maio 29, 2005

Gémeos Parte II

“Não encaixo porque sou 'arraçada' de virgem (meu ascendente) que se tem revelado como muito poderoso. É melhor reveres o que escreveste dos gémeos porque isso de estar sempre a chamá-los de cabeças no ar, infiéis,inconstantes, irreverentes, sem saber o que querem... também já irrita.Afinal uma pessoa pode ser Gémeos e não ser essas coisas todas (embora algumas delas não sejam tão negativas como alguns querem fazer pensar) Bom, já chega de conversa fiada. Gostei de te 'ouvir'.”

Começo o segundo artigo dos Gémeos com mais uma citação, a qual aproveito para reforçar algumas ideias acerca do que por aqui vou lançando. A minha amiga manifesta-se discordante quanto à categorização de certas características geminianas. Essa classificação poderia de facto ser dispensável, no entanto, aquilo que tenho vindo a fazer em cada signo tem para mim um sentido que é o seguinte: creio que cada signo tem uma “missão” evolucionária, e que para cada missão existem “equipamentos” adequados, embora muitas vezes esses “equipamentos” não sejam sempre utilizados na sua plenitude. Se ao Gémeos parece competir a descoberta da natureza relativa das coisas e das verdades, alguma inconstância, errância, superficialidade pode ser necessária aquela realização, todavia tudo tem um equilíbrio. Outro dos pontos que considero importante, é o facto de considerar que todas as medalhas tem um reverso, se muitas vezes os nativos “escolhem” a face menos positiva da actuação, o que alerto é justamente para a necessidade de entender que há possibilidades de passar a um registo positivo da utilização das energias (ou equipamento, como lhe chamo) postas à disposição. Como diz Deepak Chopra, “deixar de ver o mal, como meu inimigo”. Embora não o percebam, muitas pessoas funcionam claramente num registo negativo, isto não é uma afirmação moral, é uma constatação, existem outros modos de resgatar o potencial de que cada um dispõe, esse é o objectivo de “categorizar” por vezes de forma negativa os signos, se todos fossemos perfeitos, nada mais haveria para descobrir, estamos muito longe da perfeição.

Um dos primeiros artigos foi justamente sobre o estado de evolução espiritual, “cada um está a fazer o melhor que pode”, ié, parecemos não coexistir todos aos mesmos níveis. Os artigos sobre os signos, não caracterizam ninguém em especial, no entanto o meu conhecimento sobre os signos e as respectivas pessoas, leva-me a crer que existe uma tendência padrão, em que as características genéricas do signo se manifestam talvez nuns 70% das pessoas desse signo. Depois existem os casos em que predominam características de outros signos, aliás a citação acima começou pelo facto de eu ter escrito á minha amiga afirmando que não a revia em Gémeos, e finalmente existem os nativos muito evoluídos, que basicamente são todos os signos e não são nenhum, as características gerais estão diluídas e o nativo já atingiu um grau de evolução espiritual tal, que se assemelha nas suas atitudes a tantos outros. Devo no entanto notar que, em minha opinião, o Sol, a menos que severamente ameaçado ou aspectado, raramente deixa de se fazer notar, e se não o faz, de um modo ou de outro, vai tentar “brilhar”. O Sol (o signo natal) é a grande chave da natureza pessoal e é na sua caracterização que assenta toda a dinâmica astrológica, embora todo o conjunto astrológico se complexifique um pouco mais.

Voltando à astrologia, Gémeos parece caracterizar-se pela função mercuriana, embora Meercúrio tenha a regência do signo e de Virgem, não estou muito crente na regência mercuriana de Virgem. Existe um livro que defende Quiron, como o regente de Virgem e sinto-me inclinado a concordar. Podemos então caracterizar alguém mercuriano, como sendo alguém com Sol, Lua ou Ascendente em Gémeos, em menor grau, com Mercúrio em aspecto estreito com o Sol, ou Sol na casa 3, todavia Mercúrio é uma influência “leve” e mesmo em aspecto estreito com outros planetas, nunca torna o processo muito evidente, tratam-se sobretudo de influências subtis, aliás como a própria natureza da mente. Os próprios nativos evidenciam essa plasticidade, um ascendente mais forte, ou um aspecto mais pesado ao Sol em Gémeos e o nativo ganha “outras” cores em que a característica geminiana perde dominância, todavia é só isso, perde, mas não desaparece e na generalidade, continua a fazer-se sentir necessária pela vida fora, como se o nativo tivesse que “honrar” aquela necessidade. Compreende-se que num adulto por vezes exista a tendência a perder uma certa espontaneidade, ou até “mascarar” as suas tendências mais juvenis, mas ainda assim existem outras formas bem geminianas perfeitamente adequadas à expressão dessas energias: cantar, dançar, jogar ao faz de conta, etc. Não é difícil perceber, tenho uma amiga que faz marionetas e é arteterapeuta e professora, outra que patina (campeã da Europa) e é médica-cirurgiã, um amigo que pertence à Polícia Judiciária e faz teatro à vários anos, esses não deixaram morrer o geminiano que há neles, e trouxeram-no até à idade adulta, de forma sublime, todos eles. Quem disse que a leveza era coisa má?

Entender a mente

O título do artigo de hoje é também o título de um livro escrito por Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche, Lama da Nova Tradição Kadampa. O que vou escrever é apenas um resumo muito breve desse livro, pelo que se tiverem interesse mais aprofundado, podem solicitá-lo para os contactos no final do texto(*). Mesmo para um resumo, considero que seria preferível que fosse feito por alguém que estivesse mais inserido no conhecimento desta linhagem budista, pois corro o risco de deturpar o significado, todavia tal não é possível, pelo que peço que considerem qualquer má interpretação, como erro meu.

É o conhecimento da mente que abre as portas à Iluminação “se realizares a tua própria mente, tornar-te-ás um Buda; não deves procurar a budeidade em nenhum outro lugar”.

Todos os fenómenos são meras aparências, tal como os sonhos. Aquilo que nos desagrada, são estados mentais impuros, que podemos fazer com que cessem, tal como um sonho. A mente tem o poder de criar todos os objectos agradáveis e desagradáveis, não existe outro criador para além da mente. (nota: confiando nas explicações de Buda, os budistas não crêem em Deus).

Todos os fenómenos são objectos, porque são objectos de conhecimento, alguns são também possuidores de objecto, porque expressam ou conhecem um objecto. O principal objectivo da mente é conhecer objectos.

Definição de nome. Um nome é um objecto de audição que expressa a designação de um fenómeno, o nome não é uma característica natural do objecto, se me chamo João, isso é-me meramente imputado de acordo com as convenções específicas da língua portuguesa, mas eu não sou João, eu chamo-me João. Todos os objectos de conhecimento são meramente imputados na dependência de seus nomes. Sempre que vêem o meu corpo, pensam “este é João” porque o meu corpo é uma base legítima para este pensamento.

Definição de pessoa. Pessoa é um eu imputado na dependência de qualquer dos cinco agregados (forma, consciência, sensação, discriminação e factores de composição). Pessoa, ser, self e eu são sinónimos. A função de uma pessoa é executar acções e experienciar seus resultados. O agregado forma é o corpo; o agregado consciência é constituído por suas mentes primárias; e os agregados sensação, discriminação e factores de composição são suas mentes secundárias ou factores mentais. Os cinco agregados estão contidos no corpo e na mente da pessoa, a função de uma pessoa – executar acções e experienciar os resultados – se não tivesse discriminação não poderia executar acções, se não tivesse sensações não poderia experienciar os resultados.

A realização da vacuidade, da inexistência do eu, acontece porque todos os fenómenos, inclusive nosso eu, são meramente imputados pela mente e não existem do seu próprio lado de modo algum. (nota: existem 4 escolas centrais no budismo, nem todas concordam quanto ao “onde está o eu” e “o que é o eu”).


Os budistas assumem que a base para a auto-identificação (auto-imagem, Ego, etc.) é o agregado corpo/mente e a função (o papel social) específica que exercemos, que constitui a base para que nos seja imputada uma identidade. Ao passarmos por incontáveis renascimentos (uma elemento central do budismo), em cada um assumimos uma nova identidade (o conjunto corpo/mente/papeis sociais), contudo se procurarmos por uma pessoa verdadeiramente existente em qualquer um deles, nada encontraremos, porque em cada renascimento cada eu é meramente imputado pelo pensamento, na dependência dos agregados daquela vida.

