março 31, 2005

O 1º retorno de Saturno – Parte II

“Reconciliação entre as tendências biológicas e a pressão social, através da crença que o ser humano tem a capacidade de “transcender” estas forças e tornar-se num ser espontâneo, criativo e amoroso”, Erich Fromm

Nunca esteve na minha mente escrever um segundo artigo sobre esta temática, aliás inicialmente nem um primeiro, no entanto, após releitura do artigo inicial, creio não ter dito algo de fundamental, ou se disse foi de tal forma eufemisticamente, que poderá ter passado despercebido, e que é o seguinte: o 1º retorno de Saturno é o primeiro trânsito fundamental no sentido da individuação, é um tempo fundamental, que merece toda a reflexão e introspecção que se lhe dedique. Se existem 4 ou 5 trânsitos fundamentais em cada vida pessoal, este é o 1º, é análogo ao nascimento da pessoa, todavia agora é um nascimento consciente, deve existir um esforço consciente de maturação, separação e individuação.

A citação inicial é de Erich Fromm, psicólogo que propõe um humanismo dialético, que teoriza sobre as necessidades existenciais, propondo que “devem ser satisfeitas para que a existência de cada ser humano se torne significativa, para que o seu potencial e talento seja livremente explorado, e para que não ocorram distorções na pessoa”. Dentre essas necessidades cito 4: Identidade, o indivíduo necessita estar consciente do seu Self, do seu verdadeiro Eu, como entidade separada, de se individualizar; Unidade, sentido de união do seu Self com o mundo, de entregar a sua individualidade de forma criativa ao mundo; Transcendência, em que o indivíduo deixa de ser criatura ou criação, para passar a ser co-criador; Efectividade, satisfazendo a necessidade de que se pode fazer na vida algo de significativo. Se estas necessidades são fundamentais, o 1º retorno de Saturno é talvez o primeiro momento em que todas estas campainhas são tocadas em simultâneo, pode portanto, ser ensurdecedor.

Talvez ainda não tenha sido suficientemente enfatizado, nem no artigo anterior, nem em outros que escrevi, que é primordial que exista maturação, através da separação. Estamos num momento da sociedade portuguesa, em que o prolongamento da vida em casa dos pais é cada vez mais um dado adquirido, por um lado os pais tem melhores condições económicas que lhes permitem sustentar os filhos em casa, por outro lado porque os filhos se casam mais tarde, ou porque não arranjam emprego, ou porque estão a estudar na universidade, etc. Cabe perceber que a responsabilidade desta situação é dividida entre pais e filhos. Aos pais, porque lhes permite “controlar” a vida dos filhos, ainda que verbalizem o contrário, perpetuando um papel que gostam de fazer mas que é potencialmente danoso, o de providenciar tudo aos filhos. Aos pais ainda, porque por vezes não tem projecto de vida próprio e quando os filhos saem de casa ficam “desorientados”. Numa outra vertente, essa situação confere-lhes um poder de influência que de outro modo não deteriam, determinando escolhas aos filhos, ainda que o processo seja mais ou menos encoberto pelo tradicional “é o melhor para ti”, quando se trata por vezes de ser o “melhor para eles”. Com isto fazem-se casamentos, tiram-se cursos, arranjam-se empregos, tomam-se decisões, as mais das vezes a coberto de uma capa de querer o melhor para o outro, mas que apenas serve os interesses próprios. Isto pode parecer tudo muito injusto, mas cada leitor deste artigo que se dedique a analisar por si e pelos que o rodeiam, de quantos podem afirmar que fizeram todas as suas escolhas de modo totalmente independente da vontade dos pais? Um olhar reprovador na escolha da área vocacional do 10º ano pode determinar a escolha de um curso e de uma carreira, “estavas bem era na função pública”, “esse teu namorado, de que família é”. A quem servem estas perguntas?

