maio 23, 2005

Deepak Chopra em Portugal – Parte II

A 2ª parte (parte I aqui)da conferência de Deepak Chopra, foi totalmente preenchida pela apresentação do seu novo livro, o quadragésimo primeiro em 25 anos, “The Book of Secrets”. Nele são mencionados 15 compromissos que cada pessoa deverá honrar, e é sobre isso que versa esta artigo de hoje.

#1 Comprometo-me a explorar as dimensões ocultas da minha existência
Como foi analisado na 1ª parte, aquilo a que chamamos realidade física é uma projecção de uma realidade escondida, a qual é composta de 3 níveis segundo a ciência: o 1º nível é material, o mundo dos objectos, que é um mundo vibratório, de informação e energia, o nível mecânico quântico, aquilo a que chamamos matéria é essa energia e vibração a vibrar em diferentes frequências. Se avançarmos um pouco, entramos no domínio da não causalidade ou descontinuidade (nota: sendo um acto descontinuo, não existe uma causa directa que lhe tenha dado efeito, pois isso seria uma característica de continuidade), que é essa dimensão ou realidade escondida, e cita o poeta indiano Rumi: “aquilo que experienciamos através dos sentidos, não é a realidade principal, a verdadeira realidade está por detrás da pessoa, em verdade não estamos aqui, somos a nossa sombra” e cita também Platão “somos como sombras numa caverna, das luzes lá fora”, portanto não confundamos as “sombras” com a verdadeira realidade.

Se eu tiver a noção de que existem outras dimensões e de que essas são as minhas origens, então eu comprometo-me a explorá-las. Existem 3 níveis nessa dimensão escondida: o pessoal, o colectivo e o universal. O domínio pessoal é a nossa própria Alma, que se lembra, que usa essa experiência passada para criar memórias, que usa essas memórias para criar desejos, que usa esses desejos para criar experiência novamente e cita uma expressão indiana “tu és, o teu mais profundo desejo”. O teu desejo, determina a tua vontade e a tua intenção, a tua intenção orienta a tua acção e a tua acção o teu destino, e conta uma história de Buda: Um dia um discípulo de Buda perguntou ao mestre o que era a vida, Buda apontou para a roda de uma carroça e disse “a vida é como uma roda (samsara)”, é uma roda de carma, memórias e desejos; o carma é experiência, são as escolhas que fizemos no passado que determinam as circunstâncias do presente, que criam as memórias que se transforma nas sementes da imaginação e do desejo, que por sua vez se transforma nas sementes do carma de novo. Carma, memória e desejo, são o software da alma, este é o nível pessoal. Depois há o nível colectivo, aquilo a que Jung chamou o Inconsciente Colectivo, um conjunto de mitos, histórias que os nossos ancestrais contaram uns aos outros, é o nível mítico, a história da nossa cultura, geografia. Depois há o domínio universal, do que foi, do que é e do que será. Baseado neste 1º compromisso, tentaremos responder a duas questões essenciais: Quem sou Eu? O que é que eu quero? E depois deixar ir essas questões, esse simples processo de auto-questionamento e reflexão iniciará a transformação, e porque a alma existe no nível da sincronicidade e coincidência, aparecerão situações, circunstâncias, relações, eventos, que darão origem a uma genuína transformação, somente por fazer aquelas perguntas do fundo do coração. A ciência diz-nos que o nível mais fundamental da natureza são campos de possibilidades, que esses campos “aguardam” que lhes sejam colocadas questões, sendo dessa forma compelidos a dar-nos respostas, e cita o Novo testamento “pede, e receberás”, portanto continuem a colocar questões.

Comentário: Deepak deixa entrever que existem dimensões ocultas da existência, às quais se pode aceder em busca de respostas, bastando para isso uma intenção profunda e amorosa, e talvez algum trabalho também…