Definição de mente. Mente é aquilo que é clareza e que conhece, “clareza” refere-se à natureza e “conhece”, à sua função. Ainda que a mente não tenha forma, ela pode estar relacionada com uma forma, pode estar relacionada com nosso corpo e localizada em diferentes lugares dele. Do ponto de vista de como é gerada, há dois tipos de mente: percepção sensorial, os sentidos e percepção mental, dividida em três tipos: densa, subtil e muito subtil. A mente desperta normal, é uma mente densa. As mentes subtis e muito subtis só se manifestam durante o sono, a morte e para alguns praticantes, durante o equilíbrio meditativo (nota: meditação sugere um estado de equilíbrio).

A mente muito subtil, ou mente raiz, ou mente residente continua (ou talvez aquilo a que se chama alma ou espírito), é aquela que sobrevive de uma vida para outra, e vive no chakra do coração. Todas as mentes são clareza e tem a função de conhecer, e embora não tenham forma, estão relacionadas com forma.

Embora a mente não possa ser obstruída fisicamente, ela tem as suas próprias obstruções, as delusões e as suas marcas. Corpo e mente não são uma única entidade, mas são entidades inter-relacionadas. Se fossem um só, tudo o que servisse para destruir um, destruiria outro. Comer demais, aumenta o volume do corpo, mas não o da mente, doenças físicas prejudicam o corpo, mas não necessariamente a mente, mas é claro que existe uma relação entre estado mental e condição física, mas isso só indica que existe uma relação, não quer dizer que seja ambos a mesmo entidade.

A prática budista leva anos de avanço sobre a ciência no que diz respeito à descoberta sobre as faces ocultas da ou das mentes. O profundo conhecimento empírico, aliado aos princípios cultivados pelos grandes mestres, levam a crer que o conhecimento de que dispõem é uma valiosa fonte de informação para a compreensão do fenómeno mental. A partir deste ponto o livro entra em descrição detalhada de todos os factores mentais e tipos de mentes. O artigo visa apenas lançar algumas questões acerca da natureza da mente, das coisas, dou eu, na continuidade de outros mencionados no psicótico. Mentalizem e contribuam, fazendo o vosso comentário.

(*)Centro Budista Deuachen - www.cbd.pt
Rua do Crucifixo, 86, 2º Dto.
1100-184 Lisboa
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Deepak Chopra em Portugal – Parte III

#8 Não verei o mal (evil) como meu inimigo, ao compreender as minhas próprias sombras, ultrapassarei o mal e transformá-lo-ei.
Carl Jung afirma que temos um Self Sombra (shadow self) e as tradições antigas também nos dizem que a Alma é feita de ambiguidade, Freud afirmou que “as neuroses proviriam da incapacidade em tolerar a ambiguidade, em tolerar a sombra”, em pensar que tudo seria a preto e branco, mas a alma humana não é assim, tem muitas nuances, divinas e diabólicas, sagradas e profanas, porque todas as experiências que atravessamos vem da criação de energias opostas. Há uma expressão que diz que “o santo e o pecador estão meramente a trocar notas, o santo tem um passado e o pecador tem um futuro :-)”, “aquele que não tem pecado em si, que atire a primeira pedra”, portanto todos temos uma sombra, que tentamos esconder, que se manifesta através da repressão, da falta de responsabilidade pelos próprios actos, pela pobre auto e hetero-liderança. O mal (evil) é uma projecção manifestada da sombra colectiva, da repressão colectiva, ao trazer luz às nossas próprias sombras, trazemos luz ao mundo. Dalai Lama afirma que não há mal per si, existem apenas maus comportamentos que aparecem perante determinadas situações.

Comentários: Este compromisso contém indicações preciosas acerca da natureza humana. A tentativa de sermos seres humanos bons está intimamente ancorada na capacidade para reconhecermos que não somos perfeitos. Toda a medalha tem um reverso, e o desespero provém muitas vezes da incapacidade em o aceitar.

#9 Eu explorarei a minha natureza multidimensional, as manifestações subtis e causais do meu ser
De acordo com a sabedoria védica, cada estado de consciência cria a sua própria realidade, há vários tipos de consciência, a) a consciência acordada, reagimos ao que acontece, ouvimos um ruído e viramo-nos para ver o que é b) depois há a consciência de sonho, neste estado, temos uma determinada experiência, tudo o que aconteceu no sonho, foram projecções da nossa consciência, somos o observador e tudo aquilo que observamos, fui eu que criei tudo aquilo, ambos o cenário e aquele que o observa, são projecções da minha consciência. Ao compreender isso, posso ter a habilidade de criar a minha própria versão c) consciência para além do tempo, espaço e causalidade, aquela que nos ancora à sabedoria da alma d) consciência cósmica, tu como espírito observas o teu corpo a dormir, é a tua consciência sempre presente (ever present witnessing awareness), é perceber que eu sou mais que os papéis que represento e) consciência divina, que é ter a experiência da sempre presente consciência observadora nos objectos de percepção. Se eu olhar para esta planta, eu verei que ela também é água, vento, terra e espaço vazio, se for para além disso, sinto a presença do espírito e comungo com isso, em cada objecto vejo a verdade que é a verdadeira natureza das coisas. Nesta consciência, Deus não só não é difícil de encontrar, Deus é impossível de evitar, pois não há sitio onde se vá, onde não se encontre a sua manifestação. Num último tipo de consciência, a sempre presente consciência observadora, é simultaneamente sujeito e objecto da experiência, ambas se fundem e tornam-se unas, todo o universo se transforma numa única consciência e essa consciência única está disponível a cada um de nós, nas profundezas do nosso próprio ser, através da transformação do Self Pessoal em Self Colectivo, e do Colectivo em Universal. Desse modo podemos ver como o Universo nos contém e é ao mesmo tempo, uma projecção do nosso próprio self. Explorar estas dimensões, é ultrapassar o medo da morte, porque existem mundos infinitos dentro da nossa consciência.

Comentário: Neste como noutros pontos, Deepak apela à meditação em níveis cada vez mais profundos.

#10 Vou explorar cada morte, como um salto quântico criativo (creativ quantum leap) na evolução
No início desta conversa mencionei o termo Descontinuidade, como tudo sendo uma sucessão extremamente rápida de ON/OFF, todo o Universo está em ON/OFF, fotões, átomos, moléculas, células, etc., o Universo está-se a recriar através desse movimento ON/OFF, o ON é o mundo, o OFF é a morte, sem um não há o outro, o que torna este movimento no princípio fundamental do Universo, a morte torna a vida possível e vice-versa. As células do estômago morrem a cada 5 dias, permanecemos saudáveis porque há morte dentro de nós. A criança tem que morrer para que o adolescente emerja, o adolescente tem que morrer para que o adulto emerja, o adulto tem que morrer para que o idoso emerja, o idoso tem que morrer, para que nós possamos de novo rever o Universo com um olhar fresco e rejuvenescido. O Universo recria-se a si próprio através deste processo de morte, e nós somos apenas cópias do Universo. Ao nível prático, passa por deixar ir o conhecido e saltar para o desconhecido, aceitemos a morte do passado, nem o passado nem o futuro são a realidade, estão ambos na imaginação, e portanto se conseguirmos manter a nossa atenção no momento presente, então seremos capazes de perceber a presença de Deus.

Comentário: Este é outro dos compromisso “difíceis”, a nossa mente está agarrada ao que vê, é quase impossível não pensar na morte sem temor e não exclusivamente ao nível físico, a morte das relações que pode representar um novo momento de criatividade, de livre auto e hetero descoberta, representa na mais das vezes apenas sofrimento e prisão. Compreender a morte como um processo fundamental é estar permanentemente aberto à vida, cada momento presente é a morte e a abertura à vida em simultâneo.

#11 Eu compreenderei que o Universo pensa através de mim.
Quando eu olho, o Universo está a olhar para si próprio através destes olhos. Aquele que olha através dos meus olhos, é também aquele que olha através dos teus olhos.

#12 Eu cuidarei de estar centrado e atento no momento presente.
A minha atenção estará naquilo que é o momento e verei toda a sua imensidão a todo o momento. Nessa atenção, sentirei a presença de Deus e abraçá-lo-ei.

