maio 02, 2005

A mudança: uma partida aos Touros?

Implícita à ideia de mudança, está a ideia de movimento. A ciência descobriu que na natureza tudo está em movimento, nada é inerte, a matéria não é inerte, a matéria é energia e energia é movimento. O conhecimento budista parece partilhar da mesma noção de que “observando com atenção o Universo, veremos que tudo é efémero, transitório, mutável e perecível. Tudo é impermanente e se transforma sem cessar.” Heraclito afirmou que “tudo é impermanente, excepto a mudança”. A mudança vista deste prisma, será o aqui e agora da existência. Existir é mudar, mudar é evoluir, existir é evolução.

“Quem está mal, muda-se”, o provérbio pode ter várias conotações, adopto a que mais me convém para este texto: o indivíduo tem tendência a mudar, apenas quando em si tem a noção de que algo está mal, caso contrário não o faz, ninguém muda a não ser que se torne absolutamente necessário, isto poderia ser o corolário da lei do menor esforço, lei essa que também rege a natureza e portanto o ser humano. Sem algum factor de stress, parece não existir propensão à mudança. Ao indivíduo que reconhece a necessidade de mudar, é inerente um determinado nível de stress, aquilo a que Kierkgaard provavelmente chamou a “angústia de existir”, dada a necessidade de reconstrução existencial em cada novo momento de vida, e que essa angústia, essa depressão, esse stress ou ansiedade, são factores geradores de mudança, portanto não necessariamente vistos como negativos. A pós-modernidade concluiu que “quem pensa, deprime-se”. Assisti recentemente a uma conferência do Psiquiatra (e escritor) Lobo Antunes em que o mesmo afirmava que “nos doentes em que não existe ansiedade, o prognóstico é sempre muito reservado, sendo a ansiedade um factor de bom prognóstico”, ou seja parece ser a ansiedade, uma característica da personalidade que deseja mudar, todavia há que distinguir a ansiedade patológica da angústia existencial.

A doença física ou psicológica parece vir do esforço em manter, mais do que do esforço em mudar. É relativamente simples de provar que é a persistência em comportamentos inadequados, que origina a doença. Um fumador adoece, porque persiste em fumar, porque lhe é difícil mudar de hábitos. A perturbação mental e existencial, tem muitas vezes subjacente a incapacidade para mudar padrões, sejam de pensamento, de comportamento, emocionais ou outros. A doença é tanto mais difícil de erradicar, quanto persistem padrões de rigidez ou de aversão à mudança.

A mudança pode ser lenta e progressiva ou cataclismica, de modo geral é lenta, pois parece impossível a adaptação e evolução se for demasiado rápida ou num contexto sempre cataclismico. Nem sempre se aceita a necessária lentidão, numa época de imediatismos. Parecemos estar a um momento de esgotamento do actual modelo vivencial, com a subjugação do homem ao tecnológico, dado que a acelerada mudança tecnológica parece estar a deixar o “homem” para trás, determinando uma acumulação de energia negativa e desperdiçada. Já não é máquina que é deitada fora, mas é o homem que está ser “deitado” fora pela máquina.

Em função do não reconhecimento da necessidade de mudar, o indivíduo precipita o evento que despoleta a consciência da mudança. A mudança, quando efectuada “de dentro” parece ser integrada como processo natural que é, quando é imposta “de fora”, o indivíduo tende a considerá-la como cataclismica. No entanto a mudança é o que é, é a lei universal do movimento, cabe ao indivíduo encaixar-se na onda a adaptar-se os ritmos naturais, ou rejeitar o padrão e sujeitar-se ao cataclismo (a doença, a perda, a dor, etc). Perceber que este padrão de mudança faz parte de um processo interno de sobrevivência-adaptação-aprendizagem, é perceber que todos os processos externalizados (as identificações e o poder que outros exercem sobre nós) prejudiciais ao desenvolvimento pessoal, podem ser eliminados. Há que reconhecer que na maior parte dos casos, nem sabemos com o que nos identificamos, nem que somos facilmente manipulados nas nossas capacidades de decisão e tomada de consciência. O que quero realçar é que o processo de mudança é algo de interno, quanto maior o conhecimento sobre o mesmo, maior a capacidade de adaptação, aprendizagem e evolução. Para mudarmos algo em nós, preferimos sempre começar pelo exterior (um corte de cabelo, mudamos os móveis da sala, compramos um carro novo), raramente a mudança começa por dentro, aliás nem sempre tem que suceder dessa forma, no entanto as lentes com que vemos o mundo são as interiores, se mudamos a cor das paredes do nosso quarto para uma cor mais alegre, existe algo em nós que quer mudar ou até já mudou, que determinou o processo exterior, uma alteração na maneira de ver o mundo, portanto o processo exterior só é visível, porque o processo interno já ocorreu. Algumas pessoas, quando se encontram num estado de angústia psicológica, queixam-se de ver tudo negro, o panorama é todo muito sombrio, isso é sinal de que algo deve mudar, são os sinais externos, aos quais se deve dar a máxima atenção e que são normalmente sintomas de instabilidade, irritação, ansiedade, depressão, dor, falta de prazer, inibição, etc.

A zona onde deve ocorrer a mudança está intimamente ligada ao sinal exterior. Não há acasos na sinalização de problemas, todo o problema que persiste é um indicador. Todo o corpo humano é dotado da mais alta inteligência, o cérebro é apenas um mecanismo, tão indispensável ao correcto funcionamento como os outros órgãos.

A consciência da mudança, só é atingível pelo pensamento/conhecimento, incluindo todos os processos de alargamento da consciência, não exclusivamente racionais ou ligados à mente intelectual, logo todo o estreitamento de consciência é inibidor de mudança. O conhecimento proporcionado pelos sentidos, é o adequado à percepção da matéria, reconhecendo que nem tudo é visível ou tocável, percebe-se que nem todo o conhecimento é apreensível exclusivamente pelos sentidos. Como já disse anteriormente, o conhecimento intelectual, é apenas a primeira etapa do conhecimento. Quem já experienciou formas alargadas de percepção e consciência, sabe do que falo.

Os signos FIXOS (Touro, Leão, Escorpião, Aquário) cuja palavra chave pode ser SEGURANÇA, são os que mais dificilmente parecem encarar a mudança, embora todos eles tenham presente esse processo. O desejo de mudar, experimentar e conhecer, é limitado pela necessidade de estabilidade e segurança, a qual impõe o medo da perda, situação que é acentuada no eixo Touro-Escorpião. Embora se admita que o processo de mudanças na percepção é continuo no ser humano, com frequência a “cristalização” parece mais segura, no que aparece como uma defesa da integridade do Eu, reflectindo-se em ideias ou sentimentos que o indivíduo relucta em admitir, procurando preservar essa (suposta) integridade.

Uma certa propensão à mudança parece ser mais visível nos signos MUTÁVEIS (Gémeos, Virgem, Sagitário, Peixes), nos quais existe um sentido mais activo de inadequação, sobretudo porque a palavra chave dos mutáveis parece ser APRENDIZAGEM. Esse movimento interior de questionamento, parece favorecer a chegada à compreensão (Insight) que facilita a mudança.

Os signos CARDINAIS (Carneiro, Caranguejo, Balança, Capricórnio) cuja palavra é ACÇÃO, e acção tem subjacente movimento, energia, logo predisposição à mudança. Neste últimos, a predisposição para a mudança parece diferente da dos signos mutáveis, porque há o desejo mudar iniciando, construindo, enquanto nos mutáveis, a hipótese tem mais que ver com o questionar, arrumar, classificar, reorganizar, criticar, refazer.