abril 25, 2005

O que é que valorizo?

Não é a crença/descrença na astrologia que faz o mapa natal. Mesmo o indivíduo que não crê na astrologia, tem uma hora de nascimento, um local onde nasceu, pode-lhe ser levantado um mapa natal, um mapa de trânsitos, mas não se pretende este texto como “evangelização” astrológica. Aquilo que o indivíduo valoriza, é também aquilo em que acredita, aquilo pelo que está disposto a pagar. A asserção de que aquilo que não pagamos, não valorizamos, está fundamentalmente certa. Aquilo que valorizamos é também aquilo em que acreditamos, as nossas crenças, a nossa visão. Se eu acredito que adquirindo um BMW descapotável, isso faz de mim um homem mais atraente, estou a dar valor a essa crença, vou pagar por ela de acordo com isso, comprando o carro novo.
Podemos fazer o raciocínio inverso, se eu estou disposto a “sofrer” por algo, acredito nisso, valorizo isso, temos o exemplo dos atletas da alta competição, que estão dispostos a dar o corpo, a sofrer fisicamente. Numa asserção um pouco mais psicológica, podemos verificar se estamos a “sofrer” por algo que vale realmente a pena, se não é apenas uma dimensão dos nossos desejos que nos impõe todo um calvário, em face de algo que achamos que nos faz falta, que valorizamos. Basta reparar que, se não faz parte das nossas crenças, se não acreditamos, imediatamente temos tendência a desvalorizar, a criticar, a não apreciar, a desprezar. O que valorizamos é simultaneamente uma atitude interna – como nos valorizamos – e externa, o que valorizamos.

Analisemos a questão da “crença” na astrologia à luz de vários ângulos:
A) desvalorização do conhecimento astrológico, devido à falta de carácter cientifico. Podemos suportar essa suposição afirmando que existem dificuldades na aplicação do método experimental na área das Ciências Sociais e Humanas. Muito embora a astrologia não seja considerada uma ciência, o seu estudo abarca áreas comuns às da Ciências Sociais e Humanas, pelo que são partilhadas as dificuldades inerentes à investigação:
- desde as limitações à quantificação na medida das variáveis a estudar,
- à dificuldade na definição e delimitação das variáveis a considerar, devido á sua complexidade em termos de definição,
- à interactividade e dinâmica da natureza das variáveis, bem como à sua interdependência,
- ao facto de algumas variáveis em si mesmas ou nas suas componente mais significativas, não serem directamente observáveis, derivando dai menor objectividade
- ao facto de não podermos assumir uma relação causa-efeito entre variáveis
- Questiona-se ainda o sentido experimental da pesquisa psicológica face á impossibilidade de replicação dos fenómenos, á multiplicidade das variáveis em presença e dificuldade no seu controlo, e á dificuldade de se fixarem regularidades ou leis dada a natureza instável dos fenómenos no espaço e no tempo.

Estas são dificuldades generalizáveis aos estudos em Psicologia, Educação, Sociologia etc. A natureza mais fenomenológica da realidade psíquica, parece induzir-nos, intuitivamente, para um modelo mais interpretativo-qualitativo que experimental-quantitativo. O conhecimento astrológico tem evoluído sobretudo através de indivíduos cujo grau de conhecimento intuitivo é extremamente poderoso, cujas mentes estão menos dependentes da lógica e da razão para a explicação de fenómenos. Como parece óbvio, isso torna o conhecimento astrológico mais propenso ao erro, mas isso é comum a qualquer investigação onde estejam envolvidos seres humanos.

B) A astrologia é uma prática espiritual “alternativa” ou esotérica. Esta asserção é talvez a de mais simples negação. Na astrologia não há deuses, não há pecado, não há atitudes boas ou más. A astrologia designa uma porção de conhecimento obtido através da observação directa, empírico, cujo objecto é levar o indivíduo a questionar o seu percurso evolutivo, o seu papel no mundo, quiçá, transformando-o e resgatando todo o seu potencial. O mapa apenas representa um conjunto de potencialidades, uma herança ou património cósmico cujo objectivo parece ser essencialmente evolutivo.