#13 Serei livre quando compreender que não sou uma pessoa
Teilhard de Chardin
afirmou que “nós não somos seres físicos que temos uma experiência espiritual ocasional, nós somos seres espirituais que temos uma experiência física ocasional”. Alterar e mudar a nossa atenção de sermos um corpo físico para um espírito que habita um corpo, é ser livre e tentar compreender todo o significado oculto por detrás os eventos significativos que nos aparecem sincronizadamente, como coincidências. Desse modo, penetramos na simultaneidade e na mente não local, na mente sincronistica, onde tudo é orquestrado ao mesmo tempo.

Comentário: Na prática budista, só atinge a Iluminação aquele que realiza a sabedoria da vacuidade, uma das mentes virtuosas do Bodhisatva. O eu não tem existência inerente, é apenas um conjunto de agregados. È algo difícil de entender, até intelectualmente, mas vale a pena tentar…

#14 Eu verei o significado oculto de todos os eventos significativos na minha vida.

Nunca ignorem uma coincidência, sempre que acontece, questionem-se sobre o que quer dizer. Sempre que se questionarem sobre o significado disso, aparecerão eventos, situações, pessoas que vos darão a oportunidade de participarem na evolução criativa do Universo.

#15 Descobrirei quem sou, donde vim e qual é o meu propósito
Um poeta indiano disse “cada criança que nasce, é um sinal de que Deus ainda não desistiu de nós”. Continuem a fazer perguntas como uma criança…

Gostaria de terminar com um assunto que me parece importante. Apesar de todas as descobertas, de todo o conhecimento, continuamos a olhar á nossa volta e a ver um mundo caótico em que os 4 grandes assuntos do nosso tempo são 1) resolução de conflitos através da violência, guerra, terrorismo 2) extrema tirania e injustiça social 3) extrema disparidade económica, 50% do mundo vive com menos de 2 dólares por dia e desses, 20% com menos de um dólar, 4) devastação ecológica e do ecossistema. Os cientistas sociais afirmam que todos estes eventos estão inextrincavelmente ligados. Não haverá paz enquanto houver desigualdade económica, não haverá saúde enquanto houver desastre ecológico, somos violentos porque não somos saudáveis. Se tudo está ligado com tudo, a única solução para o problema global é uma mudança na consciência colectiva. E quando olhamos para os enormes saltos criativos do Universo, há sempre caos, a biologia evolucionária reconheceu que ocorreram alguns saltos evolucionários, que são realmente saltos quânticos na criatividade de o Universo. Não existiu uma transição entre os anfíbios e os voadores, houve um salto, não há uma transição directa entre os primatas e os humanos, há um salto quântico criativo ao nível da consciência do Universo. Muitos cientistas evolucionários acreditam, que a humanidade tem neste momento massa crítica para um novo salto evolucionário.

Na biologia há um processo conhecido como metamorfose, a lagarta que se transforma em borboleta. Eis o que se segue de uma perspectiva biológica: a um certo nível do seu desenvolvimento, a lagarta que tem um metabolismo muito lento, começa a consumir tudo aquilo que o seu metabolismo necessita, quando o consumo excede as necessidades metabólicas, o corpo da lagarta começa a morrer, a liquefazer-se. Nesse corpo existem algumas células (imaginal cells) que tem imaginação, que sonham, e quando as células imunitárias olham para estas células dizem “estas não pertencem aqui, vamos atacá-las”, mas como as imaginal cells vibram numa frequência diferente, as outras não as conseguem combater, e estas ficam imunes começando a juntar-se em pequenos clusters, e a fazerem conexões umas com as outras. Começam então a utilizar o corpo decadente da lagarta como uma sopa nutriente, e um dia, a conectividade dos clusters das imaginal cells chega a um limiar criativo, e então, um código genético que até ai estava adormecido, acorda, e nesse gene está a informação para uma nova criatura, totalmente nova, com um metabolismo totalmente diferente. Num dia, todo o código genético explode e a borboleta nasce. Estou-vos a dizer isto porque acredito que nesta sala, somos um cluster de células imaginárias, não estamos cá acidentalmente, porque sonhamos com um novo salto na nossa existência, e cita Raul Seixas, poeta brasileiro “o sonho que sonhei sozinho, é só um sonho, mas o sonho que sonhamos juntos, tornar-se-á realidade”. Por favor continuem a sonhar…

E poderia ter citado António Gedeão e a Pedra Filosofal… O sonho comanda a vida… Obrigado Deepak.

maio 23, 2005

Gémeos Parte I

“Mas estou curiosa...dizem que este ano é bastante favorável aos Gémeos... (não sei porquê) mas eu não vejo nada...... Nada, não sei... se este presente desencontro comigo mesma tiver alguns frutos positivos...
...mas, sabes... tenho andado mais calma, tenho dormido e levado uma vida mais ou menos normal. Isto parecendo que não, é facto para celebrar...… tentar acreditar em algo infinitamente maior que eu, têm-me ajudado a lidar com a minha ansiedade e insegurança......mas ás vezes penso: será que o eu acreditar presentemente em algo (mesmo não sabendo no quê) não será simplesmente uma forma mais fácil de viver a vida!?
... E não necessariamente a verdadeira...Ou melhor... Pergunto-me se estou agora nesta fase de pesquisa espiritual, de busca de respostas... simplesmente por não estar a aguentar a forma 100% racional como levava a vida. Isto pode crer dizer que estou a tentar encontrar um caminho mais fácil simplesmente por não estar a conseguir percorrer o primeiro......sendo o que me leva para este caminho, angústias e frustrações pessoais...e a incapacidade de encontrar satisfação no mundo que me rodeia...... Só quero ter a certeza que estou a ser honesta comigo e com o que eu realmente sou...mas neste momento há uma grande confusão na minha cabeça... pois já não sei bem se sou o que sempre pensei ser...e também já não acredito no que sempre acreditei....mas também ainda não sei muito bem quem sou no presente momento e em que é que acredito....Sendo este facto relativamente desconfortável para mim...”


Cá estamos em Gémeos… acreditam nisto? :-) Roubei uma carta-mail de uma querida amiga e da sua presente situação existencial, que me permitirá ilustrar algumas teias deste signo.

Pois bem, saímos de Touro, de um momento evolucionário de contracção após a expansão de Carneiro, o Universo parece funcionar num mecanismo de contracção/expansão, pelo que voltamos novamente a um tempo de viragem “para fora”. No nosso corpo temos vários exemplos desse mecanismo (coração, pulmões, etc.), nós próprios engordamos e emagrecemos. Gémeos exemplifica bem esta dinâmica dual, sendo um signo de absorção de conhecimento, de exposição ao conhecimento, deve em determinados momentos retrair-se, de modo a poder digerir e absorver esse conhecimento. Sendo um signo mutável, a sua palavra chave é a APRENDIZAGEM, pertencendo ao elemento Ar, que significa MENTAL ou RELACIONAL, vemos como a regência de Mercúrio é quase totalmente virada para a mente, o conhecimento, a razão, o intelectual, a palavra, a comunicação, o pensamento, o estabelecimento de relações entre isto e aquilo. O nativo de Gémeos é quase sempre um mestre nestas artes, afinal de contas é uma das áreas em que desde cedo, mais informação existe disponível, e dada a sua propensão para estes temas, torna-se exímio, é o que melhor fala e durante mais tempo, sobre todos os assuntos, pensando em muitas coisas, perdendo-se nos pensamentos e… não fazendo nada… este é por vezes um dos perigos, pensar mas não agir.

Mas bem, voltemos à criança que tem vindo a ser caracterizada no início dos temas, que desatou a fazer perguntas, porquê isto, porquê aquilo, a brincar com a linguagem, a inventar personagens (o Hobbes do Calvin), e a brincar às personagens (o próprio Calvin que se transfigura no intrépido Spiff e noutros seres…). O Universo de Gémeos é de brincar, representar, inventar, nada de muito sério ou de muito pesado. Embora isto possa ter uma conotação negativa, nada existe na Natureza que seja deixado ao acaso, todos nos devemos tornar em adultos responsáveis por nós e pelas nossas acções, e os Gémeos não são excepção, contudo a aprendizagem, a trama evolucionária e o “equipamento” natal dos nascidos neste signo tem um tom muito próprio, quiçá avaliado de forma ligeira as mais das vezes, no entanto tão complexo como o de qualquer outro signo.

