maio 14, 2005

Deepak Chopra em Portugal – Uma coincidência?

Tive a sorte de assistir à conferência de Deepak Chopra em Portugal no passado dia 10, no auditório da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, e digo sorte, porque a minha querida amiga Fátima (obrigado…) me ligou à última da hora, amavelmente me convidando para ir com ela. Alguém provavelmente não tão necessitado decidira deixar-nos 2 bilhetes, já há muito esgotados e a 80 euros cada um, pelo que o agradecimento também se estende a essa pessoa desconhecida. Coincidência?

Tomei algumas notas na palestra, as quais aqui partilho convosco. Deepak Chopra veio também apresentar o seu último livro intitulado “Livro dos Segredos” e essa foi a temática da 2ª parte, a qual ainda não revi. Hoje fica só a 1ª parte da conferência e a 2ª fica para um próximo artigo. Esta 1ª parte foi dedicada sobretudo à apresentação de noções gerais da ciência actual e do modo como se casam com a sabedoria do Oriente.

Vejamos como, vou abrir este artigo aos comentários, pelo que gostaria que cada um de vós pudesse também participar. Os itálicos são meus.

Chopra começou por afirmar que um antropólogo amigo seu lhe afirmara que se os insectos desaparecessem hoje do planeta, dentro de 5 anos não haveria vida na Terra, pelo contrário, se o homem desaparecesse hoje da Terra, a vida floresceria abundantemente (…) somos a única espécie que mata os da sua espécie, que causa extinção de outras espécies, a única espécie que ameaça a sua própria espécie. Nesse sentido somos seres duais, divinos e diabólicos ao mesmo tempo.

Em próximo artigo tentarei explorar as dinâmicas das polaridades e de como parecem elas articular-se com a tendência evolucionária.

Estamos no limiar de um evolução metabiológica, um ponto de evolução da consciência, pois estamos conscientes de que estamos conscientes, se no passado a sobrevivência era a do mais forte, no futuro o critério de evolução poderá ser o do mais sábio, mas que existe uma diferença entre informação, conhecimento e sabedoria; informação será uma colecção de dados que se torna útil para que um determinado processo se torne conhecimento, e é este que é divino ou diabólico, em que apenas se torna sabedoria, se for utilizado para acarinhar e cuidar (nurture) da teia da vida.

Chopra afirma que o cosmos universal não é só uma estrutura, mas é também um organismo vivo, que evolui simultaneamente com a nossa consciência, pelo que existe a possibilidade de nós, como humanos, participarmos e nos harmonizarmos nessa estrutura universal e participar de forma consciente na próxima etapa evolucionária.

Existem 3 maneiras de termos conhecimento sobre nós e sobre o que nos rodeia 1) através dos sentidos (eyes of flesh), 2) dos olhos da mente, 3) dos olhos da alma, todavia os sentidos (eyes of the flesh) não dão uma ideia correcta daquilo que se vive e vê e cita William Blake: “We are led to believe a lie, when we see with and not through the eye, that was born in the night, to parish in the night, while the soul slept in beams of light”. Desse modo afirma que não podemos confiar nos nossos sentidos para ter uma percepção correcta da realidade e exemplifica com o facto da Terra parecer plana, ou que aquilo que sentimos como matéria ser um fenómeno estático, ou que estamos separados uns dos outros no tempo e no espaço.
O modelo mecanicista (e aqui afirma que um modelo pode permanecer como verdadeiro durante muito tempo devido ao lag entre as descobertas e a propagação e assimilação da informação pela sociedade) newtoniano de que se perceberes o funcionamento, podes interferir de modo a poder modificar o output, parece ultrapassado e cita Heraclitoolha para o teu corpo como para um rio” e tal como um rio no qual não se entra duas vezes, também o nosso corpo se transforma e está em constante dinâmica e troca com todo o Universo, citando Walt Whitmancada átomo que te pertence a ti, também me pertence a mim”. Um exemplo disso é que dos átomos que compõem o nosso corpo, um quatrilião ou seja um seguido de 15 zeros, desses átomos já passou por todo o mundo e com grande probabilidade de terem pertencido a Leonardo da Vinci, ou a Saddam Hussein… Em menos de um ano 98% dos átomos do nosso corpo são totalmente novos, até o DNA, matéria genética que contém a informação evolucionária de milhões de anos, se renova a cada 6 semanas.

Desse modo, aquilo a que chamamos corpo é também uma ilusão, a tradição védica afirma “não te confundas com o teu corpo” e cita ShakeaspeareWe are such stuff that dreams are made of”, o teu corpo é o local a que as tuas memórias e sonhos chamam casa neste momento, e que esses, sobrevivem à morte das moléculas físicas através das quais nos expressamos e que chamamos corpo. A essência material do mundo, afinal é imaterial, a essência física do mundo, é não física, o materialismo é uma superstição, explicando o conceito através da física quântica: as moléculas são compostas de átomos, que por sua vez são compostos de partículas sub atómicas, estas últimas não são algo material, são flutuações de energia e informação num enorme espaço vazio, que se movem à velocidade da luz; proporcionalmente, o vazio da matéria é igual ao espaço intergalático, ou seja, nós (conjunto de corpo, mente e espírito) somos uma representação do Universo. A pergunta que se impõe é a seguinte: O que é este “vazio” de onde todos viemos? É só vazio (emptiness) ou pode ser o útero da Criação (Womb of Creation)? Será que a natureza vai buscar a esse vazio tudo o que existe? Uma galáxia? Uma floresta tropical? Um pensamento?

