Entender a mente
O título do artigo de hoje é também o título de um livro escrito por Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche, Lama da Nova Tradição Kadampa. O que vou escrever é apenas um resumo muito breve desse livro, pelo que se tiverem interesse mais aprofundado, podem solicitá-lo para os contactos no final do texto(*). Mesmo para um resumo, considero que seria preferível que fosse feito por alguém que estivesse mais inserido no conhecimento desta linhagem budista, pois corro o risco de deturpar o significado, todavia tal não é possível, pelo que peço que considerem qualquer má interpretação, como erro meu.
É o conhecimento da mente que abre as portas à Iluminação “se realizares a tua própria mente, tornar-te-ás um Buda; não deves procurar a budeidade em nenhum outro lugar”.
Todos os fenómenos são meras aparências, tal como os sonhos. Aquilo que nos desagrada, são estados mentais impuros, que podemos fazer com que cessem, tal como um sonho. A mente tem o poder de criar todos os objectos agradáveis e desagradáveis, não existe outro criador para além da mente. (nota: confiando nas explicações de Buda, os budistas não crêem em Deus).
Todos os fenómenos são objectos, porque são objectos de conhecimento, alguns são também possuidores de objecto, porque expressam ou conhecem um objecto. O principal objectivo da mente é conhecer objectos.
Definição de nome. Um nome é um objecto de audição que expressa a designação de um fenómeno, o nome não é uma característica natural do objecto, se me chamo João, isso é-me meramente imputado de acordo com as convenções específicas da língua portuguesa, mas eu não sou João, eu chamo-me João. Todos os objectos de conhecimento são meramente imputados na dependência de seus nomes. Sempre que vêem o meu corpo, pensam “este é João” porque o meu corpo é uma base legítima para este pensamento.
Definição de pessoa. Pessoa é um eu imputado na dependência de qualquer dos cinco agregados (forma, consciência, sensação, discriminação e factores de composição). Pessoa, ser, self e eu são sinónimos. A função de uma pessoa é executar acções e experienciar seus resultados. O agregado forma é o corpo; o agregado consciência é constituído por suas mentes primárias; e os agregados sensação, discriminação e factores de composição são suas mentes secundárias ou factores mentais. Os cinco agregados estão contidos no corpo e na mente da pessoa, a função de uma pessoa – executar acções e experienciar os resultados – se não tivesse discriminação não poderia executar acções, se não tivesse sensações não poderia experienciar os resultados.
A realização da vacuidade, da inexistência do eu, acontece porque todos os fenómenos, inclusive nosso eu, são meramente imputados pela mente e não existem do seu próprio lado de modo algum. (nota: existem 4 escolas centrais no budismo, nem todas concordam quanto ao “onde está o eu” e “o que é o eu”).
Os budistas assumem que a base para a auto-identificação (auto-imagem, Ego, etc.) é o agregado corpo/mente e a função (o papel social) específica que exercemos, que constitui a base para que nos seja imputada uma identidade. Ao passarmos por incontáveis renascimentos (uma elemento central do budismo), em cada um assumimos uma nova identidade (o conjunto corpo/mente/papeis sociais), contudo se procurarmos por uma pessoa verdadeiramente existente em qualquer um deles, nada encontraremos, porque em cada renascimento cada eu é meramente imputado pelo pensamento, na dependência dos agregados daquela vida.
Definição de mente. Mente é aquilo que é clareza e que conhece, “clareza” refere-se à natureza e “conhece”, à sua função. Ainda que a mente não tenha forma, ela pode estar relacionada com uma forma, pode estar relacionada com nosso corpo e localizada em diferentes lugares dele. Do ponto de vista de como é gerada, há dois tipos de mente: percepção sensorial, os sentidos e percepção mental, dividida em três tipos: densa, subtil e muito subtil. A mente desperta normal, é uma mente densa. As mentes subtis e muito subtis só se manifestam durante o sono, a morte e para alguns praticantes, durante o equilíbrio meditativo (nota: meditação sugere um estado de equilíbrio).
