março 14, 2005

Peixes e os relacionamentos - I

Peixes e os relacionamentos - I

Fantasia, romance, empatia, desilusão. Até parece que somos todos de Peixes, não é? Vimos em artigos anteriores, algumas possíveis facetas características destes indivíduos que correspondem ao descrito nas primeiras linhas deste parágrafo. No entanto esta é uma visão redutora, aliás, toda a visão astrológica como tentativa de explicação de um sistema complexo é uma visão redutora. Um erro comum será sempre o de tentar encaixar pessoas em moldes.

Se considerarmos que uma fonte importante de autoconhecimento pode ser o Outro, percebemos a importância do relacionamento no crescimento pessoal. Há no entanto que ressalvar que esse conhecimento não provém do Outro, advém dele porque nos reage e porque lhe reagimos. Como é que isto se processa? Andaremos nós a perguntar ao Outro “quem sou Eu”, qual espelho mágico? Ou conhecemo-nos quando o Outro nos “define”, através da sua “imagem” que tem de nós, que muitas vezes aceitamos se nos convém e rejeitamos se ao contrário? Nenhuma destas abordagens parece ser a correcta. O Outro é para nós fonte de conhecimento quando entendemos porque lhe reagimos de determinada forma, quando compreendemos porque é que nos identificamos ou não com o que faz, quando o criticamos por algo que em nós ainda desconhecemos ou rejeitamos. É por todo um conjunto de interacções que se dá entre nós e o Outro, que podemos ficar a conhecer melhor as nossas limitações. O outro coloca-nos limites? Não, permite-nos conhecer as nossas limitações, sobretudo se estivermos dispostos a aceitar a responsabilidade pessoal pelas mesmas, caso contrário o Outro sempre será o nosso bode expiatório favorito. E irá pagar por isso…

A forma como cada indivíduo se entrega ao amor relacional é diferente. Porque é que apelido o amor de “relacional”? Porque creio que o amor existe em vários sabores, atracção sexual, amor platónico, compaixão, paixão, relacionamento amoroso, etc. O que parece muitas vezes falhar é a forma como percebemos o amor que estamos dispostos a dar e/ou receber, ou seja, misturamos tudo e dizemos que amamos. Dependendo do signo e do sexo envolvido, parece existir mais pendor para dar ou receber, para amor paixão, platónico ou qualquer outra forma. Esse problema da “má avaliação” ou inexistente avaliação amorosa, também é pisciano, e se deriva parcialmente da idealização ou fantasia, não o é menos devido à falta de auto conhecimento, mas aí, o caso generaliza-se aos outros signos.

De que modo esta questão tem vindo a ser agravada de maneira cultural, é algo que parece ainda estar por explicar. Toda a panóplia de sugestões que nos fazem crer no final feliz, vem de encontro a uma necessidade fundamental, mas também egoísta: a de sermos amados. Pelo contrário, a de amar que é altruísta, parece subvalorizada nos tempos que correm, no entanto as duas devem coexistir, de maneira a que a gama de emoções ligadas ao amor que vivenciamos, seja a mais adequada à nossa experiência de um amor completo. Por outro lado, sempre que necessitamos de nos distrair, de alguma fantasia nas nossas vidas, vamos ao cinema, lemos um livro, compramos uma revista do “coração”, e ai está novamente a promessa de amor eterno. Vejam-se os filmes animados para crianças e logo ai se entende que é uma promessa que começa a calar fundo nos nossos corações desde cedo. O amor eterno e a esperança de que tudo permaneça imutável, o amor de nossos pais, no futuro, daqueles com quem nos relacionamos, a angústia da separação, e o happy end que faz brotar a lágrima à pedra mais inerte. Mas a luz acende-se no fim do filme, de volta à realidade, a promessa não existe, mas por ser tão desejada, tão inerente ao humano, ela é fortemente idealizada. O mundo serve apenas para satisfazer as nossas expectativas e isso é acentuado pela promessa, desde a política, à economia, ao entretenimento e também infelizmente, à arte.