Dois outros conceitos de que Chopra falou foram a Descontinuidade e a Não-Localidade. Sobre o primeiro, afirmou que o mundo aparece-nos aos sentidos como contínuo, mas que efectivamente não é, exemplificando com o cinema, em que as imagens passadas a uma determinada velocidade conferem a sensação de movimento, a ilusão de continuidade. Mas o Universo é um movimento vibratório, uma sequência de ON/OFF tão rápida, que apenas nos apercebemos do ON, sabemos o que está no ON, mas o que é que está no OFF? Como é que se converte vibração em matéria? E cita Sir Arthur HarringtonSomething unkown, is doing we don’t know what”.

Em qualquer experiência existem 3 componentes: 1) aquilo que observamos, a matéria, que é vibração 2) o processo de observar, que é o movimento da mente 3) e um observador, uma presença (Still Presence) em que todas as observações, relações sentimentos e ambientes, vem e vão, cito o original “that still ever present witnessing awareness, our soul, where everything come and go”. Tudo vai e volta. Somente essa presença permanece, essa presença, que é a nossa alma, transcende a vida e a morte. E cita Stephen Hawking, “não há principio nem fim do tempo” (nota: a teoria do big bang já foi posta de parte pela comunidade cientifica). Se chegarmos ao princípio, o dilema é o que é que existe antes, se chegarmos ao fim, o dilema será o que é que existe depois? Essa descontinuidade, afirma Chopra, é o espaço entre o pensamento e afirma que podemo-nos conectar a essa noção através da meditação, cujo exercício consiste em permanecer no espaço entre pensamentos.

Os pensamentos são cadeias binárias de fotões objectivos e subjectivos, que fazem ON e OFF através das células cerebrais, os fotões são o autocarro da informação. Essa informação está carregada de subjectividade, mas o Universo é uma expressão de consciência, porque pensa, porque está também imbuído de subjectividade e criatividade, tal como os pensamentos, e ao qual estamos ligados. Os fotões carregam a energia e a informação, mas o gap (espaço) entre os fotões é a Descontinuidade, sendo essa a sobreposição de possibilidades infinitas, é todo o potencial do que foi, do que é e do que será, a qual tem 5 atributos: 1) o estado OFF não contém energia, informação, matéria, espaço ou tempo 2) Correlação não-local (Non local correlation), tudo está instantaneamente correlacionado com tudo, mesmo não existindo troca de energia ou informação, é uma característica de omnisciência ou omnipresença, que sabe exactamente o que fazer, como, onde e quando e exemplifica com o facto do ser humano conseguir fazer várias coisas ao mesmo tempo (criar um filho na barriga, tocar piano, ter um pensamento e conversar). Devido a este atributo, o ritmo biológico está de acordo com a sinfonia do Universo 3) Proliferação da incerteza, e cita Nietzscheyou must have chaos within you, to give birth to a dancing star”. 4) Dessa proliferação de caos, incerteza e descontinuidade, nasce a criatividade. Passa-se de um padrão de pensamento e comportamento, para outro, sem que haja transição entre os dois (quantum leap), sem que haja passagem pelo ponto intermédio, é um salto existencial. 5) Nessa descontinuidade, há algo que os cientistas chamam o feito observador (observer effect) em que “na ausência de um ser consciente, o Universo permanece uma sopa quântica radicalmente ambígua, é necessária uma consciência observadora para criar ou moldar aquilo a que se chama o objecto de percepção.

Quase poderia ser o “barro” da criação que necessita de alguém que sirva de receptor e que crie algo a partir dai…

Chopra afirma que a Alma (ou o espírito) tem exactamente as mesmas características da Descontinuidade ou seja que a) é um campo infinito de possibilidades b) é omnisciente e intuitiva, sabe exactamente o que fazer, como, onde, quando e como c) a alma abraça a incerteza, porque sabe que no meio da incerteza nasce a criatividade. Se houvesse certeza o tempo todo, nada haveria para criar d) a alma é fonte de criatividade infinita e) a alma co-cria com o Universo, co-cria com Deus, o Universo e Deus, só se manifestam a menos que nós participemos, não pode haver criação sem um criador e sem alguém que observe essa criação.

