Relações ou Ralações?
Uma das maiores consequências das primeiras são justamente as segundas. O presente escrito visa iluminar um pouco o caminho até às relações adultas. Porque efectuamos determinadas escolhas em termos de parcerias, porque reagimos desta ou daquela maneira, reagimos de modo consciente ou inconsciente? De que forma distorcemos o que sentimos?
Face ao ambiente e as relações em que todos nascemos e crescemos, dificilmente alguém chega isento de condicionamentos, à idade de se relacionar seriamente com outra pessoa. Vejamos esta problemática através de um exemplo simplificado. A primeira matriz de relacionamento que um bebe observa após o nascimento e nos primeiros meses de vida, é com a sua mães, ou com quem faz esse papel. O pai, se a mãe existe, tem uma importância diferente e é provavelmente, a segunda relação que tem. Depois, á medida que vai crescendo, passa a aperceber-se da de outras relações.
Cada uma dessas relações que o bebe estabelece com quem está no seu ambiente, fornece-lhe uma matriz de relacionamento, um modelo. Quanto mais importante é a pessoa, porque providencia alimentação, segurança, conforto, amor, maior a importância que a relação observada nessa pessoa, representa para o bebé. Se a relação observada é fundamentalmente boa, vai-se registando no inconsciente uma matriz relacional positiva, se é má, acontece o contrário; numa família “normal” coexistem ambas as matrizes, bons e maus exemplos, boas e más relações.
O importante aqui é perceber que absorvemos ou aprendemos um modo de relacionamento pela observação e experienciação da maneira como as pessoas “significativas” para nós, se relacionam connosco e entre elas, no fundo somos um pouco “macacos de imitação”. Há no entanto que notar uma outra questão, desde cedo a criança evidencia a necessidade de se sentir amada e isso parece ser um factor determinante para o seu desenvolvimento sócio-afectivo, introduzindo mais uma variável em toda esta problemática. Não é só a observação dos relacionamentos que conduz à aprendizagem, mas também o amor envolvido nesses relacionamentos e para com a própria criança, que ajuda também a determinar o seu crescimento e a absorção/aprendizagem de um padrão relacional.
Chamo a atenção para o sentido das “relações significativas”, porque nem todas as pessoas com quem nos relacionamos têm um significado especial para nós e é justamente a essas que se “pede” o amor. Se isso é importante na infância, na idade adulta não o deixa de ser. Signo, símbolo, simbolização, significado, essas pessoas para nós são símbolos, simbolizam relações especiais, representam algo muito importante. Mesmo na idade adulta continuamos a atribuir um significado “especial”, um poder especial a determinadas pessoas, que não atribuímos a outras. Muitas vezes dizemos que alguém é “especial” para nós, porque se trata de uma pessoa significativa, incarna uma pessoa simbólica para nós, provavelmente porque nos ama, ou que queremos que nos ame, à semelhança de que outras fizeram (ou não) na idade infantil. Perante essa pessoa, vemo-nos muitas vezes a reproduzir comportamentos de forma inconsciente, muitas vezes comportamentos infantis, ralhamos, gritamos, amuamos.
Se por um lado isso pode fazer sentido num contexto de aprendizagem em idade precoce, essa atitude de “conferir poderes especiais” a terceiros, pode ser particularmente dramática na idade adulta, podendo ter como consequências uma relação de submissão-domínio ou outras relações baseadas em desigualdade, cujo impacto se dá em todas as esferas da vivência pessoal, desde o emprego, à socialização ou relacionamento de uma maneira geral.
Um exemplo concreto é dado por inúmeros adultos que relação após relação continuam a procurar pessoas com padrões comportamentais idênticos, se estava com alguém alcoólico, agora vai estar com um tóxico-dependente, em ambos casos, a escolha inconsciente de pessoas dependentes, para as quais achamos que somos o remédio santo. Porquê essas escolhas, será que tem que permanecer assim? Podemos alterar o padrão escolhido?
Um paralelismo encontra-se na criança que “luta” muitas vezes por ser amada, apreciada, quer que lhe dêem atenção, de modo incondicional, isso faz parte do seu processo impulsivo de crescimento, é algo genético, todavia vai incorporar nela um modelo relacional de “luta” para ter amor. Isso é gravado distorcidamente no seguinte mecanismo: se dá “luta” é porque é bom, se deixa de dar “luta” então é porque não é bom, há que ir à procura de alguém que dê luta, para obter amor. Parece permanecer no inconsciente a imagem de que o amor só existe se for difícil de obter, pelo que a pessoa vai procurar alguém que lhe dê amor difícil e quanto mais lho for negado, mais luta dá, pelo que mais se aproxima do vivido, mas que foi simbolicamente distorcido. Onde é que já viram isto? Dá para entender o mecanismo da distorção?
