelo introjectado, deixando para o parceiro a possibilidade de nos avaliar, de nos conceder esse olhar positivo, facto esse que implica uma falta de equilíbrio, pois esse poder é na grande maioria dos casos utilizado de forma tirânica e manipuladora, ainda que sob a velada capa do amor e do romance. Porque queremos sempre ser tão agradáveis, porque é tão mais difícil à medida que o tempo passa manter essa capa, porque não somos autênticos, porque continuamos a pedir (e a dar) esmola pela vida fora…?

O que desse modo sucede, é que passamos a ter pouca fé no nosso julgamento interior, mostramo-nos com uma baixa auto-estima, dependente da estima que outros nos dão, e com falta de confiança na nossa capacidade para tomar decisões, para sermos autênticos ou para escolher rumos satisfatórios. Deixamos de ser o centro do processo de validação ou avaliação, não confiamos na evidência dos nossos sentidos, e constantemente nos referimos ao julgamento de outros em ordem a estabelecer o valor do nosso objecto da experiência. Assim traímos esse mecanismo de avaliação interior e viramo-nos desesperadamente para o exterior, para as figuras de autoridade, ou então encontrar-nos-emos face à paralisia da indecisão. Os auto-conceitos negativos e falsos baseados no exterior, tem pouca hipótese de apoiar, manter e cuidar dum mecanismo de avaliação interno do qual necessitamos, se queremos tornar-se pessoas autónomas. É o Outro que é a minha bengala, “ele serve-me de suporte, sem ela não conseguiria viver”, quem é que temos connosco? Um objecto? Ou uma pessoa?

Esta dinâmica é encontrada a todo o momento, diariamente, nas mais variadas situações, resulta fundamentalmente da incapacidade para ouvir e compreender o outro, bem como sermos correctamente ouvidos e escutados, da nossa necessidade de mantermos o controle nas relações, que nos dá uma ilusão de segurança, emitindo juízos críticos, julgando, culpabilizando, denegrindo, desvalorizando, ordenando, ameaçando, dando soluções, lições de moral, rotulando, ridicularizando, interpretando, diagnosticando, etc. Por vezes tenho a sensação que nos relacionamentos se perpetua a “educação” que se recebeu em casa, queremos o Outro à nossa maneira, com os nossos valores, porque nunca recebemos indicações de que era bom e adequado sermos nós próprios, isso não é seguro, pelo que também nos sentimos confortáveis se o Outro os faz isso a nós, afinal foi assim que “aprendemos”!

A incapacidade para a relação resulta sempre duma incapacidade pessoal, não do Outro, o Outro apenas reflecte essa nossa incapacidade, a qual passa por manter um mecanismo de avaliação interna desadequado da nossa própria experiência, sobretudo pelo atropelo a que foi submetido, e à introjecção de valores externos, que foi ditada pela nossa necessidade precoce de olhar positivo. Esse instável, ambíguo ou condicional olhar, é a razão da degradação do nosso auto olhar, desse mecanismo de avaliação interno que é tão ou mais deturpado que aquele que nos foi fornecido. Tragicamente escolhemos parceiros que parecem perpetuar esta dinâmica, e desconfiamos daqueles que não a fazem. Deste modo parece também fácil que se chegue a um tipo de relação funcional, a qual serve apenas enquanto a função para a qual foi criada subsiste. Vejamos alguns exemplos dessas situações:

- A Relação TERAPEUTA-PACIENTE

A versão PSI de relacionamento, ou a relação de “ajuda”. Se verificarem, isto raramente se passa ao nível consciente, mas seria importante uma revisão dos motivos que nos levam a estar realmente com alguém, perceber se realmente perpetuamos modelos ou não. Neste caso, um parceiro sente que o outro tem uma informação ou conhecimento de natureza psicológica que é vital e que pensa que não possui. O poder é dado ao “terapeuta”, ficando o paciente há espera da entrega da informação, quando a tem, acaba a consulta, e vai o “terapeuta” passar a ser paciente...

O indivíduo que faz de “terapeuta” é normalmente aquele que atrai pessoas que parecem “necessitadas”. Regra geral, é extremamente inseguro – embora aparente o oposto – ao nível emocional, enfatizando entre outros: o medo da perda, da traição, do abandono, violações de confiança e medos de perseguição se revelar demasiado da sua realidade actual. Sente-se seguro na relação porque o outro precisa de si. Há uma falta de balanço na relação, em que o “terapeuta” geralmente dá mais e o paciente recebe mais. Quando o “doente” se cura, a relação acaba e são a ingratidão e a injustiça, os sentimentos que ficam no ar daquele que se sentiu abandonado.

