março 20, 2005

Religião, fé, ética e moral

Solicitei a vários amigos de várias origens espirituais ou com vários saberes, que partilhassem no psicótico as suas reflexões sobre as temáticas que aqui se abordam. O primeiro desses amigos a oferecer-nos a sua partilha é o Horácio Lopes. Membro consagrado da Comunidade católica Emanuel, médico, professor universitário, psicoterapeuta, poeta e um grande dançarino de salsa, não existem contudo adjectivos suficientes que nos possam relevar todos os seus interesses e saberes. Muito obrigado Horácio, pela tua dádiva e reflexão.

"A pedido do meu Amigo João, passo a tentar partilhar algumas reflexões básicas sobre temas que fazem parte deste blog.
Sou Católico convicto. Não acredito na Astrologia. Um dia poderei partilhar um pouco da visão cristã sobre esse assunto, e da razão pela qual os Católicos não acreditam na Astrologia.
Para já, vou tentar reflectir um pouco convosco sobre o assunto que me foi pedido.
Não é raro encontrarem-se cruzadas, em regime de co-ocorrência, referências à religião, à fé, à ética e à moral. Para uma grande parte do público, aliás, os discursos religiosos são quase sempre conotados com significações morais e vice-versa. Mas afinal, qual é, se existir, a conexão entre a mística e a moral?


No discurso de Bergson (pensador de grande importância no despontar de um novo paradigma científico) a mística é um contacto, a expressão directa do impulso vital. Por isso só os místicos nos podem falar de fé, crença e religião, tal como só os filósofos falam de filosofia.
Contudo, como nos chama a atenção Alberoni, quando Bergson fala de mística refere-se essencialmente aos grandes místicos cristãos, uma vez que há, de facto, uma mística cristã que é uma fusão amorosa com a pessoa (ou pessoas) de Deus, e uma mística oriental, sem impulso amoroso e sem a existência de uma divindade pessoal, e que conduz à diluição da pessoa humana, ao nirvana.
O verdadeiro cristianismo sempre conduz a um altruísmo activo, uma vez que toda a aprendizagem religiosa é canalizada no sentido de levar o homem a sair de si para ir ao encontro do Outro e, assim, dos outros. Só um impulso verdadeiramente amoroso pode fazer brotar a bondade e a moral autênticas, pelo contacto com o Absoluto que encontra (no nosso ponto de vista) a sua expressão máxima na religião. Não é, por isso, à toa que hoje, se quisermos ser justos e verdadeiros, facilmente reconheceremos que quem se ocupa realmente dos drogados, dos miseráveis, dos moribundos dando-se por vezes inteiramente a seu favor, são principalmente pessoas religiosamente inspiradas.
Dito de outra forma, podemos concluir que a moral puramente laica é mais fria e mais próxima da justiça nua e crua, uma vez que a moralidade como amor ou dedicação é típica das religiões que concebem Deus como pessoa, como um “tu”. Assim sendo, podemos também dizer que o Deus da experiência moral deve ser pessoa e, por isso, a moralidade tem, de alguma forma, necessidade da experiência religiosa, pois necessita do contacto com o absoluto e, ao mesmo tempo, de um interlocutor pessoal, de uma consciência.


Do nosso ponto de vista, a manifestação religiosa é fulcral e primordial em qualquer grupo humano. E se a sociedade dos nossos dias tentou banir Deus, vemos que as manifestações do tipo religioso pululam. Em determinadas formas da sua manifestação, a religiosidade é rigorosamente colectiva, por dizer respeito à sociedade; indivíduo e divindade desaparecem, tornando-se realidades difusas e impessoais. Desde o seu aparecimento nos anos 60 (com os grandes movimentos de jovens, a revolução sexual), esta forma colectiva da religiosidade não faz senão tentar responder à necessidade de sentido, que é vital, e sobrevive, por exemplo, sob a forma de concertos rock, com uma cenografia repleta de excessos em luzes, cores e fumos. É uma religião do mundo e da natureza, surgida como desafio ao puro esvaziamento de cada valor, que é promovido pela racionalista e fria sociedade dita cientifica.

Bergson diz que o impulso vital precisa de um obstáculo, que é a matéria, para criar formas: e a matéria, ao opor-se-lhe, consente a criação. E, por isso, poderemos concluir que o obstáculo faz, estruturalmente, parte da experiência moral: a moral é sempre como que a superação de um obstáculo, de uma prova. O indivíduo, que é o único sujeito moral, luta contra a morte, que é o seu fim absoluto, o desabamento da sua individualidade. Nesta perspectiva, tanto a morte como a dor, são os órgãos-obstáculo da vida. É, neste sentido, a morte que dá sentido à vida, tornando-a qualquer coisa de precioso, a conservar, a defender, a prolongar, a enriquecer.

Ao fazer a definição da moral, Lucien Sève (1997) explica que ela consiste na livre aceitação de um dever que a vontade entende como necessário por indicação da razão. Se existe um confronto entre as minhas inclinações sensíveis e a lei moral, podemos dizer que existirá um constrangimento, expresso e formalizado num imperativo. Um imperativo ético que é incondicionado e me ordena objectivamente o próprio fim («Deves...»), não de maneira externa, como acontece com a legislação jurídica, mas interna: é esta a grande especificidade da lei moral, pois é absolutamente certo e seguro que nenhuma legislação exterior pode fazer que nos proponhamos um fim.

A visão kantiana da moralidade interessa ainda por uma razão: religiosa nas suas justificações últimas, ela é estritamente laica no seu modo de utilização. Na verdade se, por um lado, nenhuma doutrina do soberano bem é pensável até ao fim sem adesão àquilo a que o próprio Kant chama os «postulados da razão prática» (realidade da liberdade, imortalidade da alma, existência de Deus), por outro lado, segundo ainda os seus próprios termos, uma doutrina religiosa não tem qualquer lugar numa ética do sujeito racional. Considerada objectivamente, a moral não tem qualquer necessidade da religião, uma vez que ela se basta a si própria graças à razão pura prática. Ora, em tudo aquilo que diz respeito à razão, todos os homens, quaisquer que sejam os seus sentimentos e opções religiosas, podem acabar por chegar a acordo. A necessidade da fé em Deus assumiria, desta maneira, mais um carácter de falta que de dever.
Dito de outra forma, poderemos resumir a reflexão kantiana se dissermos que sem distinguir moral e ética, como muitos hoje em dia fazem, Kant define a vida moral como o exercício atento de um juízo ético em situação, cujas bases de compreensão já apresentámos acima. Daqui decorre que a incondicional obrigação de respeitar a humanidade em cada pessoa resulta de uma necessidade interior experimentada por todos.

Apesar de tudo, não podemos deixar de reconhecer e afirmar que no sentido vulgar da palavra, não há «moral kantiana». A moral de Kant é, pura e simplesmente, a do Evangelho, tal como a compreende um protestante piedoso e que é também um grande homem das Luzes. E se Paul Ricoeur é de opinião que a religião não entra em competição com a não religião naquilo que concerne aos fundamentos da ética, já Hans Jonas, que se interroga igualmente sobre aquilo que deve ser uma ética preocupada com o respeito pelo Homem no nosso tempo, afirma que o próprio respeito já não é suficiente, havendo que admitir que a evacuação da transcendência tenha sido, talvez, o erro mais colossal da história, sendo absolutamente urgente renunciar ao exclusivo e feroz antropocentrismo da ética ocidental tradicional e redescobrir aquilo que ele nos desvela de «sagrado»."

Horácio Lopes

Nota: Sublinhados do autor