março 28, 2005

O 1º retorno de Saturno, os 30 anos

Decidi escrever este artigo “pressionado” pela Maria, uma amiga que me inquiriu a escrever sobre este trânsito, fi-lo também pela forma como descreveu o momento e que me parece ser algo comum à maneira como Saturno é conhecido. Existirá uma cabala contra Saturno e os seus “domínios”? Kronos, o devorador dos seus próprios filhos, ou o Rei da Idade do Ouro? Aparentemente, as parangonas determinam que o 1º retorno de Saturno será uma espécie de “descida aos Infernos”, uma das primeiras obras que tenta desmistificar esse planeta, não deixa de ter um título de certa forma aterrador “Saturn, A new look at an old devil”, de Liz Greene. Na astrologia tradicional ou preditiva Saturno foi sempre visto como maléfico, os aspectos que forma com outros planetas sobretudo os pessoais (de Sol até Marte) são sempre encarados de maneira a que o indivíduo fica “paralisado da cintura para cima e amputado da cintura para baixo”. Um determinado tipo de astrologia que classifica de “bom” e “mau” é cada vez mais o descrédito de todos os que se envolvem no desenvolvimento pessoal, próprio ou alheio. O juízo basicamente interessa aos “juízes”, confere-lhes poder, essa tem sido uma forma dos astrólogos deterem poder sobre as pessoas, dizendo-lhes o que é bom e o que é mau, isso apenas acentua uma relação de submissão aos seus “juízos”. Todos sabem como uma pessoa hiper-crítica consegue manter o domínio de uma relação, através da sua suposta superioridade moral que define o que está bem e o que está mal. Saturno não tem que ver com Justiça, no sentido que hoje estamos habituados a perceber, mas no verdadeiro sentido de Justiça, o do retorno ao equilíbrio, aliás eu diria que no Universo parece não existir algo parecido com justiça, na Natureza não observamos isso, nos animais também não, tudo o que parece existir é apenas um retorno ao equilíbrio, que alguns porventura quererão apelidar de justiça divina. No entanto, parece existir uma tendência formativa, não julgativa, mas que não é inerentemente destrutiva, só existe caos e destruição com um propósito, o da evolução. Se determinada pessoa tem que experienciar situações extremas de caos e destruição, é porque de algum modo dentro de si essa experiência se tornou necessária à sua evolução, o que poderá ter estado na origem dessa experiência é algo que ainda permanece um pouco misterioso, mas que alguns apelidam de Carma, ou lei da causa e efeito, que determina que cada um tenha que colher aquilo que semeia. O 1º ciclo de Saturno é um “forcing” para o retorno ao equilíbrio, determina um tempo de consciência mais agudo, que será porventura tanto mais desagradável quanto menor for a consciência que o indivíduo tem de si, das suas forças e das suas fraquezas.

No mapa natal, Saturno promove uma consciência da limitação existente no indivíduo naqueles pontos específicos, a casa e signo natal, os aspectos que faz as outros planetas, pressionando o indivíduo a trabalhar especificamente sobre esses pontos de modo que essa limitação possa ser integrada e contribuir para a sua realização plena, voilá! É uma espécie de mestre de artes, agudo, incisivo, provocador, cujo objectivo é promover a evolução, a transformação. Com o 1º retorno de Saturno, o encontro é sobre si próprio, Saturno faz uma Conjunção com ele mesmo, é o final da 1ª volta sobre o Zodíaco e o planeta volta ao ponto natal, pelo que vai promover uma desagregação na estrutura que delimita. Já veremos como.

Alguns axiomas prévios:

Todo indivíduo é um “projecto”, conforme indicado através do mapa natal, cabe ao mesmo fazer a sua “construção”, de acordo com o previsto no “projecto”, os trânsitos indicam fundamentalmente a pressão para que não haja desvios ao projecto, para que o indivíduo se coloque na rota de cumprir a sua função, se realize, cumpra a sua vocação, de encontrar o seu lugar no meio do universo, de se individualizar. O 1º retorno de Saturno entre os 28 e os 30 anos, é só um desses trânsitos, quiçá, um dos mais pressionantes.

A energia de um planeta manifesta-se de acordo com o grau de evolução do indivíduo. A manifestação é grosseira (desequilibrada) num indivíduo pouco evoluído, e refina-se na medida em que o indivíduo é cada vez mais desenvolvido. Podemos ver o desenvolvimento como o trabalho num conjunto de energias que se complementam e que tornam o ser naquilo que fundamentalmente já é, mas que ainda não foi capaz de ser ou realizar. A questão que um mapa natal coloca é sempre a mesma: como realizar todo o seu potencial em cada momento.