A realidade parece ser outra. Estamos na temática da idealização e da ilusão, que é fortemente pisciana. Pessoas que no amor sejam piscianas, podem carregar consigo estes “genes”. Como identificamos o Peixes no amor? Ou como podemos dizer que aquela pessoa é pisciana no amor através do mapa? Vimos anteriormente como se pode identificar um Peixes no mapa natal. Temos um Peixes no amor-relacionamento, quando o nativo tem fortes qualidades de Peixes e se tem Vénus em Peixes, ou na casa 12, ou em aspecto com Neptuno, ou Neptuno está na casa 7, ou é regente da casa 7. Se o nativo já tem fortes qualidades de Peixes per si, todas as áreas da sua vida irão ser permeadas pelas suas qualidades fundamentais. Ainda há uma outra distinção a fazer: em se tratando Vénus e o seu complementar Marte, homens e mulheres vêem ambos através de lentes um pouco diferentes. É diferente analisar um homem com Vénus em Peixes de uma mulher com o mesmo posicionamento. Um mapa é sempre uma fonte de contradições e no que ao amor diz respeito, essa asserção não é excepção, mas são essas contradições que permitem a evolução, ainda que possam trazer consigo algum sofrimento.

Um nativo com Sol em Peixes, regra geral também ama como um Peixes, independentemente de ter Vénus em Aquário, todavia esse dado obriga a uma nova síntese, o nativo provavelmente necessitará de dar vazão às necessidades aquarianas delineadas por esse posicionamento. O que quero realçar é que se o carácter do indivíduo é pisciano, fundamentalmente, ele vai “entregar” o amor relacional como um pisciano. Se os restantes elementos do mapa ligados à relação “batem certo” e não há ameaças, a vida amorosa decorre mais ou menos tranquila. Se há dissonância, o nativo terá que evoluir até perceber porque é que os relacionamentos acabam, seja ele a tomar a iniciativa ou as pessoas com quem se relaciona, e atenção que um relacionamento pode estar acabado à muito sem que ambos os membros se apercebam.

A tese que defendo aqui é um pouco diferente da dos manuais de astrologia, sobretudo aqueles que atribuem a Vénus toda a problemática ligada ao relacionamento e ao amor. Com efeito, o indivíduo não deixa de ser quem é (idealmente não deveria deixar de ser, o que se verifica contudo é que muitas pessoas se anulam, mas disso, depois falaremos) por se relacionar com o outro e para isso conta com a parte de leão, o Sol no signo tal, a sua mais profunda marca. Se o Sol depois faz aspectos que alteram bastante esse cariz básico que é o Sol no signo, é outro assunto. Mas se levássemos em conta apenas o Sol, já teríamos uma forte ideia de como o nativo ama. Depois são as nuances (aspectos de Vénus, Marte, etc.) que tornam tudo mais complexo e porventura também mais interessante.

A trama de Peixes no relacionamento gira à volta dos seguintes temas ou eixos, e repare-se como são ambas faces da mesma moeda: São nativos de grande sensibilidade, cujo perigo pode ser a susceptibilidade exagerada; tem uma enorme compaixão pela dor e sofrimento alheio, cujo perigo é o de se tornar vítima ou cair na tentação de ser o salvador. Tem um carácter gentil, ameaçado de ser fraco ou pouco realista. A facilidade que o nativo tem de compreender o outro a um nível emocional (Água) e de “falar” ao coração, todavia com a armadilha de uma vulnerabilidade virtualmente impossível de fazer evoluir o relacionamento. O nativo tem uma imaginação fértil, que pode conduzir a uma visão vaga e deludida da vida. Pelo facto de se encontrar naturalmente aberto às emoções, corre o risco de não saber o que fazer com elas, pelo que encontrando parceiros que aparentemente não o compreendem, tem a tentação de “bater em retirada”, ainda que permanecendo no relacionamento. Um esforço no sentido de clarificação das emoções e de uma melhor expressão das mesmas é positivo para quem se identifique com estas problemáticas.

Todos os personagens fortemente aquáticos (Peixes, Caranguejo, Escorpião) têm uma paixão convicta pelas suas impressões emocionais e acreditam piamente que as suas emoções não os enganam. Isso seria algo de bom, se fossem pessoas espiritualmente envolvidas no seu auto desenvolvimento, uma vez que desse modo teriam mais instrumentos para se conhecerem interiormente. A elevada capacidade de “recepção” psíquica dos nativos aquáticos serve-os de facto bem, conquanto estejam “afinados”, caso contrário navegam em “águas turvas” ainda que convencidos de que são claras e transparentes. Uma ilusão, pode ser apenas uma visão errada.

Esta é a primeira parte deste artigo, para a semana teremos mais Peixes e relacionamentos. Não perca, ainda que não seja de Peixes, pode ter uma Vénus em aspecto estreito com Neptuno, ou em Peixes ou até Neptuno na casa 7. Não sabe do que estou a falar? Peça o seu mapa e descubra as suas nuances.