A mente muito subtil, ou mente raiz, ou mente residente continua (ou talvez aquilo a que se chama alma ou espírito), é aquela que sobrevive de uma vida para outra, e vive no chakra do coração. Todas as mentes são clareza e tem a função de conhecer, e embora não tenham forma, estão relacionadas com forma.
Embora a mente não possa ser obstruída fisicamente, ela tem as suas próprias obstruções, as delusões e as suas marcas. Corpo e mente não são uma única entidade, mas são entidades inter-relacionadas. Se fossem um só, tudo o que servisse para destruir um, destruiria outro. Comer demais, aumenta o volume do corpo, mas não o da mente, doenças físicas prejudicam o corpo, mas não necessariamente a mente, mas é claro que existe uma relação entre estado mental e condição física, mas isso só indica que existe uma relação, não quer dizer que seja ambos a mesmo entidade.
A prática budista leva anos de avanço sobre a ciência no que diz respeito à descoberta sobre as faces ocultas da ou das mentes. O profundo conhecimento empírico, aliado aos princípios cultivados pelos grandes mestres, levam a crer que o conhecimento de que dispõem é uma valiosa fonte de informação para a compreensão do fenómeno mental. A partir deste ponto o livro entra em descrição detalhada de todos os factores mentais e tipos de mentes. O artigo visa apenas lançar algumas questões acerca da natureza da mente, das coisas, dou eu, na continuidade de outros mencionados no psicótico. Mentalizem e contribuam, fazendo o vosso comentário.
(*)Centro Budista Deuachen - www.cbd.pt
Rua do Crucifixo, 86, 2º Dto.
1100-184 Lisboa
Tel: 21 342 32 86
Tlm: 91 994 2115
Email: info@cbd.pt
É o conhecimento da mente que abre as portas à Iluminação “se realizares a tua própria mente, tornar-te-ás um Buda; não deves procurar a budeidade em nenhum outro lugar”.
Todos os fenómenos são meras aparências, tal como os sonhos. Aquilo que nos desagrada, são estados mentais impuros, que podemos fazer com que cessem, tal como um sonho. A mente tem o poder de criar todos os objectos agradáveis e desagradáveis, não existe outro criador para além da mente. (nota: confiando nas explicações de Buda, os budistas não crêem em Deus).
Todos os fenómenos são objectos, porque são objectos de conhecimento, alguns são também possuidores de objecto, porque expressam ou conhecem um objecto. O principal objectivo da mente é conhecer objectos.
Definição de nome. Um nome é um objecto de audição que expressa a designação de um fenómeno, o nome não é uma característica natural do objecto, se me chamo João, isso é-me meramente imputado de acordo com as convenções específicas da língua portuguesa, mas eu não sou João, eu chamo-me João. Todos os objectos de conhecimento são meramente imputados na dependência de seus nomes. Sempre que vêem o meu corpo, pensam “este é João” porque o meu corpo é uma base legítima para este pensamento.
Definição de pessoa. Pessoa é um eu imputado na dependência de qualquer dos cinco agregados (forma, consciência, sensação, discriminação e factores de composição). Pessoa, ser, self e eu são sinónimos. A função de uma pessoa é executar acções e experienciar seus resultados. O agregado forma é o corpo; o agregado consciência é constituído por suas mentes primárias; e os agregados sensação, discriminação e factores de composição são suas mentes secundárias ou factores mentais. Os cinco agregados estão contidos no corpo e na mente da pessoa, a função de uma pessoa – executar acções e experienciar os resultados – se não tivesse discriminação não poderia executar acções, se não tivesse sensações não poderia experienciar os resultados.