Entende-se o indivíduo em desenvolvimento como aquele que tende para a homeostase, ou para o equilíbrio, significando isso que o indivíduo é tanto mais desenvolvido quanto mais próximo do equilíbrio está, no entanto trata-se sempre de um estado dinâmico e não estático, que deve ser refeito a cada momento. Que equilíbrio é esse em termos astrológicos? O indivíduo tende para o equilíbrio quando consegue realizar dentro de si a união de pólos opostos, essa parece ser uma das funções que lhe compete no momento do nascimento. Essa aparente desunião contém a dualidade, chave da evolução ou transformação, que se realiza através dos contrários, frio-quente, positivo-negativo, yin.yang, masculino-feminino, etc. Essa dualidade e a consequente busca da unidade, forma o mecanismo base de qualquer mapa natal. Os 2 eixos fundamentais do mapa elucidam isso muito bem: o eixo Ascendente- Descendente, Casa1-Casa7, Eu e o Outro, Fogo e Ar, enuncia a união entre estes elementos opostos; o eixo Fundo do Céu-Meio do Céu, Casa 4-Casa 10, Àgua e Terra supõe a integração entre as energias emocionais (através do mergulho nas mesmas) e o cumprimento de uma vocação. Reparem que isto pressupõe a integração e o desenvolvimento de todos os 4 elementos, conduzindo o indivíduo a um estado equilibrado, de auto sustento, de auto realização.

Tentemos perceber a questão do equilíbrio energético, através de uma analogia com a alimentação macrobiótica, se o indivíduo está muito Yang terá que equilibrar esse estado energético com a absorção de alimentos Yin, desse modo restabelecendo o equilíbrio energético. No mapa natal, o potencial de desenvolvimento pode ser visto através da análise das polaridades, que visam restabelecer o equilíbrio energético, de molde que um elemento Fogo, por ex., se desenvolve “integrando” a polaridade oposta, Ar. Isso faz-se em relação à análise de posicionamentos dos planetas, aspectos, etc., é um pouco complexo, tentarei escrever um artigo só dedicado às polaridades e ao desenvolvimento pessoal através da integração de energias opostas.

Até ao momento em que o indivíduo não tome consciência dos pontos a desenvolver, está em desequilíbrio, não unificando dentro de si todo o seu potencial. O 1º retorno de Saturno energiza imenso esta temática, da tomada de consciência do que há a fazer para ganhar um novo padrão de equilíbrio energético, um padrão que dure e se desenvolva por mais 30 anos, até ao 2º retorno, entre os 57 e os 60anos. Porque se dão mudanças tão drásticas nestas idades? Porque ocorrem frequentemente enormes crises com reflexos a tão diversos níveis?

Afinal quem é este Saturno desgraçado de quem tanto mal se diz? Em termos astrológicos, é o regente de Capricórnio e da casa 10, análoga a esse signo. A sua órbita ou volta completa em torno do Sol, é de cerca de 29.5 anos, dai o 1º ciclo de Saturno ou 1º retorno se dar por volta dessa idade, em termos de trânsitos, é a 1ª Conjunção de Saturno consigo próprio. O signo de Capricórnio no seu mais elevado indica ambição de ser, de cumprir uma vocação, não no sentido meramente profissional, mas de se cumprir a si próprio como projecto inacabado, é o ponto mais alto das aspirações mundanas (cúspide da casa 10 ou Meio do Céu), a partir deste ponto já nada mais há para alcançar a nível terreno. Se a nível exterior o indivíduo (através do Ego) se identifica com sucesso, posição, status, visibilidade social, etc., a nível interior é também o começo da queda do Ego, a determinação dos Deuses de que Cronos deve renunciar ao seu reinado, a perda de poder exterior e o resgate do poder interior, preparando-se para o percurso final através das casas 11 e a12. Para muitos indivíduos, agarrados à forma, à matéria, esse pode ser um processo extremamente doloroso, como por vezes o são os processos saturninos. Saturno representa também o resgate da autoridade pessoal, através do processo de maturação e separação. Saturno está exaltado em Balança, signo do equilíbrio, isto já diz qualquer coisa, a “pressão” saturnina é sempre no sentido do equilíbrio, visto pelo lado do “aceitar o que se é, eliminando as limitações”, veja-se a capacidade de Balança em promover o equilíbrio, aceitando o Outro como é. Essa pressão é tanto mais sentida quanto o indivíduo não consciência de quem é. E quem é ele?