Geralmente são as mulheres que se oferecem como “terapeutas” e que alimentam a ilusão de ajudar o Outro de alguma forma. O seu cariz mais contentor e maternal, associado à necessidade de olhar positivo e à degradação do mecanismo de olhar positivo interno, parece ser a dinâmica que leva mais mulheres a este papel, no entanto alguns homens podem também enveredar por essa dinâmica. Quanto maior for também a dependência de um papel, maior será a propensão, e muitas pessoas introjectam uma necessidade de serem úteis (cariz virginiano) ou inclusivamente de se sacrificarem (cariz pisciano) pelo Outro, o que não tendo que ser necessariamente negativo, muitas vezes o é, sobretudo pela falta de verdadeira compreensão dessa dinâmica. Muitas pessoas são úteis e maternais, porque essa é a forma distorcida de obterem aprovação e olhar positivo, não tendo que corresponder necessariamente ao seu mais profundo ser, no entanto esse facto está-lhes totalmente negado à consciência, sendo o prejuízo psíquico dessa atitude, incomensurável ao nível pessoal e relacional. Ora isto também acontece, porque inúmeras pessoas vêem também a relação como uma espécie de base para a cura emocional. Só existem “terapeutas” porque há “pacientes”, o que torna a associação desejada por ambos. O quadro típico é normalmente o rapaz/homem com problemas de dependências (álcool, drogas, etc.), ou oriundo de famílias disfuncionais, com dificuldades de expressão emocional, cuja mulher fará o esforço e/ou o sacrifício de tentar curar, educar ou modificar. Por um lado, o pressuposto básico desta atitude é sempre condicional, ié, o outro não tem dentro de si as capacidades para se orientar, eu sei o que é melhor para o outro, visão que por outro lado também emprega consigo prórpia quando se vê em inferioridade emocional, e numa outra vertente mais funcional, aquele “papel” que representa, traz-lhe um sentimento de utilidade, de valorização, de auto-estima, mas infelizmente, isto é uma ideia algo pálida do que uma verdadeira relação pode representar.

- A Relação PROFESSOR-ESTUDANTE

Esta dinâmica é muito parecida com a anterior, no entanto os papéis parecem inverter-se, se na situação anterior existiria um papel mais maternal, aqui predominará a paternalização da relação. O quadro típico é o do homem geralmente bastante mais velho, o “professor”, e a mulher geralmente bastante mais nova, a “aluna”, mas a história também pode ser contada invertendo os sexos. O conhecimento é sempre fonte de poder, de autoridade, o fascínio pelo poder é sempre grande, e julga-se poder ter poder, apenas por um qualquer mecanismo de osmose, por isso é plausível que se façam escolham relacionais com base nessas necessidades, por um lado o inexistente ou fraco mecanismo de avaliação interior, que leva à busca da autoridade exterior, por outro o desejo de ter aquilo que se não tem, e que se pensa poder obter de modo osmótico e “quase” gratuito.

A dinâmica da escolha do homem mais velho não se esgota neste modelo, algumas mulheres não sentem segurança em parceiros mais novos, ou por questões ligadas à demanda sexual dos mesmos, ou porque sentem da parte dos mais velhos uma adulação e um sentimento de que são desejadas, que é confortável e proporciona segurança, por muito “legal” que isso seja, a segurança vem do exterior e não do interior, e isso, continuará a dinamitar o crescimento e a evolução pessoais.

Aqui a variação do jogo de poder é menos sadomasoquista que a anterior, no entanto continua a existir desequilíbrio naquilo que cada um traz para a relação, não há igualdade, ambos os parceiros precisam daqueles papéis para preencher as suas necessidades de segurança. Quando os “alunos” acabarem a licenciatura, ou quando os professores deixam de andar actualizados, a relação acaba…

Resumindo, em pequenos parecemos estar dependentes de um modelo de relacionamento que nos proporcione para além dos cuidados básicos e uma atitude calorosa e carinhosa, uma compreensão e aceitação do nosso mundo interior. Esse olhar positivo exterior vai condicionar o desenvolvimento do nosso mecanismo de avaliação interno – o olhar interior – que se irá reflectir naquilo que seremos no que diz respeito à autenticidade, à segurança, à capacidade para fornecer um amor compreensivo e aceitante – dito incondicional – mas que de facto exige sempre algumas condições para sobreviver. Será que conseguimos perceber a dinâmica relacional em que estamos? Porque escolhemos esta ou aquela pessoa? O que esperamos obter ou dar?