maio 23, 2005

Gémeos Parte I

“Mas estou curiosa...dizem que este ano é bastante favorável aos Gémeos... (não sei porquê) mas eu não vejo nada...... Nada, não sei... se este presente desencontro comigo mesma tiver alguns frutos positivos...
...mas, sabes... tenho andado mais calma, tenho dormido e levado uma vida mais ou menos normal. Isto parecendo que não, é facto para celebrar...… tentar acreditar em algo infinitamente maior que eu, têm-me ajudado a lidar com a minha ansiedade e insegurança......mas ás vezes penso: será que o eu acreditar presentemente em algo (mesmo não sabendo no quê) não será simplesmente uma forma mais fácil de viver a vida!?
... E não necessariamente a verdadeira...Ou melhor... Pergunto-me se estou agora nesta fase de pesquisa espiritual, de busca de respostas... simplesmente por não estar a aguentar a forma 100% racional como levava a vida. Isto pode crer dizer que estou a tentar encontrar um caminho mais fácil simplesmente por não estar a conseguir percorrer o primeiro......sendo o que me leva para este caminho, angústias e frustrações pessoais...e a incapacidade de encontrar satisfação no mundo que me rodeia...... Só quero ter a certeza que estou a ser honesta comigo e com o que eu realmente sou...mas neste momento há uma grande confusão na minha cabeça... pois já não sei bem se sou o que sempre pensei ser...e também já não acredito no que sempre acreditei....mas também ainda não sei muito bem quem sou no presente momento e em que é que acredito....Sendo este facto relativamente desconfortável para mim...”


Cá estamos em Gémeos… acreditam nisto? :-) Roubei uma carta-mail de uma querida amiga e da sua presente situação existencial, que me permitirá ilustrar algumas teias deste signo.

Pois bem, saímos de Touro, de um momento evolucionário de contracção após a expansão de Carneiro, o Universo parece funcionar num mecanismo de contracção/expansão, pelo que voltamos novamente a um tempo de viragem “para fora”. No nosso corpo temos vários exemplos desse mecanismo (coração, pulmões, etc.), nós próprios engordamos e emagrecemos. Gémeos exemplifica bem esta dinâmica dual, sendo um signo de absorção de conhecimento, de exposição ao conhecimento, deve em determinados momentos retrair-se, de modo a poder digerir e absorver esse conhecimento. Sendo um signo mutável, a sua palavra chave é a APRENDIZAGEM, pertencendo ao elemento Ar, que significa MENTAL ou RELACIONAL, vemos como a regência de Mercúrio é quase totalmente virada para a mente, o conhecimento, a razão, o intelectual, a palavra, a comunicação, o pensamento, o estabelecimento de relações entre isto e aquilo. O nativo de Gémeos é quase sempre um mestre nestas artes, afinal de contas é uma das áreas em que desde cedo, mais informação existe disponível, e dada a sua propensão para estes temas, torna-se exímio, é o que melhor fala e durante mais tempo, sobre todos os assuntos, pensando em muitas coisas, perdendo-se nos pensamentos e… não fazendo nada… este é por vezes um dos perigos, pensar mas não agir.

Mas bem, voltemos à criança que tem vindo a ser caracterizada no início dos temas, que desatou a fazer perguntas, porquê isto, porquê aquilo, a brincar com a linguagem, a inventar personagens (o Hobbes do Calvin), e a brincar às personagens (o próprio Calvin que se transfigura no intrépido Spiff e noutros seres…). O Universo de Gémeos é de brincar, representar, inventar, nada de muito sério ou de muito pesado. Embora isto possa ter uma conotação negativa, nada existe na Natureza que seja deixado ao acaso, todos nos devemos tornar em adultos responsáveis por nós e pelas nossas acções, e os Gémeos não são excepção, contudo a aprendizagem, a trama evolucionária e o “equipamento” natal dos nascidos neste signo tem um tom muito próprio, quiçá avaliado de forma ligeira as mais das vezes, no entanto tão complexo como o de qualquer outro signo.