Até que ponto é que temos que manter esse padrão na vida adulta, é algo que é discutível, aparentemente isso só trás dificuldades, porque devido a essa “atracção” apenas atraímos pessoas cujo amor que tem para dar é condicional. Poderíamos considerar que isso é um factor de desenvolvimento, sem dúvida que é, tem que existir uma lógica de equilíbrio nisso, experienciando o amor condicional na infância, buscamo-lo na idade adulta, tentando resgatar o amor incondicional, as mais das vezes tentando arrancá-lo de quem no-lo não dá, à imagem da infância, mantemos essa atitude de luta porque erradamente atribuímos um carácter de pessoa significativa, de alguém que nos vai dar protecção, comida, conforto, segurança. "Quem não dá luta, não é seguro". Na idade adulta essa atitude parece estar errada, estamos por nossa conta, a segurança ou é criada dentro de nós ou não existe. “Aquela pessoa faz-me sentir segura, bem disposta, etc.”, afirmamos, isso é desresponsabilizante, porque essas atitudes tem que ser resgatadas em nós.
Quer isto dizer que não necessitamos do amor dos outros? Evidentemente que não, de amor todos necessitamos, daquele amor incondicional, que não julgue, não critique, não avalie. Estaremos preparados para isso?
O que parece estar aqui também em causa é o resgate do nosso poder pessoal, a verdadeira maturidade não tem “pais” nem “mães”, em sentido figurado evidentemente. Basta ver quantos casais agem um com o Outro numa relação tipo pai-filho, “olha como te vestes”, “olha como te comportas”, “vê lá se comes”. Quantas vezes continuamos pela vida fora a prestar contas ainda que inconscientemente aos nossos progenitores ou parceiros? De que modo não continuam eles a controlar-nos ainda que inconscientemente também? Qual é a necessidade desse comportamento? E as discussões com os nossos pais, que continuam pela vida fora? O que são? Sinal da nossa incapacidade em lhes darmos sinais de que somos adultos? Ou da incapacidade deles em nos considerar como tal, porque também eles sofreram o mesmo tratamento? De qualquer modo é necessário perceber que não o fazemos de forma consciente, mas se nos começarmos a aperceber a quem o fazemos e em que momentos isso acontece, nesse momento começa o conhecimento interior e a capacidade de controlarmos o que fazemos, com quem e porquê.
Importa perceber o papel do Inconsciente nesta questão. Nele estão depositados os conteúdos que fizeram a nossa vida até ao momento. É uma espécie de base de dados, chamada sempre que algum acontecimento se repete ou sempre que algo de novo acontece e que necessita gravação, com uma particularidade um bocadinho aborrecida: por vezes “distorce” a história a gravar ou que foi gravada. Se é uma relação já vista ou sentida, vai á base de dados e trás o conteúdo simbolizado e age de acordo com isso. Se não houve distorção o indivíduo age ou reage perante o acontecimento de acordo com a sua emoção, correctamente; se a simbolização foi distorcida, sempre que aquela experiência volta, o indivíduo age ou reage de forma condicionada.
Desse modo pode-se entender que as relações que estão à nossa volta, enquanto somos crianças, não só aquelas que formam connosco, mas também as que observamos, se vão matizando ao nível do nosso inconsciente. Com base nessas matrizes inconscientes e por vezes deturpadas, iremos reproduzir os nossos relacionamentos futuros. Se o pai bate na mãe, o filho adulto pode vir a bater na esposa ou repudiar totalmente essa atitude, no entanto pode também evitar ser homem noutras vertentes “masculinas” necessárias: assertividade, acção, etc. Perceba-se aqui que em ambos os casos o adulto se encontra à mercê, ainda que inconsciente disso, de um modelo paternal, quer o aceite ou o recuse. Há que procurar dar lugar a uma dinâmica nova, que não seja réplica da inconscientemente adquirida, sobretudo se no momento da aquisição houve lugar à distorção.