Muitos dos problemas que assolam o mundo actualmente, são devidos ao facto de termos perdido o contacto com a nossa alma “ que bem é que faz um homem em ganhar o mundo, mas em perder a sua alma”. Ao compreendermos o que é a realidade, somos responsáveis pela ressurreição da conexão com a nossa alma e com o Universo. Chopra propõe uma mudança de ponto de referência, em que o ser humano passe da mente, do ego que é auto imagem, para a Alma, e que o faça através de certas práticas e exercícios, ele propõe que a nossa experiência de vida passe a vir directamente da fonte, através da reconexão com o Universo. Ao fazermos isso, conheceremos o princípio da sincronicidade, que é um termo cunhado por Carl Jung, passa a existir um sincronismo, com as coincidências significativas, aquilo a que Chopra afirma que na tradição védica isso se chama a “realização espontânea do desejo” (spontaneous fullfillment of desire), em que o intelecto está em harmonia (sincronização) com o Universo. Os eventos tornam-se sincronizados no espaço e no tempo, dos quais todo o Universo se torna responsável, porque inclui todo o comportamento e intencionalidade de todos os seres. Quando as coisas não nos estão a correr bem, devemo-nos perguntar “o que é que o Universo me está a querer transmitir?” e cita um poeta e místico indiano Rumii have lived on the leap of insanity, wanting to know reasons, knocking at the door, the door opens, i´ve been knocking from the inside”. Não estamos fora de uma consciência que se manifesta em todo o Universo, as nossas intenções são parte do comportamento dessa consciência.

Quando a verdadeira sincronicidade ocorre, tem determinadas características a) é uma conspiração de probabilidades que ocorrem fora dos limites do pensamento racional b) ocorre num domínio de consciência não causal (acausal), i.é, sem causa c) esse domínio de consciência não causal, é não local, ou seja, onde tudo está sincronizado com tudo o resto, onde há simultaneidade no espaço e no tempo d) como resultado dessa experiência, movemo-nos para um nível mais elevado de consciência através de um salto (leap) e) a intenção tem algo a ver com todo o processo, as intenções são muito poderosas f) dá-se uma transformação do nosso self, no qual não existe marcha atrás, é a jornada evolucionária da consciência g) começamos a ver que existe um sentido e um propósito no Universo e que somos parte disso h) não mais fazemos distinção entre os nossos pensamentos, intenções e sonhos interiores e o que acontece no exterior.

Estas são características da nossa alma e não da nossa mente, é lá que encontramos intuição, criatividade, imaginação, insight, intenção, sentido, propósito, livre arbítrio.
Chopra terminou a primeira parte dando um exemplo de sincronicidade, conta como certa vez, estando em Londres hospedado num hotel, não consegui estabelecer ligação do seu telemóvel e teve que sair do hotel e ir a uma cabine pública, estava muito frio e à medida que estava a efectuar a ligação, desenhou um circulo com o dedo no vidro embaciado da cabine, para abrir um espaço para vislumbrar o exterior, nesse momento passou alguém que o reconheceu através do buraquinho, era uma amiga sua, manager da banda Eurithmics. Andava a tentar encontrá-lo porque a Annie Lennox (vocalista dos Eurithmics) andava a ter um sonho estranho à vários dias e que lhe queria falar sobre isso, se ele podia parecer no estúdio nessa tarde, etc… Lá foi, a Annie Lenox contou-lhe que andava a sonhar com John Lennon e no sonho John explicava-lhe porque é que tinha escrito a música “Imagine” e que ela não estava a perceber muito bem isso etc, entretanto a sobrinha da Annie Lennox, pequenita, andava pra lá e pra cá intrometendo-se como só as crianças sabem fazer, e a tia Annie pediu-lhe para se sentar um pouco que já iria com ela ao sitio onde ela queria ir, a pequena foi-se lá sentar, sentou-se em cima do comando da televisão, o qual liga a televisão, estando nesse momento o John Lennon a cantar “Imagine”… Desde esse dia, a música da banda mudou completamente, Chopra afirma que a consciência de Lennox deu um salto (leap) evolucionário. Coincidência? O que é uma coincidência?

Quando eu sai para o carro com a minha amiga, após alguma conversa no átrio, uns bons 20 minutos após a conferência ter terminado, ela liga o rádio do carro sintonizado numa estação, “imagine there’s no greed, imagine there’s no hunger”… emociono-me de tal forma a escrever isto… que não consigo encontrar palavras… decidi desde esse momento partilhar convosco o que Chopra transmitiu…

4 Comments:

Blogger Violet said...

Uau 0_0
Obrigada por este post...realmente não há coincidências.

Há quem defenda que o Universo é Ordenado mas impessoal, mas estas coisas provam o contrário.

6:55 p.m.  
Blogger joaoh said...

Deepak explica isso de forma clara, espero que a minha tradução não tenha empastelado o seu pensamento...

2:19 p.m.  
Anonymous Anónimo said...

Obrigada!
Estava eu aqui tristinha por não ter sabido antes dessa palestra e, afinal, ela veio até mim através de ti :)
Tudo de bom!
http://essentialchangeme.blogspot.com/

6:31 a.m.  
Blogger Carla Santos Alves said...

Obrigada...eu sempre achei desde muito pequena que tido estava ligada mas de forma que nunca consegui explicar apenas perceber....

11:50 a.m.  

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