Isto levanta outra questão, ele é o Self ou ele é o Ego? Na psicologia existe essa distinção entre estes 2 termos, O Self é aquilo que realmente se é, o centro da personalidade, o Sol, cujo símbolo é uma circunferência com um ponto no meio, esse ponto central é o Sol, o Self, o Ego é o espaço que existe entre o ponto e a circunferência, digamos que é uma cortina ao Self, Saturno por sua vez será essa circunferência, que delimita esse espaço, digamos que é a fronteira do Ego, que por sua vez delimita o Sol, em termos espaciais isso também acontece, Saturno é a fronteira do nosso sistema Solar. Saturno é então uma fronteira e um limite, a sua função é “empurrar” o indivíduo de modo a que permaneça dentro dos seus limites, de modo a que cumpra o seu projecto, que se aceite como é e que perceba quem é. Mostrando-lhe as suas limitações, obriga-o a trabalhar especificamente nelas e a adaptá-las transformando-as em forças. Pelo que aqui se diz, parece óbvio que determinados indivíduos não estarão muito à vontade com esta imposição de fronteiras, sobretudo aqueles cujo Ego está muito desenvolvido, já veremos o que isso significa.

Socorro-me das palavras de Dane Rudhyar (Um Carneiro brilhante, astrólogo, poeta, músico, etc.) acerca desta temática: “O Ego não é o Self. O self É. Ele é o “tom fundamental”, a vibração que sustenta todo o organismo (corpo e psique) de um ser humano individualizado. O self é poder, não consciência. É o Eu em estado puro, não condicionado por conceitos ou palavras. O Ego, por sua vez, é aquele que pensa e declara “eu sou”, sempre acrescentando a essa afirmativa os traços condicionantes da sua “pessoa em particular”(…). Assim o Ego pode ser descrito como o “reflexo” do self sobre um campo social e culturalmente condicionado: o campo da consciência da pessoa como um todo.” Em que é que isso nos interessa para o 1º retorno de Saturno?

Se verificaram pelas palavras de Dane Rudhyar, transcritas do seu livro Astrologia Tradicional e Astrologia Humanista, o ego é uma capa do Self, que se desenvolve desde o momento do nascimento, que se identifica com um nome, com uma linguagem redutora e condicionadora, com um código de conduta, com valores, condicionando o modo de pensar e as respostas emocionais. Isso não tem que ter necessariamente uma conotação negativa, Dane Rudhyar exemplifica com uma analogia entre o embrião que desenvolve os seus órgãos no confinamento, nos limites útero materno, também o Ego necessita de uma família e de uma cultura de modo a atingir um estado de consciência, mas esse estado é uma mente potencialmente independente até do próprio ego. Essa primeira estrutura do Ego, é a que sofre o abanão por volta dos 30 anos, algo parecido acontece com os primeiros motores dos foguetões, após terem cumprido a sua função de transporte e impulsão, é tempo de serem abandonados. A velha estrutura deixa de fazer sentido e o indivíduo necessita de uma nova.

O 1º retorno de Saturno, entre os 28 e os 30 anos, determina o final do período formativo do indivíduo, a verdadeira idade adulta. Diz-se muito em astrologia que o homem só se conhece após os 30 anos. É o final do 1º ciclo formativo, há que fazer um “exame” para a entrada no 2º ciclo, Saturno pressiona para esse exame de consciência, promovendo a desintegração desse ego “placenta”, na medida em que for necessário para a continuação da vida pelo 2º ciclo. Mas o Ego é uma força de inércia, é um mecanismo mental que se identifica com objectos, ou com conceitos, como a da auto-imagem, o ego “agarra-se” a conceitos, levando o indivíduo a pensar que ele é esses conceitos ou objectos a que a estruturação do Ego o agarrou. “Tenho um estatuto a defender, é a minha imagem que está em causa” o indivíduo apega-se a isso, confunde imagem com ele próprio, e quanto mais o faz, de mais “espelhos” precisa que o definam como indivíduo, pois confunde imagem com real. O espelho pode ser um bom carro, o indivíduo sente que o carro é ele próprio, pois que o define, envaidece-se com essa imagem, acredita nela, se por qualquer motivo a consciência tenta projectar algo mais fundamental, mais verdadeiro, o Ego reage, sente-se ameaçado, e normalmente enclausura-se na velha estrutura, defende-se, “mecanismos de defesa”.
A uma necessidade de transformação, o indivíduo reage negando-a ou defendendo-se, fechando-se, mas é fundamental perceber que ela ocorre da mesma forma, se o indivíduo a percebe e se nela se integra, tanto melhor.

