O Ascendente
“O signo ascendente é aquele que desponta no horizonte leste, na hora do nascimento, numa determinada latitude e longitude da Terra”. Se olharmos o mapa natal, o Ascendente é a linha que marca o começo da casa 1 e o final da casa 12. O Ascendente muda a cada 2 horas, percorrendo os 12 signos (30 graus cada=360º total) em cada dia, portanto podemos dizer que a cada 4 minutos avança um grau. É calculado em função da hora mais exacta possível do momento do nascimento, e por esse momento entende-se o primeiro choro do bebé, o momento em que pela primeira vez se “afirma” como dotado de voz individual. Alguns astrólogos falam do momento do corte do cordão umbilical, momento esse que simboliza a separação e individuação, como sendo o verdadeiro nascimento, todavia esse pode não coincidir com o do primeiro choro. Nestes casos em que o corte do cordão umbilical se dá por vezes alguns minutos após o nascimento, para que exista um espaçamento e um pequeno período de adaptação à vida exterior, “uma aterragem mais suave”, só uma correcção do mapa quando o indivíduo já é adulto, pode permitir aferir da hora exacta. Existe muito pouca informação disponível sobre este assunto, e só estando presente alguém que esteja sensibilizado para esta questão, apontando inclusivamente os 2 horários, se podem tirar conclusões futuras. Outra questão que se torna problemática no cálculo da hora, é o facto do nascimento se efectuar de cesariana, o que implica uma “correcção” no curso natural, determinando imprecisão no que diz respeito a esse ângulos. Existem astrólogos que procedem a correcções horárias cobrando taxas elevadas, todavia o mapa natal pode sempre ser levantado, porque os planetas se movem muito lentamente, o Sol, um grau por dia, logo quatro minutos, correspondem a 1/360 avos da deslocação do Sol, se o cálculo estiver errado por 15 minutos, isso corresponderia aproximadamente a um erro de 4/360 avos, desprezível portanto.
No entanto, quer no mapa natal quer no cálculo dos trânsitos e progressões, a exactidão dos graus do Ascendente e do Meio do Céu (cúspide da casa 10) é extremamente importante, porque um desfasamento de 4 minutos=1º, pode determinar a um trânsito de Plutão (250 anos de órbita) um afastamento de 8 meses desse ponto. Considerando que as práticas mais antigas arredondavam bastante as horas de nascimento, é sempre de encarar com bastante reserva os aspectos ao Ascendente e ao Meio do Céu, se não existirem certezas. Outra vertente que fica afectada, é todo o sistema de construção de casas, pelo que um planeta que esteja nas fronteiras das casas, pode ser visto de três maneiras a) como sendo dessa casa b) como sendo da casa que o precede ou que lhe sucede c) como sendo das duas em simultâneo. Inclusivamente as casas não devem ser consideradas áreas estanque, dado que a sua área de influência parece ser um pouco maior do que a dos signos, apenas um exemplo, se um signo determinado planeta cai entre os 29º15’ de um signo e os 0º30’ do seguinte, podemos afirmar que esse planeta pode ser permeado das qualidades dos 2 signos, tornando-o mais complexo do que o normal. Já quanto às casas, o conhecimento existente parece determinar uma importância acrescida dessa energização, a partir dos 6º antes da cúspide, pelo que usualmente forneço os dados dessa casa e da seguinte a quem tem planetas a partir dos 24º dessa casa, ficando desse modo o cliente com informação relativa às duas casas e podendo perceber melhor a problemática implicada. Isto pode fazer derivar alguma confusão, porque algumas casas oferecem contrastes tão grandes que o indivíduo tende a automaticamente recusar a interpretação da “pior” em favor da outra, no entanto é de ponderar que a interpretação pode ser feita de 3 maneiras, como expus anteriormente. Todos estes factores são devidamente alertados nos mapas que envio aos clientes, de modo a que algumas informações possam ser lidas com as devidas reservas.