#2 Eu verei o mundo em mim, em vez de me ver a mim no mundo (I shall see the world in me, instead of me in the world”
Se existe uma crise no mundo neste momento, é uma crise de percepção, o paradigma materialista tem-nos levado a acreditar que vivemos num mundo físico, que contém objectos no espaço e no tempo. A realidade é que o mundo é concebido na consciência, é essa que concebe e constrói, que de facto se torna no universo físico, e cita um texto indiano “eu não estou no mundo, o mundo está em mim, eu não estou no corpo, o corpo está em mim, eu não estou na mente, a mente está em mim”, tudo o que é físico é uma projecção da consciência. É uma mudança de percepção difícil, mas se eu começar a olhar para uma árvore como sendo os meus pulmões, a terra como se fosse o meu corpo, um rio como a minha circulação, começo a encarar o facto de ter um corpo pessoal e um corpo universal, um não sobrevive sem o outro, se machucar um, estou a machucar o outro, ao atentar contra a Natureza, estamos a atentar contra o nosso corpo, é necessária esta consciência, a ecologia, sou eu. Eu existo na vossa consciência e vocês na minha, o local onde todas as consciências se encontram, é a consciência colectiva, a qual existe dentro da consciência universal. Existimos todos na mesmo consciência, perceber isso é começar a ver o mundo em mim, é também experienciar o Amor e compaixão, compaixão essa que é partilha das nossas experiências e dos nossos sofrimentos e o que é o amor senão aquilo que nasce da compaixão. O Amor não é um mero sentimento, é a verdade última do acto da criação, que é o facto de existir apenas uma consciência, na qual todos somos concebidos.

Comentário: O fundamento deste compromisso baseia-se na auto-responsabilização, aquilo que vemos, é sempre a nossa verdade, aquilo que o Outro vê, já é a sua verdade e não a nossa, evidentemente coincidimos nalguns pontos, mas são sempre muito menos do que imaginamos. A História é uma verdade colectiva, a identificação com o colectivo, não pode vir antes da individuação, a entrega ao colectivo sem auto afirmação individual, é ilusão de pertença. Perante acontecimentos estranhos, sórdidos ou fatais sempre consideramos que nos são impostos de “fora”, mas é a nossa reacção perante o acontecimento que determina o valor desse acontecimento. Se é a morte, é a nossa reacção a ela que determina o valor do acontecimento, podemos sofrer, ou deixar ir, e assim sucessivamente para cada acontecimento significativo.

3# Começarei a praticar o caminho do Yoga (União)
Yoga significa união, começarei no caminho da união com o Universo, com a fonte da Criação. Existem 4 tipos de yoga, o primeiro é a da meditação, da reflexão, da análise, é o Raja Yoga; depois há o Yoga da relação, do amor, todas as escolhas que são feitas com base no amor são evolucionárias, porque nos levam da separação para a União. Há um princípio que guia o yoga da relação “todos aqueles que amamos ou odiamos, são apenas um espelho de nós próprios”, os outros são espelhos para nós, e através desses espelhos descobrimo-nos. O que é que me atrai naquela pessoa? Qual é o defeito naquela pessoa que tento repelir em mim? O terceiro tipo de yoga é o yoga da acção ou yoga do carma, porque carma é a palavra em sânscrito para acção, e que diz “faz o que tens que fazer no momento, impecavelmente, e deixa os resultados para outro, confia em que tudo o que fazes vem do sonho infinito, vem do universo e ao universo retorna.” Portanto eu quando me sento para me sento para escrever um livro digo “Deus, escreve este livro, que eu recolho os royalties, e funciona sempre J”. Se agirmos dessa maneira, se nos conseguirmos isolar da ansiedade e fizermos o impecável, estamos a tecer o Infinito, estamos a orientar-nos no sentido desse processo e quando o fazemos, os resultados são garantidos. O quarto tipo de yoga, é o yoga do conhecimento, da ciência, que é o conhecimento de como a Natureza funciona, e ela funciona através da consciência, através desse processo conhecemos os meandros da nossa existência. Mas isso não nos deve conduzir ao juízo moral, do que está certo ou errado, o conhecimento está para além da moral.

Comentário: Creio que a intenção de Deepak é alertar para a necessidade de reflectir, conhecer, amar e agir, os primeiros sendo processos de “entrada” e os segundos de “saída”. Através da reflexão e do conhecimento, podemos agir e amar mais livremente.