A aprendizagem do signo tem sobretudo que ver com a descoberta da natureza relativa da verdade, “com o saber cresce a dúvida”, afirma Goethe, e uma das armadilhas vem justamente do signo oposto – Sagitário – que quando descobre algo que lhe parece verdade, o transforma em verdade universal. Por outro lado aquilo em que acreditamos, é aquilo que somos? Numa das citações iniciais “mas também ainda não sei muito bem quem sou no presente momento e em que é que acredito....Sendo este facto relativamente desconfortável para mim...”, verificamos uma das questões que pertencendo a todos os signos, é de facto muito premente em Gémeos “quem sou eu, em que é que acredito”. O nativo vai procurar através de vários meios aprender quem é, a aprendizagem faz-se modo relativo, a uma relação por exemplo, os Gémeos, como as crianças vão aprendendo a representar um papel, ou melhor, vários papéis, através da imitação, as crianças gostam de brincar aos papéis, de representar, uma terapia com crianças faz-se através de brincar, ou representando papéis, se observarmos como essas crianças, brincam ou representam, podemos ter algum acesso á sua dinâmica interior.

Cada nova pessoa lhes serve para essa dinâmica de auto-conhecimento, diz-se que utilizam uma máscara, mas não é a verdade total, são simultaneamente a máscara e eles próprios, e jogam muito bem esse jogo ambíguo, o que se vê é a verdade, ou não? Estou a representar ou é esta a realidade? Evidentemente isto pode originar formas mais ou menos veladas de impedir o acesso ao seu interior, mas é para isso que servem as máscaras, ou não? “Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação.” Fernando Pessoa (Sol e Lua em Gémeos)

Para estes nativos, o relacionamento interpessoal é uma forma de autoconhecimento, é um campo de experimentação, cada nova pessoa lhes permite um campo de experiências totalmente novo, através do qual vão dando um pouco mais de forma à sua personagem, imitam o outro nos gestos, na pose na voz, quiçá no pensamento, porque querem perceber se isso lhes serve ou não, com facilidade passam no entanto de uma pessoa a outra, entre os grandes actores, contam-se inúmeras influências do signo, Sol ou Lua ou o Ascendente em Gémeos. Em ambiente social o Gémeos é sempre o mais saltitante, fala com todos e quem espera alguma fidelização relacional (não falo em fidelidade conjugal, são tão fiéis/infiéis como qualquer outro signo) desengane-se, o Gémeos precisa de liberdade para se relacionar, faz parte do seu processo de auto-conhecimento.

Algumas dificuldades podem ser encontradas pelos aspectos difíceis que fazem com os outros signos mutáveis: a Oposição com Sagitário podendo indiciar alguma falta de fé, uma tentativa desesperada de se agarrar a algo tangível, como modo de combater o desconhecido; a Quadratura com Peixes, que pode apontar para uma natureza que suspeita do espiritual, dada a sua propensão quase exclusivamente intelectual ou racional; a Quadratura com Virgem, que aponta para uma falha na discriminação experiencial e na capacidade para se concentrar em escolhas e acções que conduzam a algum lado, apontando para uma incapacidade para retirar conclusões, derivada da sensibilidade extrema à necessidade de experimentar e absorver. Parece existir um falha no mecanismo de contracção, o Gémeos sabe expandir-se, adquirir novos conhecimentos, mas não sabe quando parar ou mesmo como parar, a retracção, a reflexão e a digestão e aplicação parece falhar, como alguém que se perde em fórmulas mas que não chega nunca ao fim, porque vai derivando mais um pouco aqui e um pouco ali e agora vai por acolá, porque se deslumbra com cada nova vereda que encontra.

Numa outra vertente, a dúvida constante, que impede o progresso, ...mas ás vezes penso: será que o eu acreditar presentemente em algo (mesmo não sabendo no quê) não será simplesmente uma forma mais fácil de viver a vida!?... E não necessariamente a verdadeira..., a bagagem geminiana é de dúvida, apreender a natureza relativa da verdade leva ao questionamento, esse leva à dúvida e assim sucessivamente num ciclo que rapidamente se torna vicioso, mas todos temos mais planetas no horóscopo que exibem outras necessidades, não somos apenas Gémeos, porque não descobrir outras dimensões ocultas da nossa existência?

Deepak Chopra em Portugal – Parte II

A 2ª parte (parte I aqui)da conferência de Deepak Chopra, foi totalmente preenchida pela apresentação do seu novo livro, o quadragésimo primeiro em 25 anos, “The Book of Secrets”. Nele são mencionados 15 compromissos que cada pessoa deverá honrar, e é sobre isso que versa esta artigo de hoje.

#1 Comprometo-me a explorar as dimensões ocultas da minha existência
Como foi analisado na 1ª parte, aquilo a que chamamos realidade física é uma projecção de uma realidade escondida, a qual é composta de 3 níveis segundo a ciência: o 1º nível é material, o mundo dos objectos, que é um mundo vibratório, de informação e energia, o nível mecânico quântico, aquilo a que chamamos matéria é essa energia e vibração a vibrar em diferentes frequências. Se avançarmos um pouco, entramos no domínio da não causalidade ou descontinuidade (nota: sendo um acto descontinuo, não existe uma causa directa que lhe tenha dado efeito, pois isso seria uma característica de continuidade), que é essa dimensão ou realidade escondida, e cita o poeta indiano Rumi: “aquilo que experienciamos através dos sentidos, não é a realidade principal, a verdadeira realidade está por detrás da pessoa, em verdade não estamos aqui, somos a nossa sombra” e cita também Platão “somos como sombras numa caverna, das luzes lá fora”, portanto não confundamos as “sombras” com a verdadeira realidade.

Se eu tiver a noção de que existem outras dimensões e de que essas são as minhas origens, então eu comprometo-me a explorá-las. Existem 3 níveis nessa dimensão escondida: o pessoal, o colectivo e o universal. O domínio pessoal é a nossa própria Alma, que se lembra, que usa essa experiência passada para criar memórias, que usa essas memórias para criar desejos, que usa esses desejos para criar experiência novamente e cita uma expressão indiana “tu és, o teu mais profundo desejo”. O teu desejo, determina a tua vontade e a tua intenção, a tua intenção orienta a tua acção e a tua acção o teu destino, e conta uma história de Buda: Um dia um discípulo de Buda perguntou ao mestre o que era a vida, Buda apontou para a roda de uma carroça e disse “a vida é como uma roda (samsara)”, é uma roda de carma, memórias e desejos; o carma é experiência, são as escolhas que fizemos no passado que determinam as circunstâncias do presente, que criam as memórias que se transforma nas sementes da imaginação e do desejo, que por sua vez se transforma nas sementes do carma de novo. Carma, memória e desejo, são o software da alma, este é o nível pessoal. Depois há o nível colectivo, aquilo a que Jung chamou o Inconsciente Colectivo, um conjunto de mitos, histórias que os nossos ancestrais contaram uns aos outros, é o nível mítico, a história da nossa cultura, geografia. Depois há o domínio universal, do que foi, do que é e do que será. Baseado neste 1º compromisso, tentaremos responder a duas questões essenciais: Quem sou Eu? O que é que eu quero? E depois deixar ir essas questões, esse simples processo de auto-questionamento e reflexão iniciará a transformação, e porque a alma existe no nível da sincronicidade e coincidência, aparecerão situações, circunstâncias, relações, eventos, que darão origem a uma genuína transformação, somente por fazer aquelas perguntas do fundo do coração. A ciência diz-nos que o nível mais fundamental da natureza são campos de possibilidades, que esses campos “aguardam” que lhes sejam colocadas questões, sendo dessa forma compelidos a dar-nos respostas, e cita o Novo testamento “pede, e receberás”, portanto continuem a colocar questões.