Podemos fazer um cálculo mais ou menos mental, que nos permite calcular um Ascendente com razoável exactidão. Se soubermos a hora em que se levanta o Sol, digamos que em Abril em Portugal, se levanta por volta das 7 horas, a pessoa que nasce em 5 de Abril tem o Sol em Carneiro, se nascer entre as 7 e as 9 horas da manhã, o seu Ascendente é Carneiro, porque o Sol desponta nesse signo, se o indivíduo nascer no dia 1 de Julho, o Sol está no grau 8 ou 9 de Caranguejo, se nascer às 7 horas (assumindo que o Sol se levanta a essa hora), o seu Ascendente é Caranguejo porque o Sol está despontando nesse signo. Se soubermos a hora exacta aproximada do levantar do Sol, a partir da hora de nascimento é perceber que a cada duas horas aumenta um signo, no caso anterior entre as 7 e 8.30 (por causa dos 9 graus de afastamento) seria Caranguejo, nas 2 horas seguintes Leão e por ai fora, mas para isto existem os computadores, todavia experimente calcular mentalmente um Ascendente para Sol em Sagitário, às 18 horas.
Chegou a Gémeos? Provavelmente, acertou!
Vamos agora à problemática do Ascendente propriamente dito, começarei por transcrever e analisar alguns excertos de autores que mereçam relevância quanto às hipóteses que propõem.
“O signo Ascendente define as reacções do indivíduo perante o mundo externo, sua personalidade, sua imagem projectada, seu jeito de ser e algumas tendências a serem desenvolvidas durante a sua vida”. Maria Eugénia de Castro et al, in O Livro dos Signos. É uma definição algo ampla, quiçá interessante, no que diz respeito a tendências a serem desenvolvidas, sobretudo porque a autora pretende chamar a atenção para o facto do signo oposto ao Ascendente, o que está no descendente ou cúspide da casa 7, ser aquele que o indivíduo tem hipóteses de desenvolver em si (entre outros), de modo a que se complete. O mecanismo do desenvolvimento através das polaridades parece ser correcto, já se considerarmos que muitas vezes um Ascendente corresponde a uma certa máscara, não vemos o interesse na possibilidade do seu desenvolvimento, parece-nos que pelo menos neste livro, a autora se eximiu a explicações mais profundas sobre este aspecto, não obstante a utilidade documentada pelos seus comentários quanto a signos ascendentes e descendentes.
“Uma ideia útil na compreensão do signo Ascendente é a do “papel social”. As famílias atribuem a cada membro um “papel” e pressionam-no no sentido de que ajam de acordo com essas expectativas. (…) Ainda que por vezes representados com grande sacrifício e custo pessoal, esses papéis familiares criam uma certa “zona de conforto”, (…) Nós precisamos do Ascendente (…) protege a nossa facilmente ferida auto-estima contra um mundo por vezes demasiado hostil e ajuizador. (…) Antes da maturidade, necessitamos do Ascendente como uma capa protectora, como uma semente necessita da casca. As características do signo Ascendente formam uma concha protectora, para o por vezes frágil sentido do Self representado pelo Sol. O signo Ascendente dá-nos um uniforme para usarmos no mundo, o qual desejavelmente poderemos despir em privado. Não é o nosso verdadeiro Self, esse é o Sol, mas antes aquilo que levamos as pessoas a esperar de nós. A dificuldade surge quando a pessoa fica presa no Ascendente, enterrando o núcleo do seu ser, na postura (posturing, no original)”. Donna Cunningham, in How to Read Your Astrological Chart. Implícito à ideia da autora está a noção de Ascendente como capa protectora ao Sol (Self), embora não se refira ao Ego como sendo o Ascendente, a maneira como o descreve assemelha-se um pouco às funções do Ego, de algo que é modelável, de uma casca protectora. Nos artigos anteriores respeitantes ao 1º retorno de Saturno abordei um pouco a questão do Ego e do Self, e da necessidade de rompimento de uma certa casca que deixa de ter utilidade, quiçá desenvolvendo outra, por volta dos 30 anos. Nesta autora o Ascendente é quase visto como um acessório, como não fazendo parte da pessoa, creio que por vezes isto é verdade, o Ascendente parece responsável pelo facto de muitas pessoas se perceberem muito diferentes daquilo que por vezes é descrito em relação aos seus signos natais (sobretudo quando as descrições são “pesadas”), porque um Ascendente mais “fácil” lhes pode permitir uma certa fuga de si, por vezes é necessário um esforço de conjugação e percepção do que está envolvido, de modo a que o indivíduo se aceite melhor, se conheça melhor, funcione plenamente consigo e com os outros.