A distorção assume inúmeras facetas, que serão abordadas em mais profundidade á medida que formos passando pelos signos e suas formas de relacionamento, tentando perspectivar as formas como cada um “distorce” as relações.
Face ao ambiente e as relações em que todos nascemos e crescemos, dificilmente alguém chega isento de condicionamentos, à idade de se relacionar seriamente com outra pessoa. Vejamos esta problemática através de um exemplo simplificado. A primeira matriz de relacionamento que um bebe observa após o nascimento e nos primeiros meses de vida, é com a sua mães, ou com quem faz esse papel. O pai, se a mãe existe, tem uma importância diferente e é provavelmente, a segunda relação que tem. Depois, á medida que vai crescendo, passa a aperceber-se da de outras relações.
Cada uma dessas relações que o bebe estabelece com quem está no seu ambiente, fornece-lhe uma matriz de relacionamento, um modelo. Quanto mais importante é a pessoa, porque providencia alimentação, segurança, conforto, amor, maior a importância que a relação observada nessa pessoa, representa para o bebé. Se a relação observada é fundamentalmente boa, vai-se registando no inconsciente uma matriz relacional positiva, se é má, acontece o contrário; numa família “normal” coexistem ambas as matrizes, bons e maus exemplos, boas e más relações.
O importante aqui é perceber que absorvemos ou aprendemos um modo de relacionamento pela observação e experienciação da maneira como as pessoas “significativas” para nós, se relacionam connosco e entre elas, no fundo somos um pouco “macacos de imitação”. Há no entanto que notar uma outra questão, desde cedo a criança evidencia a necessidade de se sentir amada e isso parece ser um factor determinante para o seu desenvolvimento sócio-afectivo, introduzindo mais uma variável em toda esta problemática. Não é só a observação dos relacionamentos que conduz à aprendizagem, mas também o amor envolvido nesses relacionamentos e para com a própria criança, que ajuda também a determinar o seu crescimento e a absorção/aprendizagem de um padrão relacional.
Chamo a atenção para o sentido das “relações significativas”, porque nem todas as pessoas com quem nos relacionamos têm um significado especial para nós e é justamente a essas que se “pede” o amor. Se isso é importante na infância, na idade adulta não o deixa de ser. Signo, símbolo, simbolização, significado, essas pessoas para nós são símbolos, simbolizam relações especiais, representam algo muito importante. Mesmo na idade adulta continuamos a atribuir um significado “especial”, um poder especial a determinadas pessoas, que não atribuímos a outras. Muitas vezes dizemos que alguém é “especial” para nós, porque se trata de uma pessoa significativa, incarna uma pessoa simbólica para nós, provavelmente porque nos ama, ou que queremos que nos ame, à semelhança de que outras fizeram (ou não) na idade infantil. Perante essa pessoa, vemo-nos muitas vezes a reproduzir comportamentos de forma inconsciente, muitas vezes comportamentos infantis, ralhamos, gritamos, amuamos.
Se por um lado isso pode fazer sentido num contexto de aprendizagem em idade precoce, essa atitude de “conferir poderes especiais” a terceiros, pode ser particularmente dramática na idade adulta, podendo ter como consequências uma relação de submissão-domínio ou outras relações baseadas em desigualdade, cujo impacto se dá em todas as esferas da vivência pessoal, desde o emprego, à socialização ou relacionamento de uma maneira geral.
Um exemplo concreto é dado por inúmeros adultos que relação após relação continuam a procurar pessoas com padrões comportamentais idênticos, se estava com alguém alcoólico, agora vai estar com um tóxico-dependente, em ambos casos, a escolha inconsciente de pessoas dependentes, para as quais achamos que somos o remédio santo. Porquê essas escolhas, será que tem que permanecer assim? Podemos alterar o padrão escolhido?
Um paralelismo encontra-se na criança que “luta” muitas vezes por ser amada, apreciada, quer que lhe dêem atenção, de modo incondicional, isso faz parte do seu processo impulsivo de crescimento, é algo genético, todavia vai incorporar nela um modelo relacional de “luta” para ter amor. Isso é gravado distorcidamente no seguinte mecanismo: se dá “luta” é porque é bom, se deixa de dar “luta” então é porque não é bom, há que ir à procura de alguém que dê luta, para obter amor. Parece permanecer no inconsciente a imagem de que o amor só existe se for difícil de obter, pelo que a pessoa vai procurar alguém que lhe dê amor difícil e quanto mais lho for negado, mais luta dá, pelo que mais se aproxima do vivido, mas que foi simbolicamente distorcido. Onde é que já viram isto? Dá para entender o mecanismo da distorção?