A energia saturnina promove uma certa interiorização, uma certa “mudança de pele” por volta dos 30 anos, incentiva ao resgate do poder pessoal por um processo de separação e maturidade, simbolicamente significa um corte com atitudes que já não fazem falta ao indivíduo, com práticas que fizeram sentido no seu período formativo, mas, uma vez que já é adulto, deixaram de o fazer. Este período é um dos de mais forte impacto porque promove a saída do “útero”, é um renascimento, desta feita consciente. Personalidades muito dependentes ou com egos inflacionados e agarrados, tem maiores probabilidades de sofrer neste período, pois que é um período que instiga à independência, à maturidade, ao auto conhecimento, quiçá à percepção da passagem do tempo, e isto também preocupa muita gente (as rugas, as rugas…).

Parece existir uma certa melancolia neste período, mas esse estado é o que proporciona o abaixamento dos limites do ego, é um estado introspectivo, muito parecido com o estado depressivo, mas que permite um insight, um acesso ao self, ao que se é verdadeiramente, melancolia também pela provável morte do velho ego, que coleccionou uma série de atributos, os quais agora se vê obrigado a abandonar. Todavia isso implica esforço, reconhecimento das limitações, correcções no projecto de vida, abandono de dependências, força de vontade. È necessário entender que caso o indivíduo se encontre numa posição de fragilidade, porque acha que não tem aquilo “merece”, uma casa melhor, um emprego melhor, uma relação melhor, ou seja o que for, toda a pressão Saturnina ainda se fará notar mais, dado que vem num momento em que o indivíduo está interiormente “minado” e isso pode ser realmente difícil, dando origem a sintomas conhecidos, baixa auto-estima, desilusão consigo e com o mundo, desespero, incapacidade para controlar a ansiedade, revolta, desorientação, falta de objectivos, desmotivação. Aparentemente, quanto maior a pressão sentida no período do 1º retorno, maior é o desajuste entre aquilo que o indivíduo possui e aquilo de que necessita para prosseguir a jornada. Há que perceber o que é que se torna necessário abandonar ou reciclar, que projectos, que ambições, que características de personalidade, que valores. Se Saturno no momento do 1º retorno pressiona para a maturidade através de separação (isso é equilíbrio), resgate do poder pessoal, isso pode significar uma crise de valores.

Porque são os valores postos em causa? Importa reconhecer se são valores do indivíduo, que fundamentalmente lhe pertencem ou se são de terceiros, dos pais, da sociedade, do seu grupo de “suporte” e que o indivíduo foi adquirindo ao longo dos 29 anos anteriores. O indivíduo é o que é porque assim o deseja ou porque lhe disseram que devia ser assim? O indivíduo tem medo de ser o que é? O indivíduo deseja a maturidade, a separação, a individuação? Certamente existem trânsitos anteriores que levam o indivíduo a por em causa se o que lhe estão a transmitir é correcto, se lhe serve o seu “projecto” fundamental, o 1º retorno de Saturno não é um acto isolado, é precedido de outros trânsitos também importantes e outros se lhe seguem, cada um com seu significado específico. Se os valores forem os seus, é provável que os próximos 30 se desenrolem de maneira mais ou menos consolidada, se forem alheios o indivíduo sentir-se-á interiormente pressionado a abandoná-los, podendo não o fazer por limitações financeiras, por medo ou por qualquer outra razão, mas se não o fizer, pode contar com o progressivo avultar dessa pressão, cujas consequências podem ser desastrosas. O aumento absolutamente brutal e desproporcionado do consumo de ansiolíticos e antidepressivos não é certamente alheio a indivíduos que se recusam a aceitar quem são, que não operaram neles mesmos, in illo tempore, as transformações necessárias de molde a poderem resgatar todo o seu verdadeiro potencial, são indivíduos incompletos, que tendem para o desequilíbrio.

Tudo o que implique esforço, consciência de si e das limitações, maturidade, é algo que muitos não querem nem ouvir falar, e Saturno implica tudo isso, impelindo a um movimento consciente, dirigido para o equilíbrio (estado a que erradamente se chama felicidade… algo que tal como a justiça, também parece não existir…).
É assim tão mau, como por ai dizem?