“O Ascendente é quase impossível de resumir. É simultaneamente um conjunto de várias coisas: um símbolo de como o indivíduo age no mundo, a máscara ou imagem da personalidade que os outros vêem e uma energia e atitude espontâneas para com a vida que penetra o ser global. (…) Esta imagem da personalidade que os outros vêem não é projectada intencionalmente, é automática. Além disso também não é superficial no sentido em que muitos escritos astrológicos pretendem. O Ascendente indica sempre algo de essencial acerca da pessoa que é ao mesmo tempo profundamente interior e também exterior. (…) Simboliza a nossa abordagem individual da própria vida, (…) parece mais dominante autêntica quando o resto do mapa se apoia e se harmoniza com ele. Quando o resto do mapa não está particularmente sintonizado com as qualidades e a energia do Ascendente, pode então parecer mais superficial, uma máscara relativamente artificial, que pode estar completamente desintegrada do resto da natureza da pessoa." Stephen Arroyo, in Manual de Interpretação do Mapa Astrológico. Neste autor a ideia sobre o Ascendente é mais incorporada na pessoa, é algo simultaneamente interior e exterior, na maioria dos escritos, o Ascendente parece algo que cai do Céu, que não é do indivíduo, Arroyo incorpora esse elemento energético no indivíduo, e assim parece ser de facto.
Eu tento a sorte de uma síntese, face a tão dignos e profundos pensadores da astrologia é algo particularmente delicado, diria que o Ascendente é uma espécie de escudo (na representação do Sol, eu descrevi o Ego anteriormente como a área que medeia entre o circulo e o ponto central) que encobre e descobre o Sol na medida adequada a cada papel que o indivíduo tem que representar socialmente, é uma espécie de crivo e biombo pessoal e social que acumula expectativas e projecções próprias e alheias, o indivíduo nem sempre mostra aquilo que é na realidade, ou porque não consegue ou porque acha que o não deve fazer. Várias situações podem acontecer a) o Ascendente pode ter o mesmo signo Solar, aí a informação bate certo, o indivíduo mostra-se fundamentalmente como é, aceita-se e aparentemente não tem necessidade de se esconder, não há uma “agenda” escondida; b) o Ascendente pode ter afinidades com o Signo solar (por elemento, por compatibilidade) representando uma forma adicional que projecta e interage de forma tendencialmente positiva, o indivíduo perante a sociedade. Digo perante a sociedade, porque quando o indivíduo está só, a capa do Ascendente parece desaparecer dando lugar ao Self, nesse momento não tem nenhum papel para representar perante si próprio, é ele mesmo, com tudo o que de assustador isso possa ter, percebe-se um pouco através disto as raízes problemáticas da solidão, o indivíduo precisa de “papeis” e logo de “público”, de relacionamentos, para se suster, colando-se a uma imagem, porque provavelmente não gosta da que vê interiormente. Uma excepção a isto pode ser o signo de Gémeos (Fernando Pessoa, Sol e Lua em Gémeos), que gosta de representar diferentes papeis, não porque necessariamente não goste de si, mas porque dessa forma ocorre o autoconhecimento, muitas vezes observamos essa qualidade geminiana, o indivíduo é sempre diferente para cada pessoa que encontra, quase que se “camaleoniza”; c) uma terceira hipótese é a do Ascendente não “emparceirar” com o signo solar (elementos não compatíveis, aspectos difíceis, etc.). Tome-se em exemplo o Sol em Carneiro, com Ascendente em Peixes, a Água e o Fogo, são elementos que casam de forma “difícil” em indivíduos pouco evoluídos, estão ver o impacto de uma imagem de humildade e autocrítica, num signo solar afirmativo e todo “eu” como Carneiro? Isso tem que produzir uma confrontação dentro do indivíduo, e em muitos momentos pode produzir uma divisão, o indivíduo pode tender a não gostar muito de si, ou a ser mais de determinada maneira escondendo outra, ou até a “compensar” aquilo que considera ser uma deficiência. Se ao quadro adicionarmos a Lua, com toda a sua carga emocional (e se ao