Comentário: Deepak deixa entrever que existem dimensões ocultas da existência, às quais se pode aceder em busca de respostas, bastando para isso uma intenção profunda e amorosa, e talvez algum trabalho também…

#2 Eu verei o mundo em mim, em vez de me ver a mim no mundo (I shall see the world in me, instead of me in the world”
Se existe uma crise no mundo neste momento, é uma crise de percepção, o paradigma materialista tem-nos levado a acreditar que vivemos num mundo físico, que contém objectos no espaço e no tempo. A realidade é que o mundo é concebido na consciência, é essa que concebe e constrói, que de facto se torna no universo físico, e cita um texto indiano “eu não estou no mundo, o mundo está em mim, eu não estou no corpo, o corpo está em mim, eu não estou na mente, a mente está em mim”, tudo o que é físico é uma projecção da consciência. É uma mudança de percepção difícil, mas se eu começar a olhar para uma árvore como sendo os meus pulmões, a terra como se fosse o meu corpo, um rio como a minha circulação, começo a encarar o facto de ter um corpo pessoal e um corpo universal, um não sobrevive sem o outro, se machucar um, estou a machucar o outro, ao atentar contra a Natureza, estamos a atentar contra o nosso corpo, é necessária esta consciência, a ecologia, sou eu. Eu existo na vossa consciência e vocês na minha, o local onde todas as consciências se encontram, é a consciência colectiva, a qual existe dentro da consciência universal. Existimos todos na mesmo consciência, perceber isso é começar a ver o mundo em mim, é também experienciar o Amor e compaixão, compaixão essa que é partilha das nossas experiências e dos nossos sofrimentos e o que é o amor senão aquilo que nasce da compaixão. O Amor não é um mero sentimento, é a verdade última do acto da criação, que é o facto de existir apenas uma consciência, na qual todos somos concebidos.

Comentário: O fundamento deste compromisso baseia-se na auto-responsabilização, aquilo que vemos, é sempre a nossa verdade, aquilo que o Outro vê, já é a sua verdade e não a nossa, evidentemente coincidimos nalguns pontos, mas são sempre muito menos do que imaginamos. A História é uma verdade colectiva, a identificação com o colectivo, não pode vir antes da individuação, a entrega ao colectivo sem auto afirmação individual, é ilusão de pertença. Perante acontecimentos estranhos, sórdidos ou fatais sempre consideramos que nos são impostos de “fora”, mas é a nossa reacção perante o acontecimento que determina o valor desse acontecimento. Se é a morte, é a nossa reacção a ela que determina o valor do acontecimento, podemos sofrer, ou deixar ir, e assim sucessivamente para cada acontecimento significativo.

3# Começarei a praticar o caminho do Yoga (União)
Yoga significa união, começarei no caminho da união com o Universo, com a fonte da Criação. Existem 4 tipos de yoga, o primeiro é a da meditação, da reflexão, da análise, é o Raja Yoga; depois há o Yoga da relação, do amor, todas as escolhas que são feitas com base no amor são evolucionárias, porque nos levam da separação para a União. Há um princípio que guia o yoga da relação “todos aqueles que amamos ou odiamos, são apenas um espelho de nós próprios”, os outros são espelhos para nós, e através desses espelhos descobrimo-nos. O que é que me atrai naquela pessoa? Qual é o defeito naquela pessoa que tento repelir em mim? O terceiro tipo de yoga é o yoga da acção ou yoga do carma, porque carma é a palavra em sânscrito para acção, e que diz “faz o que tens que fazer no momento, impecavelmente, e deixa os resultados para outro, confia em que tudo o que fazes vem do sonho infinito, vem do universo e ao universo retorna.” Portanto eu quando me sento para me sento para escrever um livro digo “Deus, escreve este livro, que eu recolho os royalties, e funciona sempre J”. Se agirmos dessa maneira, se nos conseguirmos isolar da ansiedade e fizermos o impecável, estamos a tecer o Infinito, estamos a orientar-nos no sentido desse processo e quando o fazemos, os resultados são garantidos. O quarto tipo de yoga, é o yoga do conhecimento, da ciência, que é o conhecimento de como a Natureza funciona, e ela funciona através da consciência, através desse processo conhecemos os meandros da nossa existência. Mas isso não nos deve conduzir ao juízo moral, do que está certo ou errado, o conhecimento está para além da moral.

Comentário: Creio que a intenção de Deepak é alertar para a necessidade de reflectir, conhecer, amar e agir, os primeiros sendo processos de “entrada” e os segundos de “saída”. Através da reflexão e do conhecimento, podemos agir e amar mais livremente.


4# Vou deixar de procurar fora de mim, por qualquer tipo de realização ou preenchimento (fullfillment)
Através do hipnótico condicionamento social, andamos todos meio enganados quanto às fontes da realização, que nos parecem vir de ter coisas, de comprar, de parecer. Achamos que a tecnologia nos faz mais saudáveis, que as armas nos fazem mais seguros, mas nada disto até agora provou ser assim. A tecnologia que é uma coisa neutra, está a ser usada para fins diabólicos e quanto maior é o poder das armas, mais inseguros vivemos. A felicidade e a realização vem da criatividade, que é uma expressão da nossa alma, porque a nossa alma, que faz parte do universo, está constantemente a recriar-se a si própria, ao nos conectarmos com a fonte, conectamo-nos com a fonte de toda a criatividade e somos infinitamente criativos.

Comentário: Este ponto é a sequência do ponto nº2, o mundo está em mim, portanto é a minha visão que determina o que vejo no exterior. A realização pessoal depende dessa visão.

5# Eu compreenderei o sofrimento, ultrapassá-lo-ei, e ajudarei outros a fazer o mesmo
Na tradição védica, é-nos dito que existem 5 causas para o sofrimento, 1) desconhecer a verdadeira natureza da realidade 2) agarrarmo-nos ao que pensamos ser permanente, mas que é impermanente 3) ter medo daquilo que é impermanente (da mudança) 4) identificarmo-nos com o nosso ego, o nosso falso self, a nossa auto-imagem 5) medo da morte, do desconhecido, de largar o conhecido, podemos morrer permanecendo vivos, se ficarmos agarrados ao que conhecemos. Existe sofrimento, existem causas para esse sofrimento, há uma saída, a saída é aumentar a nossa auto consciência.

Comentário: Apesar deste ponto ter sido muito pouco desenvolvido, creio ser um dos que maior reflexão deverá suscitar. A ignorância e o medo são factores de grande perturbação no desenvolvimento pessoal.

#6 Explorarei a minha liberdade nas escolhas conscientes que fizer sobre mim.
É das escolhas conscientes que surgem as possibilidades infinitas e a liberdade, a maior parte das escolhas são feitas pelo ego, pelo que estão erradas, há que mudar para uma consciência mais interna, mais profunda, mais livre.

Comentário: As escolhas conscientes implicam muitas vezes com partes de nós que desconhecemos. Como é que posso escolher deixar de fumar se para além do vício (dependência física) que já possuo, o tabaco ainda me proporciona uma muleta social, uma auto-imagem, uma distracção, ou um alívio para o stress. A questão é que se estou consciente da questão da dependência, muitas vezes não estou das questões que estão associadas, e é isso que significa efectuar escolhas conscientes, saber o que está por detrás, auto-conhecimento.

#7 Todos somos seres espirituais e que cada um está a fazer o melhor que pode face ao seu nível de consciência (awareness)

Quando passarmos a estar ancorados no espírito e não no ego, passamos a ver o mundo como um espelho, porque a partir desse momento o ambiente reflecte-nos. Podemos monitorizar o nosso progresso através dos insights seguintes a) qualquer situação no ambiente é um espelho, pelo que ao invés de afirmar “eu não gosto daquilo” podemos perguntar “o que é que estou a fazer com este estado de consciência que está a criar aquilo”, b) de modo semelhante, qualquer relação é um espelho, em vez de dizer “esta pessoa tem significado para mim” devemo-nos perguntar “qual é o meu estado de consciência neste momento que obtém esta resposta desta pessoa” c) começamos a perceber que a nossa atenção e intenção transformam-se em gatilhos para a transformação, que tudo aquilo para onde dirijo a minha atenção, se torna mais forte, que a intenção despoleta a transformação d) Quando nos dirigimos para esse nível de consciência, há uma espontaneidade sem esforço que se expressa sincronizadamente, as “coincidências significativas”, e) dá-se um salto evolucionário da consciência, dá-se o entendimento de que tudo que existe nos espaços (realms) imaginados torna-se real nos espaços físicos, não há nada que não exista na imaginação, que não tenha o potencial de se tornar realidade no nível material. Dessa forma monitorizamos o nosso nível de evolução, fora dos trâmites da moralidade, deixamos isso para a hipocrisia.

Comentário: A questão da atenção é um indicador muito importante daquilo que nos move, só prestamos atenção ao que realmente nos interessa, pelo que se soubermos ao que é que prestamos atenção, estamos num caminho muito rápido para o auto conhecimento, não é tão simples como parece, mas também não é difícil.

