abril 25, 2005

25 de Abril e 1º de Maio. São de Touro?

Entendo a astrologia como uma tentativa filosófica de compreensão do mundo. Se inicialmente essa tentativa teve como hipótese a predição, a capacidade de prever e de dominar o desconhecido exterior, neste momento é da hipótese de domínio e conhecimento interior que se trata, ou pelo menos daquilo que eu acho que pode ser, no entanto é sempre desafiante tentar aplicar o conhecimento astrológico a outros processo que não o individual. Vejo isto mais como uma possibilidade de conhecer a astrologia, do que propriamente como uma tentativa de explicação da história e das duas uma, ou nada disto faz sentido e a ocorrência de coincidências é meramente casual, ou eu tenho insuficiente informação que me permita montar o puzzle na sua totalidade. Em ambos os casos, também não estou interessado no resultado final, somente no processo.

Claro que existem muitos que ainda visam utilizar a astrologia para predizer acontecimentos, as intenções são sempre válidas, todavia parece claro que é neste momento impossível obter um mecanismo que dê respostas exactas. Einstein tentou decifrar o pensamento de Deus, através da Lei da Relatividade e proclamou que “Deus não brinca aos dados”, no entanto a Física Quântica fala em probabilidades de ocorrência, sendo que a partícula sub-atómica tem probabilidades de ser e não ser, de estar e não estar em simultâneo. A ciência está deste modo em vias de casar o determinismo com o livre arbítrio, algo que não me surpreenderia, pois parece ser essa uma hipótese: estamos prédeterminados pelo que nos aconteceu anteriormente, mas em cada momento temos a capacidade de escolher. Bem, em que interessa isto para o 25 de Abril? Creio que quis desajeitadamente chegar à hipótese da astrologia como possibilidade de explicação de todos os fenómenos. Isto até a mim me parece ridículo e algo pretensioso, no entanto não deixa de ser interessante como desafio intelectual.

Comecemos pelo 1º de Maio, dia do Trabalhador. Touro representa para mim o desígnio do auto sustento, cujo paradigma é justamente o trabalhador, aquele que busca prover ao seu auto sustento, mas que simultaneamente procura discriminar o que para si é melhor na tentativa de se auto prover, chamando-se a esse processo a auto valorização. Essa auto valorização parece ser algo que está esquecido entre os trabalhadores, que parecem ter transferido essa hipótese para quem lhes paga os ordenados. Vários perigos existem na entrega da auto valorização a um processo externo à pessoa, por um lado a criação da dependência no processo, por outro a inibição dessa tendência que considero interior. Dou um exemplo rápido que permita suportar esta hipótese, tudo o que iniba processos internos de auto regulação é inadequado à evolução. Um indivíduo que coloque creme protector solar na pele, está a inibir a pele de se auto defender, transformado um processo de auto regulação, em dependência, pelo que no dia em que o indivíduo deixar de usar o protector a pele não estará preparada para se auto defender.

O processo de auto valorização que conduz ao auto sustento parece ser um processo interno, quando esse processo é endossado para fora do indivíduo, ouvimos o conhecido “não me sinto valorizado no meu emprego, o meu chefe não me valoriza devidamente”, ora bem, isso até pode ser verdadeiro e muitas vezes é, mas sobretudo é consequência da passagem da validação interior para o exterior. O auto sustento passa pelo indivíduo se saber valorizar, quiçá avaliar, devidamente. Olvidar a necessidade de dar continuação a um processo de aprendizagem, de adquirir pelos seus próprios meios mais conhecimentos, de se auto valorizar, é desperdiçar uma força motriz que parece natural e inata.
Qualquer trabalhador por conta própria percebe isso, se não actualizar mais ou menos permanentemente os seus conhecimentos, corre o risco de se ver ultrapassado, isto deveria ser válido para aqueles que trabalham por conta de outrem, a auto valorização é um acto acima de tudo individual, e creio isso como algo profundamente inerente ao indivíduo. A presente desvirtuação no mercado de trabalho é também consequência desta inaptidão, como parece óbvio se o indivíduo está por conta de outrem, deixa essa possibilidade de valorização nas mãos de terceiros, no entanto como justamente está na empresa, essa hipótese de valorização obriga a tirar horas de trabalho para o estudo, seria desse modo credível que as empresas fossem obrigadas a promover essa valorização nos seus colaboradores, algo que acontece quando há “subsídios”, caso contrário é o que se sabe. Touro e a sua necessidade de auto sustento, determina a necessidade de adquirir, manter e actualizar competências, mas tudo isto é gestão e não astrologia.

Quanto à ideia do 25 de Abril, não sei até que ponto posso dizer que foi ou é um acontecimento de Touro. Se pensar na ideia dos cravos como simbolização do não derrube de sangue, fico um pouco confuso. Se pensar que Touro promove o auto sustento, a auto valorização, o aprofundamento do ser através da reflexão sobre os valores, e que o 25 de Abril pretendeu justamente retirar um Estado Novo que inibia essa possibilidade, talvez o processo se torne mais claro. Parece óbvio que não foi um momento de auto determinação, como seria em Capricórnio, não foi um momento de arranque, um novo começo, como aquele que poderia ser ditado num cenário de pós guerra civil, em que tudo teria que começar de novo, mas parece ter sido antes um momento de viragem.

Ainda hoje oiço os saudosistas de Salazar, afirmando o quanto era bom esse tempo, todos tinham trabalho, o dinheiro rendia, existiam valores, etc., mas creio que fundamentalmente as pessoas estavam inibidas de tudo o que está associado à simbologia Touro: a reflexão sobre valores, era quase totalmente proibida, os valores “Deus, Pátria, Família” eram exógenos e ditados ao indivíduo acentuando uma dependência dos mesmos, a impossibilidade que todo esse processo designava de permitir avançar na busca de respostas interiores, dado que o mesmo se encontrava centralizado no exterior. A revolução de Abril trouxe em última análise a hipótese do indivíduo reganhar uma verdade fundamental: a de que em última análise, a única pessoa de quem depende e com que pode contar é consigo próprio, esse é o paradigma do auto sustento e é também o de Touro, se foi o da revolução de Abril?