exemplo anterior somássemos uma Lua em Virgem?), vemos que por vezes alguns indivíduos têm no mapa natal indicações específicas quanto a divergências interiores, que podem ser mais ou menos cavadas. Essencialmente era aqui que queria chegar com este artigo, o estudo do mapa natal deve levar em conta numa primeira abordagem, a forma como se dá o “casamento” destes 3 componentes fundamentais do indivíduo, o Sol, a Lua e o Ascendente. Se os elementos concordam ou discordam, isso dá para perceber a dinâmica com que o indivíduo se debate, dando-lhe uma orientação também quanto à possibilidade de “reorientar” determinados padrões energéticos, que possam ser expressos de forma mais estruturante. O mapa natal contém por vezes informações que podem parecer contraditórias, mas que no fundo são as necessidades evolutivas daquele indivíduo, se as mesmas são opostas ou difíceis, isso apenas indica a necessidade de tomar consciência e trabalhar sobre aquele aspecto.
Os aspectos de outros planetas ao Ascendente, ajudam a complexificar toda esta questão, no exemplo anterior, se existir uma Oposição de Plutão em Virgem ao Ascendente em Peixes, isso pode desencadear no indivíduo uma necessidade de compreender e explorar de modo bastante profundo porque se sente tão dividido consigo mesmo. Como também expliquei, há que ter em conta algumas reservas no que diz respeito a aspectos com o Ascendente (e aos restantes ângulos), se não se conhecem com exactidão as horas de nascimento, ou se existem problemas no parto, cesarianas, prematuros, etc.
O Ascendente apesar de permanecer de alguma forma enigmático, aliás ele próprio tem essa qualidade de “disfarce”, que como diz Arroyo não é utilizado intencionalmente, leva-nos contudo a pensar que ainda que possa permanecer um mistério não existe nada no ser humano que seja inerentemente vazio de sentido. O próprio nascimento e o propósito da vida permanecem largamente um mistério, simbolizando o Ascendente esse momento único da entrada na vida, porque não haveria ele também de permanecer um mistério?
No entanto, quer no mapa natal quer no cálculo dos trânsitos e progressões, a exactidão dos graus do Ascendente e do Meio do Céu (cúspide da casa 10) é extremamente importante, porque um desfasamento de 4 minutos=1º, pode determinar a um trânsito de Plutão (250 anos de órbita) um afastamento de 8 meses desse ponto. Considerando que as práticas mais antigas arredondavam bastante as horas de nascimento, é sempre de encarar com bastante reserva os aspectos ao Ascendente e ao Meio do Céu, se não existirem certezas. Outra vertente que fica afectada, é todo o sistema de construção de casas, pelo que um planeta que esteja nas fronteiras das casas, pode ser visto de três maneiras a) como sendo dessa casa b) como sendo da casa que o precede ou que lhe sucede c) como sendo das duas em simultâneo. Inclusivamente as casas não devem ser consideradas áreas estanque, dado que a sua área de influência parece ser um pouco maior do que a dos signos, apenas um exemplo, se um signo determinado planeta cai entre os 29º15’ de um signo e os 0º30’ do seguinte, podemos afirmar que esse planeta pode ser permeado das qualidades dos 2 signos, tornando-o mais complexo do que o normal. Já quanto às casas, o conhecimento existente parece determinar uma importância acrescida dessa energização, a partir dos 6º antes da cúspide, pelo que usualmente forneço os dados dessa casa e da seguinte a quem tem planetas a partir dos 24º dessa casa, ficando desse modo o cliente com informação relativa às duas casas e podendo perceber melhor a problemática implicada. Isto pode fazer derivar alguma confusão, porque algumas casas oferecem contrastes tão grandes que o indivíduo tende a automaticamente recusar a interpretação da “pior” em favor da outra, no entanto é de ponderar que a interpretação pode ser feita de 3 maneiras, como expus anteriormente. Todos estes factores são devidamente alertados nos mapas que envio aos clientes, de modo a que algumas informações possam ser lidas com as devidas reservas.