Não me foi ainda possível acabar a tradução, pelo que terei que publicar uma terceira parte, conto fazê-lo na próxima semana.

Problemas da astrologia: O conhecimento astrológico

“Existe uma diferença entre informação, conhecimento e sabedoria. A informação é um conjunto de dados que quando utilizados para um determinado fim, se tornam conhecimento, mas é o tipo de uso que se faz do conhecimento, que o torna em sabedoria.” Deepak Chopra

Este artigo pertence a uma série que visa abordar alguns “becos” que por vezes parecem surgir na abordagem á astrologia, como consequência do desconhecimento, da credulidade ou até do medo e da insegurança. O nosso conhecimento das influências planetárias pode-nos fornecer uma pseudo-segurança, um falso sentido de poder, uma almofada contra o caos interior e o desconhecido lá fora, os quais temos receio de enfrentar directamente. Aquilo que nos serve de escudo de protecção, é também aquilo que nos pode enfraquecer. A nossa cultura actual é fundada na racionalidade, todavia esse atributo não é perfeito, a razão é uma arma desigual porque individual, e é as mais das vezes esmagada sob o peso da razão colectiva, a qual por vezes fornece também um falso sentido de poder e nos protege de nós próprios. É tão perigoso escudar-mo-nos numa como noutra, no entanto necessitamos sempre de algo a que nos agarrar, ou não? Somos aquilo que lemos sobre nós? Temos a capacidade de nos distanciar, mas de simultaneamente digerir a informação em nosso proveito, de modo que se torne sabedoria?

O alerta vai no sentido da necessidade de experienciar, perceber a um nível diferente do nível puramente intelectual. Só experienciando (e percebendo) o medo, a incerteza, a nossa falta de poder, podemos desenvolver confiança, auto-segurança e poder interior. Somente deixando de controlar, podemos verdadeiramente ganhar controle; somente experienciando o desconhecido, podemos transcender os limites do conhecido e alinharmo-nos com as mais profundas forças que nos podem guiar. Esse é o segredo da leitura astrológica, conhecer, mas não se deixar dominar pelo conhecimento, não se deixar guiar pelo que vem nos livros, mas aprendermos a guiar-nos com a ajuda deles. E depois, deitá-los fora…

Por outro lado, a necessidade de harmonizar e ampliar vários tipos de saber, estamos confinados aos sentidos e ao mental, mas cada vez existem mais dados que nos levam a desconfiar da natureza dessas percepções, sobretudo se necessitamos de ampliar o nosso conhecimento. O nosso campo perceptual parece definir tudo aquilo que conhecemos, mas isso não é uma certeza, são muitas as vezes em que dominam as crenças, ao invés do conhecimento. Em que é que acredito? Porque é que acredito nisso? A astrologia não é uma crença, é uma tentativa filosófica de explicação dos fenómenos, é o modo como a usamos em benefício próprio, que determina o seu valor para nós, ou seja, não tem qualquer valor per si, apenas o tem na medida em que nos servimos dele para o auto conhecimento, para o desenvolvimento pessoal.

maio 16, 2005

Declaração dos direitos ao amor

Encontrar-te sem te seduzir
Desejar-te sem te possuir
Amar-te sem te invadir
Falar-te sem te trair
Olhar-te sem te devorar
Engrandecer-te sem te perder
Acompanhar-te sem te guiar
e, assim, ser eu mesmo
no mais fundo de ti.

Jacques Salomé

maio 15, 2005

Como dar com os pés em alguém em 30 dias ou o programa dos 9 passos

1) Aumente gradualmente as distâncias, responda a mensagens 10 horas mais tarde, em vez dos tradicionais 2 minutos; apresente um ar alienado e ligeiramente macambúzio (ele) ou de evidente má disposição (ela)

2) Mantenha o controle da situação, quando o(a) parceiro(a) lhe afirmar que pretende falar consigo, responder seca e redondamente que agora não tem tempo nem está com pachorra para conversas sérias, acima de tudo há que mostrar quem é que manda, já agora ganhando um tempinho para preparar o contra-ataque, e ignorando totalmente os sentimentos e necessidades do Outro

3) Nunca falar sobre os verdadeiros motivos da separação, isso só irá trazer azo a mais conversa e explicações, que muitas vezes você nem consegue dar, além disso você quer é ver-se livre do problema, portanto quanto menos falatório melhor

4)Afirmar sempre que o problema não é dele(a), que é seu, mas não diz qual é, até porque você não tem qualquer problema, o outro é que tem, mas é um pouquinho chato dizer; é uma maneira interessante do Outro ficar a pensar que afinal o problema é dele, durante os próximos 3 anos, e também de o fazer perder tempo a tentar compreender porque é que as coisas tiveram que acabar…

5)Mantenha as opções em aberto, afirme que apesar de você neste momento não se sentir capaz, quem sabe no futuro… sempre é uma maneira simpática de garantir a aproximação, não vá o(a) ex ganhar o euromilhões ou algo assim, sendo também uma maneira de manter o outro humilhantemente preso a uma promessa que acredita se irá realizar, só não se sabe quando

6)Não deixe a cama arrefecer, comece um namorico com algum amigo(a) próximo no prazo máximo de 15 dias, sobretudo aquele(a) em quem ele(a) tanto confiava; dá sempre um resultadão

7)Se vir que o outro apesar de ter levado com os pés, está a tentar refazer a sua vida com alguém, envie umas mensagens de parabéns e em simultâneo duvidando dos seus motivos que o levaram à separação, se seria possível conversarem sobre isso, etc

8)Após algum tempo de separação, vá ter de novo com o(a) ex a quem deu com os pés, diga-lhe que afinal é a pessoa da sua vida e que quer acabar os seus dias com ela, e ao fim de 1 mês, diga-lhe que afinal não era nada disso, que estava enganado(a) e eu o deixou porque acha que ele(a) a amava demais e não estava preparado(a) para tanto amor…

9)Apesar de tudo isso, se ainda der para ir dando umas voltinhas de vez em quando, aproveite! Dá sempre jeito ter alguém com quem já se está “rodado”, não importando se isso faz sofrer ou alimentar expectativas. Sobretudo convém nem esclarecer que de facto só tem interesse pela “horizontal”, até porque dá uma péssima imagem, de quem apenas se quer aproveitar das circunstâncias…

Era para ser o programa dos 12 passos, tipo LevouComOsPés Anónimos, mas 12 passos era muito passo e decidiu-se a bem da saúde física e psicológica encurtar o caminho. Se nada disto der resultado, desengane-se, a pessoa está mesmo estupidamente perdida por si, portanto arranje maneira de sair do país, mudar de identidade, de sexo ou qualquer outra medida sem nexo. Participe na melhoria do programa, propondo substituições, alterações ou adições. Após consulta ao conselho consultivo, veremos se é exequível, até porque o método ainda está em fase experimental e convém sempre arranjar novas e criativas maneiras de terminar com uma relação de maneira rápida e indolor…

Touro e relacionamentos

Segundo a abordagem jungiana, Sol e Marte corresponderão à imagem que os homens têm de si, sendo Vénus e Lua a imagem procurada nas mulheres, passando-se com estas o inverso. Definir alguém como Touro enquanto pessoa que se relaciona amorosamente é sempre tarefa algo ingrata, sobretudo porque os aspectos que Vénus (planeta regente do signo) recebe não podem ser caracterizados exclusivamente pelo signo de Touro, porque Vénus também rege o signo de Balança. Podemos mais facilmente afirmar que uma Vénus é Plutónica quando em Escorpião ou em aspecto com Plutão, uma Vénus taurina é aquela que está em Touro e em menor dimensão na casa 2, podendo também afirmar-se que o indivíduo tem apetência para se relacionar com Touros quando a cúspide da casa 7 (relacionamentos) está em Touro (Ascendente em Escorpião).

Vénus, quando visto de uma forma tradicional tem uma dinâmica um pouco diferente nos homens e nas mulheres. No homem simboliza aquilo que o atrai numa mulher, na mulher, aquilo com que atrai o homem. Se as armas de sedução femininas são venusianas (Touro como segurança material e a problemática da escolha feminina do parceiro com estatuto sócio-económico estável), as do homem são efectivamente mais marcianas, no entanto ressalvo que isso é de um ponto de vista tradicional, à medida que cada ser se individualiza e integra maiores facetas da sua personalidade, vai perdendo a “projecção” no Outro das suas características. Desse modo um homem que desenvolveu a sua Vénus em Escorpião também “usará” ou mostrará facetas suas que atrairão.