4# Vou deixar de procurar fora de mim, por qualquer tipo de realização ou preenchimento (fullfillment)
Através do hipnótico condicionamento social, andamos todos meio enganados quanto às fontes da realização, que nos parecem vir de ter coisas, de comprar, de parecer. Achamos que a tecnologia nos faz mais saudáveis, que as armas nos fazem mais seguros, mas nada disto até agora provou ser assim. A tecnologia que é uma coisa neutra, está a ser usada para fins diabólicos e quanto maior é o poder das armas, mais inseguros vivemos. A felicidade e a realização vem da criatividade, que é uma expressão da nossa alma, porque a nossa alma, que faz parte do universo, está constantemente a recriar-se a si própria, ao nos conectarmos com a fonte, conectamo-nos com a fonte de toda a criatividade e somos infinitamente criativos.

Comentário: Este ponto é a sequência do ponto nº2, o mundo está em mim, portanto é a minha visão que determina o que vejo no exterior. A realização pessoal depende dessa visão.

5# Eu compreenderei o sofrimento, ultrapassá-lo-ei, e ajudarei outros a fazer o mesmo
Na tradição védica, é-nos dito que existem 5 causas para o sofrimento, 1) desconhecer a verdadeira natureza da realidade 2) agarrarmo-nos ao que pensamos ser permanente, mas que é impermanente 3) ter medo daquilo que é impermanente (da mudança) 4) identificarmo-nos com o nosso ego, o nosso falso self, a nossa auto-imagem 5) medo da morte, do desconhecido, de largar o conhecido, podemos morrer permanecendo vivos, se ficarmos agarrados ao que conhecemos. Existe sofrimento, existem causas para esse sofrimento, há uma saída, a saída é aumentar a nossa auto consciência.

Comentário: Apesar deste ponto ter sido muito pouco desenvolvido, creio ser um dos que maior reflexão deverá suscitar. A ignorância e o medo são factores de grande perturbação no desenvolvimento pessoal.

#6 Explorarei a minha liberdade nas escolhas conscientes que fizer sobre mim.
É das escolhas conscientes que surgem as possibilidades infinitas e a liberdade, a maior parte das escolhas são feitas pelo ego, pelo que estão erradas, há que mudar para uma consciência mais interna, mais profunda, mais livre.

Comentário: As escolhas conscientes implicam muitas vezes com partes de nós que desconhecemos. Como é que posso escolher deixar de fumar se para além do vício (dependência física) que já possuo, o tabaco ainda me proporciona uma muleta social, uma auto-imagem, uma distracção, ou um alívio para o stress. A questão é que se estou consciente da questão da dependência, muitas vezes não estou das questões que estão associadas, e é isso que significa efectuar escolhas conscientes, saber o que está por detrás, auto-conhecimento.

#7 Todos somos seres espirituais e que cada um está a fazer o melhor que pode face ao seu nível de consciência (awareness)

Quando passarmos a estar ancorados no espírito e não no ego, passamos a ver o mundo como um espelho, porque a partir desse momento o ambiente reflecte-nos. Podemos monitorizar o nosso progresso através dos insights seguintes a) qualquer situação no ambiente é um espelho, pelo que ao invés de afirmar “eu não gosto daquilo” podemos perguntar “o que é que estou a fazer com este estado de consciência que está a criar aquilo”, b) de modo semelhante, qualquer relação é um espelho, em vez de dizer “esta pessoa tem significado para mim” devemo-nos perguntar “qual é o meu estado de consciência neste momento que obtém esta resposta desta pessoa” c) começamos a perceber que a nossa atenção e intenção transformam-se em gatilhos para a transformação, que tudo aquilo para onde dirijo a minha atenção, se torna mais forte, que a intenção despoleta a transformação d) Quando nos dirigimos para esse nível de consciência, há uma espontaneidade sem esforço que se expressa sincronizadamente, as “coincidências significativas”, e) dá-se um salto evolucionário da consciência, dá-se o entendimento de que tudo que existe nos espaços (realms) imaginados torna-se real nos espaços físicos, não há nada que não exista na imaginação, que não tenha o potencial de se tornar realidade no nível material. Dessa forma monitorizamos o nosso nível de evolução, fora dos trâmites da moralidade, deixamos isso para a hipocrisia.

Comentário: A questão da atenção é um indicador muito importante daquilo que nos move, só prestamos atenção ao que realmente nos interessa, pelo que se soubermos ao que é que prestamos atenção, estamos num caminho muito rápido para o auto conhecimento, não é tão simples como parece, mas também não é difícil.

Não me foi ainda possível acabar a tradução, pelo que terei que publicar uma terceira parte, conto fazê-lo na próxima semana.