Podemos fazer um cálculo mais ou menos mental, que nos permite calcular um Ascendente com razoável exactidão. Se soubermos a hora em que se levanta o Sol, digamos que em Abril em Portugal, se levanta por volta das 7 horas, a pessoa que nasce em 5 de Abril tem o Sol em Carneiro, se nascer entre as 7 e as 9 horas da manhã, o seu Ascendente é Carneiro, porque o Sol desponta nesse signo, se o indivíduo nascer no dia 1 de Julho, o Sol está no grau 8 ou 9 de Caranguejo, se nascer às 7 horas (assumindo que o Sol se levanta a essa hora), o seu Ascendente é Caranguejo porque o Sol está despontando nesse signo. Se soubermos a hora exacta aproximada do levantar do Sol, a partir da hora de nascimento é perceber que a cada duas horas aumenta um signo, no caso anterior entre as 7 e 8.30 (por causa dos 9 graus de afastamento) seria Caranguejo, nas 2 horas seguintes Leão e por ai fora, mas para isto existem os computadores, todavia experimente calcular mentalmente um Ascendente para Sol em Sagitário, às 18 horas.
Chegou a Gémeos? Provavelmente, acertou!
Vamos agora à problemática do Ascendente propriamente dito, começarei por transcrever e analisar alguns excertos de autores que mereçam relevância quanto às hipóteses que propõem.
“O signo Ascendente define as reacções do indivíduo perante o mundo externo, sua personalidade, sua imagem projectada, seu jeito de ser e algumas tendências a serem desenvolvidas durante a sua vida”. Maria Eugénia de Castro et al, in O Livro dos Signos. É uma definição algo ampla, quiçá interessante, no que diz respeito a tendências a serem desenvolvidas, sobretudo porque a autora pretende chamar a atenção para o facto do signo oposto ao Ascendente, o que está no descendente ou cúspide da casa 7, ser aquele que o indivíduo tem hipóteses de desenvolver em si (entre outros), de modo a que se complete. O mecanismo do desenvolvimento através das polaridades parece ser correcto, já se considerarmos que muitas vezes um Ascendente corresponde a uma certa máscara, não vemos o interesse na possibilidade do seu desenvolvimento, parece-nos que pelo menos neste livro, a autora se eximiu a explicações mais profundas sobre este aspecto, não obstante a utilidade documentada pelos seus comentários quanto a signos ascendentes e descendentes.