Creio que essa atitude de desenvolvimento pessoal pode no entanto conduzir a alguns problemas a saber: autonomia, aquele que desenvolve em si as várias facetas da sua personalidade, sente-se mais completo, não “projecta” as suas necessidades no Outro, se por um lado pode tornar o seu espectro de atracção mais amplo, por outro lado não sente tanta necessidade de o fazer, porque se sente mais preenchido interiormente, por paradoxal que pareça. Outra questão prende-se com o facto do desenvolvimento pessoal trazer maior amplitude de relacionamentos pelo facto da pessoa estar mais aberta, mas por outro lado existir uma identificação com pessoas que tenham em si também níveis de preenchimento e satisfação, que também tenham algum trabalho interior de desenvolvimento, ou seja, novo paradoxo, aparentemente as escolhas alargam-se, mas estreitam-se em simultâneo.

Mas vejamos algumas tramas taurinas, a relação Touro promete sempre alguma estabilidade, confiabilidade, solidez, sensualidade, se essas são as faces positivas, o seu reverso pode muito bem ser a possessividade, como incapacidade para permitir ao outro a individuação (Quadratura com Aquário) e que torna a relação palco de cegueira total perante a razão. Uma necessidade de segurança que elimina todo o sentido de construção e elaboração do novo (Oposição com Escorpião), baseada numa teimosia intratável. Uma atitude ciumenta, baseada num fraco sentido de auto estima (Quadratura com Leão) que é fruto duma obsessão oportunista com o físico e com o material, rejeitando qualquer aproximação ao espiritual ou ao intangível.

A fidelidade parece ser algo bem estruturado no signo, vejo isso pelos homens Touro que de modo geral, mesmo perante a adversidade da sedução, a aceitam mas não caem nela, e ambos os sexos deste signo são geralmente muito atraentes, o que conduz sempre a situações de exposição à sedução, poucos mais signos se podem orgulhar desse atributo. A fidelidade aqui talvez tenha de facto a ver com a posse, os indivíduos sentem as pessoas como suas, mas também se sentem delas, não é tanto uma questão de equilíbrio do relacionamento como em Balança, que não é infiel apenas para não desequilibrar… No entanto, se o parceiro é infiel, podem-se tornar vingativos e a infidelidade pode ocorrer como modo de reconstruir uma auto estima abalada, tornando-se desejados por terceiros.

A disposição do signo é usualmente uma de introspecção, de olhar interior que tenta prescutar o “quem sou eu”, tentando perceber de que é que necessitam para dar sentido às suas vidas. Outra dinâmica é a do auto sustento e da estabilização (após a fúria experimental de Carneiro), que leva à compreensão do facto de que se devem apoiar unicamente neles próprios para avançar (atenção aos nodo norte na casa 2, que devem perceber muito bem esta dinâmica), o seu “equipamento” natal confere-lhes a capacidade para enfrentar obstáculos e vencer resistências que obriguem ao confronto consigo mesmo e com as suas forças. Através da análise do que valorizam percebem o que é necessário para eles, o seu sentido da vida está profundamente imbuído nos seus valores, pelo que existem vários perigos a) de que esse sistema de valores se torne demasiado rígido b) de que seja o seu sistema de valores, o referencial para a relação com o Outro. Se não existe ponto de contacto entre os sistemas de valores do Touro e do Outro, o Touro torna-se “autista”, incapaz de se relacionar, minando a sua própria evolução.

Ao atribuírem valor e significado a outra pessoa, desejarão mantê-la em sua posse, é sempre complicado “largar” algo que tenha sentido ou valor para um Touro, porque isso está directamente relacionado com o seu sentido e significado último de vida. Outra ameaça ao relacionamento é a necessidade desesperada de controlo, podendo dar origem não só ao ciúme, mas ao “retraimento” e ao isolamento como medidas punitivas ou retaliatórias. Ao ser assim, provavelmente atrai pessoas idênticas, fechando um círculo algo vicioso de atracção por pessoas que limitam o desenvolvimento, que não abraçam as causas mútuas, que são simples troféus para expor na parede. No entanto se essa pessoa tiver valor e significado para o Touro, ele permitirá que isso aconteça, independentemente das consequências, é a estabilidade e a segurança a qualquer preço, ainda que isso possa contribuir para a acumulação de ressentimento devido a esse condicionamento, situação que pode originar confrontos emocionais explosivos.

O movimento de abertura relacional é um processo doloroso para este nativo, envolve quase sempre a perda e dificilmente o nativo se questiona sobre a raiz do acontecimento. Os signos fixos, dos quais Touro faz parte, têm algumas dificuldades no movimento de auto-questionamento, o qual é deixado aos signos mutáveis que se seguem aos fixos. Deepak Chopra afirma que “se o Universo não está a ir de encontro às nossas aspirações, devemo-nos questionar do que é que está a correr mal connosco”, por vezes traduzo isso com o facto de nem sempre as respostas estarem erradas, as perguntas é que não estão certas! A relação dá-nos sempre uma chance de nos questionarmos interiormente, de percebermos quem somos, de evoluirmos na dança entre 2 pessoas. Já reparam como existe falta de harmonia e beleza quando apenas um dança e o outro não facilita?

maio 14, 2005

A posse

Posse, s.f. detenção ou fruição de uma coisa ou de um direito; estado de quem possui uma coisa ou a goza; poder que se manifesta quando alguém actua por forma correspondente ao exercício do direito de propriedade ou de outro direito real

Possessivo, adj. que designa posse; que domina; que subjuga; (psic.) que procura guardar outrem para si em vez de se lhe dedicar

Como já devem ter reparado, socorro-me do Dicionário de Língua Portuguesa, da Porto Editora, para iniciar um artigo que embora publicado sob a égide de Touro, se aplica a qualquer signo. A astrologia tradicional aplica o rótulo de possessivo ao signo, vimos nos artigos anteriores que dada a tendência inata para o auto sustento, aquisição essa que é feita via esforço próprio, pelas suas próprias mãos, pode dar-se uma identificação com o objecto que se conseguiu obter. O indivíduo tende a sentir-se o proprietário daquilo que adquiriu, menos do que pensar que se o fez, foi porque isso estava de acordo com as suas necessidades evolucionárias, ou seja, o indivíduo vive para trabalhar, não trabalha para viver (evoluir) e dai alguma confusão…

No que às relações diz respeito, essa identificação com o Outro que se “adquiriu” ou “conquistou” pode trazer alguns problemas. Se a identificação com o próprio corpo já parece ser fonte de alguns enganos e de alguns sofrimentos, a identificação com o corpo do Outro parece ser ainda menos significativa, no entanto… no sector masculino essa parece ser a determinante da escolha e claro se fui eu que escolhi, “ o que é meu, é meu”. Embora mais tradicional num homem do que numa mulher, as mulheres também já vão tendo os seus padrões de escolha baseados na beleza, embora esse não seja o primeiro critério de escolha numa mulher que é, segundo estudo de Anália Torres (Divórcio em Portugal, 1996) o estatuto sócio-económico do eleito.

