julho 03, 2005

Caranguejo parte I

Tenho vindo a descrever as diversas etapas do Zodíaco como se de alguém se tratasse, esse ser imaginário começou a ser descrito com Carneiro, como se a vida ou as vidas pudessem ser ciclos evolucionários, Carneiro, a força bruta que expele para fora, Touro a consciência de ter que subsistir, de perceber que meios (e valores) se têm e de quais se necessitam, Gémeos, criando um novo ciclo de expansão pelo cultivo da mente e da Razão, em Caranguejo, um novo ciclo de retracção, mais virado para o interior, onde se tentam discriminar emoções e sentimentos, as emoções como reacção aos sentimentos, a criança começou a ter consciência de que tem emoções. No Zodíaco a vida parece andar em continuo acto de expansão-contracção, aliás essa parece ser a dinâmica do próprio Universo, com as partículas quânticas num movimento de contínuo de On/Off, tal como a ciência tem vindo a explicar (ver artigos de Deepak Chopra). Chegamos a um ciclo de viragem para o interior, é dentro de si que o indivíduo tende a ir em busca de respostas, dentro do seu quadro emocional. Contudo esta etapa da viagem evolucionária tem um cariz muito especial, é uma parte muito delicada, que a sociedade parece não estar claramente habilitada a entender, não obstante todo o esforço que se tem posto na divulgação de novos métodos educacionais.

È curioso como a mente (Gémeos) anda tão próxima das emoções (Caranguejo), no entanto é sobre a primeira que tudo roda, todas as faculdades iniciais da criança são voltadas para o trabalho da mente, quando a criança se começa a exprimir em termos emocionais, é aqui que claramente começa a falhar todo o processo natural de crescimento e é neste preciso momento que se vão estabelecer uma grande parte das dificuldades que posteriormente surgirão na vida adulta. Posso partilhar de duas visões aqui, uma mais terrena em que apenas vemos os acontecimentos como fruto de uma só vida e ai poderemos ser tentados a culpar o ambiente, a família, a cultura etc, e perpetua-se um esquema de vitimização, ou da plena escolha do espírito que em livre arbítrio escolhe as dificuldades que enfrenta de modo a que lhe seja dadas as possibilidades de evoluir. Aparentemente não são visões compatíveis, aliás a ciência psicológica andou largo tempo de costas voltadas para a espiritualidade e de facto podemos considerar que cem anos de investigação, mesmo ao ritmo a que se produz, é ainda muito pouco tempo, quando comparado com a dimensão espaço-temporal do Universo. Todos gostaríamos de ter mais certezas, e essa é quase uma demanda deste signo, certezas que confiram segurança.

