maio 14, 2005

A posse

Posse, s.f. detenção ou fruição de uma coisa ou de um direito; estado de quem possui uma coisa ou a goza; poder que se manifesta quando alguém actua por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real

Possessivo, adj. que designa posse; que domina; que subjuga; (psic.) que procura guardar outrem para si em vez de se lhe dedicar

Como já devem ter reparado, socorro-me do Dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora, para iniciar um artigo que embora publicado sob a égide de Touro, se aplica a qualquer signo. A astrologia tradicional aplica o rótulo de possessivo ao signo, vimos nos artigos anteriores que dada a tendência inata para o auto sustento, aquisição essa que é feita via esforço próprio, pelas suas próprias mãos, pode dar-se uma identificação com o objecto que se conseguiu obter. O indivíduo tende a sentir-se o proprietário daquilo que adquiriu, menos do que pensar que se o fez, foi porque isso estava de acordo com as suas necessidades evolucionárias, ou seja, o indivíduo vive para trabalhar, não trabalha para viver (evoluir) e dai alguma confusão…

No que às relações diz respeito, essa identificação com o Outro que se “adquiriu” ou “conquistou” pode trazer alguns problemas. Se a identificação com o próprio corpo já parece ser fonte de alguns enganos e de alguns sofrimentos, a identificação com o corpo do Outro parece ser ainda menos significativa, no entanto… no sector masculino essa parece ser a determinante da escolha e claro se fui eu que escolhi, “ o que é meu, é meu”. Embora mais tradicional num homem do que numa mulher, as mulheres também já vão tendo os seus padrões de escolha baseados na beleza, embora esse não seja o primeiro critério de escolha numa mulher que é, segundo estudo de Anália Torres (Divórcio em Portugal, 1996) o estatuto sócio-económico do eleito.

Não é necessário pensar muito para se construir a óbvia associação posse-objecto e se o Outro nos pertence, a ele podemos fazer o mesmo que a um objecto, parti-lo, trocá-lo por outro, não lhe dar importância, enfim uma espécie de brinquedo que perde o viço com a idade, ou com a perda de estatuto sócio-económico. Ou seja se podemos achar injusto que os homens só preferem as bonitas, as mulheres só preferem os abastados, e se no primeiro caso os “sintomas” do amor, nomeadamente a posse e o ciúme se manifestam porque não irão conseguir encontrar outra tão “boa” como aquela, no caso das mulheres o mesmo se pode aplicar, ao conceito de ser fraca a probabilidade de encontrarem um “cartão de crédito” tão generoso como aquele. Não sei quem afirmou que a paixão era coisa para ricos e a pronto pagamento, mas certamente está desactualizado, com o advento das suaves prestações mensais, a paixão está ao alcance também do pobre…

Tudo isto gera uma dinâmica (económica) interessante, na mulher o embelezamento forçado, a moda, os produtos anti-envelhecimento, o exercício físico, as dietas, as doenças psicosomáticas ligadas à alimentação, tentando manter-se atraente para manter a sua parte do contrato, eu dou o corpo, tu dás a carteira (onde é que eu já vi esta cena almodovariana??), no homem, a ambição de subir na carreira, trabalhar mais para ter mais estatuto, ganhar mais que todos, ter o melhor carro, a moda, os símbolos de status, etc. O casamento é um contrato de amor fundado na posse? É o conceito económico de propriedade que está por detrás desta dinâmica? Há semelhança de um imóvel, há que fazer obras de vez em quando, para manter as rendas altas? Se o imóvel se degrada demais, avança-se para a demolição e constrói-se um novo por cima? As estratégias de sedução hoje em dia passam ou não pela exibição mútua de símbolos, as mais das vezes enganosos? Mesmo quando se falam de ideias ou sentimentos, são próprios, ou destinados a impressionar? Parece uma dinâmica que se auto-alimenta, que aparenta ter como base a identificação com o corpo, próprio ou alheio. Onde está o resto? A mente? O espírito?

Não encontramos sintomas desta posse apenas na relação. Os frutos da relação (os filhos) fornecem muitas vezes provas inequívocas deste facto, aqui as transferências são tão ou mais perigosas do que nos adultos, afinal estamos a falar de um outro ser humano, ao qual deveriam ser ministradas condições adequadas de crescimento. As mais das vezes os filhos são extensões vicárias de satisfação dos desejos (por vezes até sexuais) de seus pais. Querem-se filhos porque a) os pais se querem sentir orgulhosos dos seus filhos no futuro b) querem provar as suas capacidades reprodutivas c) projectarem neles as suas aspirações não alcançadas d) terem um ponto de fuga emocional, como as bonecas ou os comboios da infância, etc.

Os filhos são mais uma identificação possessiva, o “meu filho isto, o meu filho aquilo”, as crianças não existem para serem amadas, compreendidas, escutadas e aceites por aquilo que são, existem para satisfazer os pais, o que na maior parte dos casos acaba em provação, em revolta, em neuroses, e ainda nos dizem que temos que cuidar dos nossos pais com carinho e amor quando forem velhos. Felizmente o adulto tem e deve promover a oportunidade em si de quebrar essa corrente de irracionalidade, não só na maneira como trás e orienta os seus filhos no mundo, como na forma como pode vir a servir também de exemplo e aprendizagem para os seus pais. Alguém disse que as crianças são de Deus, inclino-me a partilhar que de facto nada é de ninguém, a matéria e logo a posse, são ambas ilusões dos sentidos, enquanto permanecermos escravos deles e dessa ilusão, consideramos que tudo nos pertence e que o Outro é nosso. Somos apenas de nós mesmos, se o quisermos.