C) A astrologia nega o livre-arbítrio (determinismo) e a crença na bondade de Deus ou do Universo, ou ainda na tendência formativa ou à auto-actualização do indivíduo. A discussão entre livre-arbítrio e determinismo é longa. Estamos em crer que a bondade de Deus é justamente permitir ao homem escolher entre as boas e as más acções, evoluindo através de ambas, justamente pelas consequências que ambas trazem. Infelizmente, a maior parte da humanidade não crê nas consequências das suas acções. Um pilar fundamental da astrologia é permitir ao homem responsabilizar-se pelas suas acções, pelas suas escolhas. Na teoria budista, o Carma também se cria no momento em que se toma uma decisão. Se eu decidir matar alguém, crio um carma mental por essa decisão e outro Carma pela acção cometida, em ambos os casos existe Carma criado, para que seja reposto o equilíbrio o indivíduo deverá vivenciar as consequências desse Carma criado, deverá ser responsabilizado pelas suas acções, se o fizer previamente, não há necessidade de “correção” ou reposição do equilíbrio.

Nada está determinado no mapa astrológico, aquele só indica áreas de potencial conflito, de confusão, que podem ser transmutadas em acções benéficas para o próprio e para terceiros. A astrologia deixa em paz o livre-arbítrio e a escolha de cada um, não impõe esta ou aquela escolha. A astrologia não é nenhum sistema referencial espiritual ou religioso, mas pode permitir ao homem adoptar um – mostrando-lhe essa propensão – que lhe sirva os seus propósitos evolucionários.

Por outro lado afirmar que na astrologia não existe crença que o indivíduo tem dentro de sí as respostas para as suas questões mais profundas, é considerar que a astrologia se oferece como substituto para o livre-arbítrio, obrigando o indivíduo a efectuar uma escolha. Tal como um terapeuta tenta iluminar o indivíduo na sua relação consigo mesmo e com o mundo, também o astrólogo pode caminhar a par e passo com o indivíduo na sua auto descoberta, não devem existir no entanto, imposição de escolhas, o indivíduo deve permanecer soberano do seu destino. A tendência à auto-direcção pressupõe o livre-arbítrio, pressupõe a capacidade do indivíduo poder escolhe o caminho que mais lhe convém em cada momento, independentemente do que está “avalizado” pelo mapa astrológico. Qualquer que seja a interpretação preditiva, está fundamentalmente errada se induzir o indivíduo a uma escolha que não é sua.

Vejamos um exemplo: um homem tem um trânsito importante de Urano em Quadratura com a Lua natal, um trânsito destes dura cerca de 2/3 anos. Nesse período encontra uma mulher por quem se apaixona, de características aquarianas (Urano em Quadratura com Lua), decidem casar-se, o que leva o homem a sair de casa (Lua) e a deixar a mãe (lua) sozinha que lhe fazia a vida negra, que condena a saída e o casamento, passados poucos meses, divorcia-se da mulher que conheceu e decide mudar de terra. Podemos notar acontecimentos que na óptica comum se rotulam de bons e maus, mas terá a pessoa evoluído no seu relacionamento consigo e com os outros, terá crescido? Sai de casa, abandonou a mãe demasiado condicional, isso foi bom, casou e divorciou-se isso foi mau, mas quem é que tomou as decisões? Quem é que em última análise recolheu as consequências dos actos? Algum destes actos estava prédeterminado no mapa natal? Foi o trânsito que condicionou a experiência?

Qualquer pessoa se pode servir do conhecimento astrológico para se conhecer um pouco mais a si própria, mas isso não opera o milagre da mudança. Temos que compreender que o processo de mudança, tem subjacente o processo de consciencialização, que é um processo anterior, só há mudança, após existir consciência da necessidade de mudar, e é aqui que se situa o conhecimento astrológico, no processo de iluminação da consciência, não no de mudança, aí o indivíduo deve “deitar fora” o conhecimento e agir.

A astrologia é um meio para atingir um fim: o do autoconhecimento, facilitando o processo interactivo entre o indivíduo e o mundo. Cada ser humano que evolui per si, está a contribuir para a evolução do cosmos como um todo, bem como de todos os outros seres humanos que o rodeiam. O processo evolutivo dentro (microcosmos) e fora do ser humano (macrocosmos), avança inexoravelmente, quer se queira ou não, quer se acredite nele ou não.

Acredita que o auto conhecimento é um recurso? Acredita nos seus próprios recursos, nas suas capacidades e no seu sentido de se construir com as suas próprias mãos? Como valoriza o auto conhecimento? Muitas vezes só damos valor a algo quando pagamos um preço alto, nem que esse preço seja a perda daquilo a que ainda não tínhamos dado o devido valor. A que é que dá valor? Esse valor é algo profundamente interior ou veio de fora? Consegue dissociar o sentido da vida daquilo que valoriza, ou essencialmente o sentido da vida é justamente e apenas aquilo que valoriza?