Até que ponto é que temos que manter esse padrão na vida adulta, é algo que é discutível, aparentemente isso só trás dificuldades, porque devido a essa “atracção” apenas atraímos pessoas cujo amor que tem para dar é condicional. Poderíamos considerar que isso é um factor de desenvolvimento, sem dúvida que é, tem que existir uma lógica de equilíbrio nisso, experienciando o amor condicional na infância, buscamo-lo na idade adulta, tentando resgatar o amor incondicional, as mais das vezes tentando arrancá-lo de quem no-lo não dá, à imagem da infância, mantemos essa atitude de luta porque erradamente atribuímos um carácter de pessoa significativa, de alguém que nos vai dar protecção, comida, conforto, segurança. "Quem não dá luta, não é seguro". Na idade adulta essa atitude parece estar errada, estamos por nossa conta, a segurança ou é criada dentro de nós ou não existe. “Aquela pessoa faz-me sentir segura, bem disposta, etc.”, afirmamos, isso é desresponsabilizante, porque essas atitudes tem que ser resgatadas em nós.
Quer isto dizer que não necessitamos do amor dos outros? Evidentemente que não, de amor todos necessitamos, daquele amor incondicional, que não julgue, não critique, não avalie. Estaremos preparados para isso?
O que parece estar aqui também em causa é o resgate do nosso poder pessoal, a verdadeira maturidade não tem “pais” nem “mães”, em sentido figurado evidentemente. Basta ver quantos casais agem um com o Outro numa relação tipo pai-filho, “olha como te vestes”, “olha como te comportas”, “vê lá se comes”. Quantas vezes continuamos pela vida fora a prestar contas ainda que inconscientemente aos nossos progenitores ou parceiros? De que modo não continuam eles a controlar-nos ainda que inconscientemente também? Qual é a necessidade desse comportamento? E as discussões com os nossos pais, que continuam pela vida fora? O que são? Sinal da nossa incapacidade em lhes darmos sinais de que somos adultos? Ou da incapacidade deles em nos considerar como tal, porque também eles sofreram o mesmo tratamento? De qualquer modo é necessário perceber que não o fazemos de forma consciente, mas se nos começarmos a aperceber a quem o fazemos e em que momentos isso acontece, nesse momento começa o conhecimento interior e a capacidade de controlarmos o que fazemos, com quem e porquê.
Importa perceber o papel do Inconsciente nesta questão. Nele estão depositados os conteúdos que fizeram a nossa vida até ao momento. É uma espécie de base de dados, chamada sempre que algum acontecimento se repete ou sempre que algo de novo acontece e que necessita gravação, com uma particularidade um bocadinho aborrecida: por vezes “distorce” a história a gravar ou que foi gravada. Se é uma relação já vista ou sentida, vai á base de dados e trás o conteúdo simbolizado e age de acordo com isso. Se não houve distorção o indivíduo age ou reage perante o acontecimento de acordo com a sua emoção, correctamente; se a simbolização foi distorcida, sempre que aquela experiência volta, o indivíduo age ou reage de forma condicionada.
Desse modo pode-se entender que as relações que estão à nossa volta, enquanto somos crianças, não só aquelas que formam connosco, mas também as que observamos, se vão matizando ao nível do nosso inconsciente. Com base nessas matrizes inconscientes e por vezes deturpadas, iremos reproduzir os nossos relacionamentos futuros. Se o pai bate na mãe, o filho adulto pode vir a bater na esposa ou repudiar totalmente essa atitude, no entanto pode também evitar ser homem noutras vertentes “masculinas” necessárias: assertividade, acção, etc. Perceba-se aqui que em ambos os casos o adulto se encontra à mercê, ainda que inconsciente disso, de um modelo paternal, quer o aceite ou o recuse. Há que procurar dar lugar a uma dinâmica nova, que não seja réplica da inconscientemente adquirida, sobretudo se no momento da aquisição houve lugar à distorção.
A distorção assume inúmeras facetas, que serão abordadas em mais profundidade á medida que formos passando pelos signos e suas formas de relacionamento, tentando perspectivar as formas como cada um “distorce” as relações.
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