A aprendizagem do signo tem sobretudo que ver com a descoberta da natureza relativa da verdade, “com o saber cresce a dúvida”, afirma Goethe, e uma das armadilhas vem justamente do signo oposto – Sagitário – que quando descobre algo que lhe parece verdade, o transforma em verdade universal. Por outro lado aquilo em que acreditamos, é aquilo que somos? Numa das citações iniciais “mas também ainda não sei muito bem quem sou no presente momento e em que é que acredito....Sendo este facto relativamente desconfortável para mim...”, verificamos uma das questões que pertencendo a todos os signos, é de facto muito premente em Gémeos “quem sou eu, em que é que acredito”. O nativo vai procurar através de vários meios aprender quem é, a aprendizagem faz-se modo relativo, a uma relação por exemplo, os Gémeos, como as crianças vão aprendendo a representar um papel, ou melhor, vários papéis, através da imitação, as crianças gostam de brincar aos papéis, de representar, uma terapia com crianças faz-se através de brincar, ou representando papéis, se observarmos como essas crianças, brincam ou representam, podemos ter algum acesso á sua dinâmica interior.

Cada nova pessoa lhes serve para essa dinâmica de auto-conhecimento, diz-se que utilizam uma máscara, mas não é a verdade total, são simultaneamente a máscara e eles próprios, e jogam muito bem esse jogo ambíguo, o que se vê é a verdade, ou não? Estou a representar ou é esta a realidade? Evidentemente isto pode originar formas mais ou menos veladas de impedir o acesso ao seu interior, mas é para isso que servem as máscaras, ou não? “Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação.” Fernando Pessoa (Sol e Lua em Gémeos)

Para estes nativos, o relacionamento interpessoal é uma forma de autoconhecimento, é um campo de experimentação, cada nova pessoa lhes permite um campo de experiências totalmente novo, através do qual vão dando um pouco mais de forma à sua personagem, imitam o outro nos gestos, na pose na voz, quiçá no pensamento, porque querem perceber se isso lhes serve ou não, com facilidade passam no entanto de uma pessoa a outra, entre os grandes actores, contam-se inúmeras influências do signo, Sol ou Lua ou o Ascendente em Gémeos. Em ambiente social o Gémeos é sempre o mais saltitante, fala com todos e quem espera alguma fidelização relacional (não falo em fidelidade conjugal, são tão fiéis/infiéis como qualquer outro signo) desengane-se, o Gémeos precisa de liberdade para se relacionar, faz parte do seu processo de auto-conhecimento.

Algumas dificuldades podem ser encontradas pelos aspectos difíceis que fazem com os outros signos mutáveis: a Oposição com Sagitário podendo indiciar alguma falta de fé, uma tentativa desesperada de se agarrar a algo tangível, como modo de combater o desconhecido; a Quadratura com Peixes, que pode apontar para uma natureza que suspeita do espiritual, dada a sua propensão quase exclusivamente intelectual ou racional; a Quadratura com Virgem, que aponta para uma falha na discriminação experiencial e na capacidade para se concentrar em escolhas e acções que conduzam a algum lado, apontando para uma incapacidade para retirar conclusões, derivada da sensibilidade extrema à necessidade de experimentar e absorver. Parece existir um falha no mecanismo de contracção, o Gémeos sabe expandir-se, adquirir novos conhecimentos, mas não sabe quando parar ou mesmo como parar, a retracção, a reflexão e a digestão e aplicação parece falhar, como alguém que se perde em fórmulas mas que não chega nunca ao fim, porque vai derivando mais um pouco aqui e um pouco ali e agora vai por acolá, porque se deslumbra com cada nova vereda que encontra.

Numa outra vertente, a dúvida constante, que impede o progresso, ...mas ás vezes penso: será que o eu acreditar presentemente em algo (mesmo não sabendo no quê) não será simplesmente uma forma mais fácil de viver a vida!?... E não necessariamente a verdadeira..., a bagagem geminiana é de dúvida, apreender a natureza relativa da verdade leva ao questionamento, esse leva à dúvida e assim sucessivamente num ciclo que rapidamente se torna vicioso, mas todos temos mais planetas no horóscopo que exibem outras necessidades, não somos apenas Gémeos, porque não descobrir outras dimensões ocultas da nossa existência?