Se discutirmos um pouco a base da insegurança talvez se possa descobrir uma forte componente emocional nisso, não foi seguro numa determinada fase do desenvolvimento ser-se com se era, não se era aceite pelo que se era, se o menino chora “não chora porque é feio”, se diz que está com medo “não há nada de que ter medo”, as certezas que o adulto quer transpor para uma criança, porque ele próprio não está preparado para as aceitar em si, não se permite ser inseguro, chorar. E continua assim pela vida fora, se o outro está mal, oferecemos soluções, minimizamos, ridicularizamos, etc, fazemos tudo menos entender o que o outro está realmente a querer comunicar, porque estamos largamente incapacitados para compreender as emoções desse outro. Porque não compreendemos as nossas próprias emoções, porque no momento em que quisemos exprimi-las foi-nos vedada uma maneira segura de o fazer, foi-nos devolvida uma qualquer resposta com base na razão do outro, e esse mecanismo foi-se atrofiando em mim, isso gera uma insegurança tremenda, e tudo o que me gera esse sentimento eu vou tentar esconder, eliminar, distorcer, porque fui condicionado a que não era seguro exprimir o meu sentimento, a minha emoção, a minha carga emocional. Ensinaram-me a contar, a ter ambição, a ser competitivo, mas não me ensinaram a sentir, sendo esse um mecanismo natural do organismo que foi ficando atrofiado, o próprio organismo arranjou maneira de se defender distorcendo, negando, reprimindo e assim vamos dolorosamente amputados pela vida fora. Nos consultórios dos profissionais de ajuda, muitas vezes os clientes indagam pela família, porque Freud escreveu que é na criança que começa a distorção, mas assiste-se a uma demanda aflitiva de culpados, na esperança de que se possa descobrir um fio à meada que minore a dor, cuja origem se desconhece. Será que conhecer as origens dessa dor a pode minorar? Até onde teremos que ir para a desenterrar? Será que podemos entender que para que possamos crescer é quase necessário retomar uma aprendizagem de expressão emocional, é necessário “emendar” esse trabalho que não foi feito ou que foi mal feito por negligência, por ausência, por deliberada má fé. Será que a aprendizagem da expressão emocional é a chave? Talvez possa ser uma das chaves. Caranguejo fala do momento em que o indivíduo sente necessidade de segurança interior, segurança essa que pode advir da correcta expressão emocional, e segurança essa que é necessária para enfrentar com determinação e motivação todos os passos de uma vida, por vezes também acidentada. Uma expressão emocional perturbada é geradora de insegurança pessoal, que deriva em baixa estima de si e que obviamente tentaremos colmatar com tudo o que possa ser ilusório, pessoas, empregos, bens, dependências várias, etc. Não será difícil perceber que claramente quase todos somos deficitários neste sentido, ainda que possamos não ter sido nós a escolher este tipo de vida para nós, será que podemos agora fazer algo para a modificar, será que podemos ter consciência que nos leve de volta á auto responsabilização pelo que nos acontece, ou estaremos condenados a ser vítimas? Nem sempre parece fácil, pois a vida por vezes trás acontecimentos que são de facto deveras pesados.

Espero que seja perceptível a mecânica da trama subjacente a Caranguejo, a de não terem existido condições propícias ao correcto desenvolvimento pela atrofia da emoção em detrimento da Razão. E dessa forma, o indivíduo estar “amputado” dessa faculdade e sentir-se inseguro interiormente, ainda que o não mostre por fora, mas que esse sentimento mina e queima por dentro, porque com efeito o indivíduo sente-se incompleto, incapaz de se expressar na sua totalidade e de modo adequado. O resgate das emoções pessoais, através do mergulho do que foi amputado pelas vivências da infância, os “traumas” da infância, mas em que ponto é que eles mexeram, o que é que temos agora que recuperar?

Gostaria de deixar claro que isto é o que está por detrás de Caranguejo, não é necessariamente uma descrição de todas as pessoas deste signo, mas de um modo genérico a problemática das emoções, dos assuntos familiares, da mãe, da nutrição e relação emocional com o Outro são de facto questões deste signo e de toda a restante simbologia associada, nomeadamente a Lua e a casa 4. Basta pensar que podemos não ter nenhum planeta em Caranguejo e ter vários na casa 4, ou vários aspectos à Lua e que vão chamar a atenção e dar uma ideia mais aprofundada de toda esta questão. Se me entenderam bem também, a questão do desenvolvimento pessoal tem mais que ver com a identificação e trabalho sobre as partes de nós que necessitam de trabalho, porque não foram correctamente desenvolvidas, do que propriamente andar numa procura aflitiva de causas e situações, vulgarizada hoje em dia pelas práticas regressivas, as mais das vezes completamente inadequadas, ministradas por pessoas mal preparadas e que mais não são do que meras panaceias aos reais problemas. O desenvolvimento emocional e pessoal passa pela corajosa abertura aos problemas internos, surgindo dessa forma a abertura para uma mudança, em que é necessária confiança para que a mesma ocorra, sendo dessa confiança que surge depois a segurança interior com que se encara o mundo externo.