“Uma ideia útil na compreensão do signo Ascendente é a do “papel social”. As famílias atribuem a cada membro um “papel” e pressionam-no no sentido de que ajam de acordo com essas expectativas. (…) Ainda que por vezes representados com grande sacrifício e custo pessoal, esses papéis familiares criam uma certa “zona de conforto”, (…) Nós precisamos do Ascendente (…) protege a nossa facilmente ferida auto-estima contra um mundo por vezes demasiado hostil e ajuizador. (…) Antes da maturidade, necessitamos do Ascendente como uma capa protectora, como uma semente necessita da casca. As características do signo Ascendente formam uma concha protectora, para o por vezes frágil sentido do Self representado pelo Sol. O signo Ascendente dá-nos um uniforme para usarmos no mundo, o qual desejavelmente poderemos despir em privado. Não é o nosso verdadeiro Self, esse é o Sol, mas antes aquilo que levamos as pessoas a esperar de nós. A dificuldade surge quando a pessoa fica presa no Ascendente, enterrando o núcleo do seu ser, na postura (posturing, no original)”. Donna Cunningham, in How to Read Your Astrological Chart. Implícito à ideia da autora está a noção de Ascendente como capa protectora ao Sol (Self), embora não se refira ao Ego como sendo o Ascendente, a maneira como o descreve assemelha-se um pouco às funções do Ego, de algo que é modelável, de uma casca protectora. Nos artigos anteriores respeitantes ao 1º retorno de Saturno abordei um pouco a questão do Ego e do Self, e da necessidade de rompimento de uma certa casca que deixa de ter utilidade, quiçá desenvolvendo outra, por volta dos 30 anos. Nesta autora o Ascendente é quase visto como um acessório, como não fazendo parte da pessoa, creio que por vezes isto é verdade, o Ascendente parece responsável pelo facto de muitas pessoas se perceberem muito diferentes daquilo que por vezes é descrito em relação aos seus signos natais (sobretudo quando as descrições são “pesadas”), porque um Ascendente mais “fácil” lhes pode permitir uma certa fuga de si, por vezes é necessário um esforço de conjugação e percepção do que está envolvido, de modo a que o indivíduo se aceite melhor, se conheça melhor, funcione plenamente consigo e com os outros.
“O Ascendente é quase impossível de resumir. É simultaneamente um conjunto de várias coisas: um símbolo de como o indivíduo age no mundo, a máscara ou imagem da personalidade que os outros vêem e uma energia e atitude espontâneas para com a vida que penetra o ser global. (…) Esta imagem da personalidade que os outros vêem não é projectada intencionalmente, é automática. Além disso também não é superficial no sentido em que muitos escritos astrológicos pretendem. O Ascendente indica sempre algo de essencial acerca da pessoa que é ao mesmo tempo profundamente interior e também exterior. (…) Simboliza a nossa abordagem individual da própria vida, (…) parece mais dominante autêntica quando o resto do mapa se apoia e se harmoniza com ele. Quando o resto do mapa não está particularmente sintonizado com as qualidades e a energia do Ascendente, pode então parecer mais superficial, uma máscara relativamente artificial, que pode estar completamente desintegrada do resto da natureza da pessoa." Stephen Arroyo, in Manual de Interpretação do Mapa Astrológico. Neste autor a ideia sobre o Ascendente é mais incorporada na pessoa, é algo simultaneamente interior e exterior, na maioria dos escritos, o Ascendente parece algo que cai do Céu, que não é do indivíduo, Arroyo incorpora esse elemento energético no indivíduo, e assim parece ser de facto.