Uma abordagem humanista tem como base o princípio de que o Outro tem condições dentro de si para encontrar as respostas de que necessita para prosseguir com a sua jornada. Temos pais humanistas? Se repararmos, hoje em dia muitos pais afirmam que “deram tudo o que podiam”, com efeito, mas referem-se sobretudo a bem materiais. Não ensinam a reflectir, a sentir, a analisar, a compreender-se a si e aos outros. Limitam-se a despejar os seus próprios conceitos, crenças e valores, os quais também já lhe foram despejados, crendo com isso que estão proporcionar uma educação. Muito poucos tem coragem de dizer aos filhos, “isto serve-me a mim, mas talvez não te sirva a ti”. Obviamente esta negação de independência tem consequências futuras, um filho que se habitue a que façam escolhas por si, adopta convenientemente esse comportamento em várias áreas da vida, quiçá reagindo através de uma busca desesperada de segurança, pessoal, profissional ou familiar. É no casamento que tudo se joga, é sobretudo o padrão que muitas mulheres carregam, nos homens é mais a vertente da profissão que sai afectada.

Há que entender que os modelos e hábitos psicológicos herdados do molde parental, cultural, social e religioso, dos primeiros 30 anos de vida, podem ser discutíveis para as necessidades daquele indivíduo específico, sobretudo se o mesmo não “crivou” toda a informação que lhe foi passada, o que acontece o mais das vezes, pois muito poucos pais habituam os filhos a terem um visão crítica e de análise, sobretudo porque não querem ser contrariados.

Acontece que muitos pais amam os seus filhos de forma tão avassaladora que basicamente acabam por projectar a suas necessidades neles, à semelhança de qualquer outra relação amorosa inconsciente. A criança, totalmente desprotegida perante isso, vê-se à mercê de ensaiar um destino que não é o seu, e só com alguma predestinação o projecto acaba por resultar bem sucedido. Aos filhos cabe também aferir responsabilidades, pois desde o momento em que começam a poder sentir e avaliar as experiências por si próprios, tem a possibilidade de se irem libertando do molde parental, social, cultural ou religioso, sobretudo se o molde implica negativamente nas suas necessidades específicas. Para cada um, a sua dose, o que para um indivíduo pode ser trágico, para outro, uma benesse. Por vezes à lugar à rebeldia contra essa situações (os personagens mais aquarianos conhecem esta temática), contudo a rebeldia pode ser a forma inversa da passividade, pelo que ambas estão dependentes do modelo parental, é possível uma terceira via, não passiva, não rebelde, mas tendencialmente madura. Não há qualquer necessidade de “cortar” relações com os pais ou com quem quer que seja que represente repressão ou aquilo de que não gostamos, pois se considerássemos o corte de relações com pessoas que não nos dão apoio incondicional, que nos criticam, julgam ou avaliam, rapidamente nos veríamos sem ninguém à nossa volta.

O grande perigo, que aliás a Maria que me “obrigou” a escrever o primeiro artigo, percebeu, reside no facto de se não aproveitar o momento para se fazerem os cortes necessários, determinando um novo ciclo de 30 anos, em que o indivíduo se tenta convencer de que é adulto, independente e auto-suficiente. Mas o indivíduo nunca alcança uma total libertação dos modelos e necessidades da infância, “a desastrosa repetição do modelo familiar pode ser descrita como o pecado original psicológico ou como a maldição dos Atridas que percorre as gerações”, conforme escreve Jung, em Mysterium Coniunctionis. Esse perigo também é o da morte interior, o do não resgate daquilo que se efectivamente é, dos seus próprios desejos, porque se confundem com os de outros, levando o indivíduo ao ressentimento, à frustração de viver uma vida e escolhas que não foram as suas.

Ficou agora claro que existe um preço a pagar pelo obscurecimento das necessidades próprias em prol das alheias? Ficou claro que, se por volta do 29/30 anos o indivíduo se encontra insatisfeito e se não sabe porquê, isso se deve à introjecção de valores que não lhe pertencem e que deve fazer um esforço activo no sentido de os perceber e de “acertar agulhas”? Que este é o momento fundamental para cortar com tudo o que já não faz falta, que muitas vezes essa bagagem é psicológica e de difícil acesso ao conteúdo? Que por vezes é preferível pedir apoio neste período por vezes difícil, do que enfrentar essa tarefa isoladamente e de forma não distanciada e subjectiva, porque pedir apoio é um sinal de maturidade, de alguém que enfrenta, o medo de se enfrentar.