A realização da vacuidade, da inexistência do eu, acontece porque todos os fenómenos, inclusive nosso eu, são meramente imputados pela mente e não existem do seu próprio lado de modo algum. (nota: existem 4 escolas centrais no budismo, nem todas concordam quanto ao “onde está o eu” e “o que é o eu”).
Os budistas assumem que a base para a auto-identificação (auto-imagem, Ego, etc.) é o agregado corpo/mente e a função (o papel social) específica que exercemos, que constitui a base para que nos seja imputada uma identidade. Ao passarmos por incontáveis renascimentos (uma elemento central do budismo), em cada um assumimos uma nova identidade (o conjunto corpo/mente/papeis sociais), contudo se procurarmos por uma pessoa verdadeiramente existente em qualquer um deles, nada encontraremos, porque em cada renascimento cada eu é meramente imputado pelo pensamento, na dependência dos agregados daquela vida.
Definição de mente. Mente é aquilo que é clareza e que conhece, “clareza” refere-se à natureza e “conhece”, à sua função. Ainda que a mente não tenha forma, ela pode estar relacionada com uma forma, pode estar relacionada com nosso corpo e localizada em diferentes lugares dele. Do ponto de vista de como é gerada, há dois tipos de mente: percepção sensorial, os sentidos e percepção mental, dividida em três tipos: densa, subtil e muito subtil. A mente desperta normal, é uma mente densa. As mentes subtis e muito subtis só se manifestam durante o sono, a morte e para alguns praticantes, durante o equilíbrio meditativo (nota: meditação sugere um estado de equilíbrio).
A mente muito subtil, ou mente raiz, ou mente residente continua (ou talvez aquilo a que se chama alma ou espírito), é aquela que sobrevive de uma vida para outra, e vive no chakra do coração. Todas as mentes são clareza e tem a função de conhecer, e embora não tenham forma, estão relacionadas com forma.
Embora a mente não possa ser obstruída fisicamente, ela tem as suas próprias obstruções, as delusões e as suas marcas. Corpo e mente não são uma única entidade, mas são entidades inter-relacionadas. Se fossem um só, tudo o que servisse para destruir um, destruiria outro. Comer demais, aumenta o volume do corpo, mas não o da mente, doenças físicas prejudicam o corpo, mas não necessariamente a mente, mas é claro que existe uma relação entre estado mental e condição física, mas isso só indica que existe uma relação, não quer dizer que seja ambos a mesmo entidade.
A prática budista leva anos de avanço sobre a ciência no que diz respeito à descoberta sobre as faces ocultas da ou das mentes. O profundo conhecimento empírico, aliado aos princípios cultivados pelos grandes mestres, levam a crer que o conhecimento de que dispõem é uma valiosa fonte de informação para a compreensão do fenómeno mental. A partir deste ponto o livro entra em descrição detalhada de todos os factores mentais e tipos de mentes. O artigo visa apenas lançar algumas questões acerca da natureza da mente, das coisas, dou eu, na continuidade de outros mencionados no psicótico. Mentalizem e contribuam, fazendo o vosso comentário.
(*)Centro Budista Deuachen - www.cbd.pt
Rua do Crucifixo, 86, 2º Dto.
1100-184 Lisboa
Tel: 21 342 32 86
Tlm: 91 994 2115
Email: info@cbd.pt
2 Comments:
Olá, tb existe astrologia budista, embora não nos mesmos termos. O encaixe das peças é para ser feito por cada um, para mim, ainda nem todas as coisas fazem um sentido completo, no entanto, não deixo de as tentar entender.
Quanto às emoções, aquilo que me parece é que as mesmas,pertencem aos tipos de mente, segundo esta escola budista. As mais recentes descobertas da Ciência (vide os 3 livros de António Damásio) tendem para isso, a inteligência não se manifesta dissociada das emoções,e vice-versa. Desse modo, dominando a mente, dominam-se as emoções, não se suprimem. Isto é apenas uma opinião pessoal :-)
"é bem interessante a forma em que se expressa ao budismo".
é bem legal.
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