Eu tento a sorte de uma síntese, face a tão dignos e profundos pensadores da astrologia é algo particularmente delicado, diria que o Ascendente é uma espécie de escudo (na representação do Sol, eu descrevi o Ego anteriormente como a área que medeia entre o circulo e o ponto central) que encobre e descobre o Sol na medida adequada a cada papel que o indivíduo tem que representar socialmente, é uma espécie de crivo e biombo pessoal e social que acumula expectativas e projecções próprias e alheias, o indivíduo nem sempre mostra aquilo que é na realidade, ou porque não consegue ou porque acha que o não deve fazer. Várias situações podem acontecer a) o Ascendente pode ter o mesmo signo Solar, aí a informação bate certo, o indivíduo mostra-se fundamentalmente como é, aceita-se e aparentemente não tem necessidade de se esconder, não há uma “agenda” escondida; b) o Ascendente pode ter afinidades com o Signo solar (por elemento, por compatibilidade) representando uma forma adicional que projecta e interage de forma tendencialmente positiva, o indivíduo perante a sociedade. Digo perante a sociedade, porque quando o indivíduo está só, a capa do Ascendente parece desaparecer dando lugar ao Self, nesse momento não tem nenhum papel para representar perante si próprio, é ele mesmo, com tudo o que de assustador isso possa ter, percebe-se um pouco através disto as raízes problemáticas da solidão, o indivíduo precisa de “papeis” e logo de “público”, de relacionamentos, para se suster, colando-se a uma imagem, porque provavelmente não gosta da que vê interiormente. Uma excepção a isto pode ser o signo de Gémeos (Fernando Pessoa, Sol e Lua em Gémeos), que gosta de representar diferentes papeis, não porque necessariamente não goste de si, mas porque dessa forma ocorre o autoconhecimento, muitas vezes observamos essa qualidade geminiana, o indivíduo é sempre diferente para cada pessoa que encontra, quase que se “camaleoniza”; c) uma terceira hipótese é a do Ascendente não “emparceirar” com o signo solar (elementos não compatíveis, aspectos difíceis, etc.). Tome-se em exemplo o Sol em Carneiro, com Ascendente em Peixes, a Água e o Fogo, são elementos que casam de forma “difícil” em indivíduos pouco evoluídos, estão ver o impacto de uma imagem de humildade e autocrítica, num signo solar afirmativo e todo “eu” como Carneiro? Isso tem que produzir uma confrontação dentro do indivíduo, e em muitos momentos pode produzir uma divisão, o indivíduo pode tender a não gostar muito de si, ou a ser mais de determinada maneira escondendo outra, ou até a “compensar” aquilo que considera ser uma deficiência. Se ao quadro adicionarmos a Lua, com toda a sua carga emocional (e se ao exemplo anterior somássemos uma Lua em Virgem?), vemos que por vezes alguns indivíduos têm no mapa natal indicações específicas quanto a divergências interiores, que podem ser mais ou menos cavadas. Essencialmente era aqui que queria chegar com este artigo, o estudo do mapa natal deve levar em conta numa primeira abordagem, a forma como se dá o “casamento” destes 3 componentes fundamentais do indivíduo, o Sol, a Lua e o Ascendente. Se os elementos concordam ou discordam, isso dá para perceber a dinâmica com que o indivíduo se debate, dando-lhe uma orientação também quanto à possibilidade de “reorientar” determinados padrões energéticos, que possam ser expressos de forma mais estruturante. O mapa natal contém por vezes informações que podem parecer contraditórias, mas que no fundo são as necessidades evolutivas daquele indivíduo, se as mesmas são opostas ou difíceis, isso apenas indica a necessidade de tomar consciência e trabalhar sobre aquele aspecto.
Os aspectos de outros planetas ao Ascendente, ajudam a complexificar toda esta questão, no exemplo anterior, se existir uma Oposição de Plutão em Virgem ao Ascendente em Peixes, isso pode desencadear no indivíduo uma necessidade de compreender e explorar de modo bastante profundo porque se sente tão dividido consigo mesmo. Como também expliquei, há que ter em conta algumas reservas no que diz respeito a aspectos com o Ascendente (e aos restantes ângulos), se não se conhecem com exactidão as horas de nascimento, ou se existem problemas no parto, cesarianas, prematuros, etc.
O Ascendente apesar de permanecer de alguma forma enigmático, aliás ele próprio tem essa qualidade de “disfarce”, que como diz Arroyo não é utilizado intencionalmente, leva-nos contudo a pensar que ainda que possa permanecer um mistério não existe nada no ser humano que seja inerentemente vazio de sentido. O próprio nascimento e o propósito da vida permanecem largamente um mistério, simbolizando o Ascendente esse momento único da entrada na vida, porque não haveria ele também de permanecer um mistério?
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