Não é necessário pensar muito para se construir a óbvia associação posse-objecto e se o Outro nos pertence, a ele podemos fazer o mesmo que a um objecto, parti-lo, trocá-lo por outro, não lhe dar importância, enfim uma espécie de brinquedo que perde o viço com a idade, ou com a perda de estatuto sócio-económico. Ou seja se podemos achar injusto que os homens só preferem as bonitas, as mulheres só preferem os abastados, e se no primeiro caso os “sintomas” do amor, nomeadamente a posse e o ciúme se manifestam porque não irão conseguir encontrar outra tão “boa” como aquela, no caso das mulheres o mesmo se pode aplicar, ao conceito de ser fraca a probabilidade de encontrarem um “cartão de crédito” tão generoso como aquele. Não sei quem afirmou que a paixão era coisa para ricos e a pronto pagamento, mas certamente está desactualizado, com o advento das suaves prestações mensais, a paixão está ao alcance também do pobre…

Tudo isto gera uma dinâmica (económica) interessante, na mulher o embelezamento forçado, a moda, os produtos anti-envelhecimento, o exercício físico, as dietas, as doenças psicosomáticas ligadas à alimentação, tentando manter-se atraente para manter a sua parte do contrato, eu dou o corpo, tu dás a carteira (onde é que eu já vi esta cena almodovariana??), no homem, a ambição de subir na carreira, trabalhar mais para ter mais estatuto, ganhar mais que todos, ter o melhor carro, a moda, os símbolos de status, etc. O casamento é um contrato de amor fundado na posse? É o conceito económico de propriedade que está por detrás desta dinâmica? Há semelhança de um imóvel, há que fazer obras de vez em quando, para manter as rendas altas? Se o imóvel se degrada demais, avança-se para a demolição e constrói-se um novo por cima? As estratégias de sedução hoje em dia passam ou não pela exibição mútua de símbolos, as mais das vezes enganosos? Mesmo quando se falam de ideias ou sentimentos, são próprios, ou destinados a impressionar? Parece uma dinâmica que se auto-alimenta, que aparenta ter como base a identificação com o corpo, próprio ou alheio. Onde está o resto? A mente? O espírito?

Não encontramos sintomas desta posse apenas na relação. Os frutos da relação (os filhos) fornecem muitas vezes provas inequívocas deste facto, aqui as transferências são tão ou mais perigosas do que nos adultos, afinal estamos a falar de um outro ser humano, ao qual deveriam ser ministradas condições adequadas de crescimento. As mais das vezes os filhos são extensões vicárias de satisfação dos desejos (por vezes até sexuais) de seus pais. Querem-se filhos porque a) os pais se querem sentir orgulhosos dos seus filhos no futuro b) querem provar as suas capacidades reprodutivas c) projectarem neles as suas aspirações não alcançadas d) terem um ponto de fuga emocional, como as bonecas ou os comboios da infância, etc.

Os filhos são mais uma identificação possessiva, o “meu filho isto, o meu filho aquilo”, as crianças não existem para serem amadas, compreendidas, escutadas e aceites por aquilo que são, existem para satisfazer os pais, o que na maior parte dos casos acaba em provação, em revolta, em neuroses, e ainda nos dizem que temos que cuidar dos nossos pais com carinho e amor quando forem velhos. Felizmente o adulto tem e deve promover a oportunidade em si de quebrar essa corrente de irracionalidade, não só na maneira como trás e orienta os seus filhos no mundo, como na forma como pode vir a servir também de exemplo e aprendizagem para os seus pais. Alguém disse que as crianças são de Deus, inclino-me a partilhar que de facto nada é de ninguém, a matéria e logo a posse, são ambas ilusões dos sentidos, enquanto permanecermos escravos deles e dessa ilusão, consideramos que tudo nos pertence e que o Outro é nosso. Somos apenas de nós mesmos, se o quisermos.

Deepak Chopra em Portugal – Uma coincidência?

Tive a sorte de assistir à conferência de Deepak Chopra em Portugal no passado dia 10, no auditório da Faculdade de Medicina Dentária de Lisboa, e digo sorte, porque a minha querida amiga Fátima (obrigado…) me ligou à última da hora, amavelmente me convidando para ir com ela. Alguém provavelmente não tão necessitado decidira deixar-nos 2 bilhetes, já há muito esgotados e a 80 euros cada um, pelo que o agradecimento também se estende a essa pessoa desconhecida. Coincidência?

Tomei algumas notas na palestra, as quais aqui partilho convosco. Deepak Chopra veio também apresentar o seu último livro intitulado “Livro dos Segredos” e essa foi a temática da 2ª parte, a qual ainda não revi. Hoje fica só a 1ª parte da conferência e a 2ª fica para um próximo artigo. Esta 1ª parte foi dedicada sobretudo à apresentação de noções gerais da ciência actual e do modo como se casam com a sabedoria do Oriente.

Vejamos como, vou abrir este artigo aos comentários, pelo que gostaria que cada um de vós pudesse também participar. Os itálicos são meus.

Chopra começou por afirmar que um antropólogo amigo seu lhe afirmara que se os insectos desaparecessem hoje do planeta, dentro de 5 anos não haveria vida na Terra, pelo contrário, se o homem desaparecesse hoje da Terra, a vida floresceria abundantemente (…) somos a única espécie que mata os da sua espécie, que causa extinção de outras espécies, a única espécie que ameaça a sua própria espécie. Nesse sentido somos seres duais, divinos e diabólicos ao mesmo tempo.

Em próximo artigo tentarei explorar as dinâmicas das polaridades e de como parecem elas articular-se com a tendência evolucionária.

Estamos no limiar de um evolução metabiológica, um ponto de evolução da consciência, pois estamos conscientes de que estamos conscientes, se no passado a sobrevivência era a do mais forte, no futuro o critério de evolução poderá ser o do mais sábio, mas que existe uma diferença entre informação, conhecimento e sabedoria; informação será uma colecção de dados que se torna útil para que um determinado processo se torne conhecimento, e é este que é divino ou diabólico, em que apenas se torna sabedoria, se for utilizado para acarinhar e cuidar (nurture) da teia da vida.

Chopra afirma que o cosmos universal não é só uma estrutura, mas é também um organismo vivo, que evolui simultaneamente com a nossa consciência, pelo que existe a possibilidade de nós, como humanos, participarmos e nos harmonizarmos nessa estrutura universal e participar de forma consciente na próxima etapa evolucionária.

Existem 3 maneiras de termos conhecimento sobre nós e sobre o que nos rodeia 1) através dos sentidos (eyes of flesh), 2) dos olhos da mente, 3) dos olhos da alma, todavia os sentidos (eyes of the flesh) não dão uma ideia correcta daquilo que se vive e vê e cita William Blake: “We are led to believe a lie, when we see with and not through the eye, that was born in the night, to parish in the night, while the soul slept in beams of light”. Desse modo afirma que não podemos confiar nos nossos sentidos para ter uma percepção correcta da realidade e exemplifica com o facto da Terra parecer plana, ou que aquilo que sentimos como matéria ser um fenómeno estático, ou que estamos separados uns dos outros no tempo e no espaço.
O modelo mecanicista (e aqui afirma que um modelo pode permanecer como verdadeiro durante muito tempo devido ao lag entre as descobertas e a propagação e assimilação da informação pela sociedade) newtoniano de que se perceberes o funcionamento, podes interferir de modo a poder modificar o output, parece ultrapassado e cita Heraclito “olha para o teu corpo como para um rio” e tal como um rio no qual não se entra duas vezes, também o nosso corpo se transforma e está em constante dinâmica e troca com todo o Universo, citando Walt Whitman “cada átomo que te pertence a ti, também me pertence a mim”. Um exemplo disso é que dos átomos que compõem o nosso corpo, um quatrilião ou seja um seguido de 15 zeros, desses átomos já passou por todo o mundo e com grande probabilidade de terem pertencido a Leonardo da Vinci, ou a Saddam Hussein… Em menos de um ano 98% dos átomos do nosso corpo são totalmente novos, até o DNA, matéria genética que contém a informação evolucionária de milhões de anos, se renova a cada 6 semanas.

Desse modo, aquilo a que chamamos corpo é também uma ilusão, a tradição védica afirma “não te confundas com o teu corpo” e cita Shakeaspeare “We are such stuff that dreams are made of”, o teu corpo é o local a que as tuas memórias e sonhos chamam casa neste momento, e que esses, sobrevivem à morte das moléculas físicas através das quais nos expressamos e que chamamos corpo. A essência material do mundo, afinal é imaterial, a essência física do mundo, é não física, o materialismo é uma superstição, explicando o conceito através da física quântica: as moléculas são compostas de átomos, que por sua vez são compostos de partículas sub atómicas, estas últimas não são algo material, são flutuações de energia e informação num enorme espaço vazio, que se movem à velocidade da luz; proporcionalmente, o vazio da matéria é igual ao espaço intergalático, ou seja, nós (conjunto de corpo, mente e espírito) somos uma representação do Universo. A pergunta que se impõe é a seguinte: O que é este “vazio” de onde todos viemos? É só vazio (emptiness) ou pode ser o útero da Criação (Womb of Creation)? Será que a natureza vai buscar a esse vazio tudo o que existe? Uma galáxia? Uma floresta tropical? Um pensamento?

Dois outros conceitos de que Chopra falou foram a Descontinuidade e a Não-Localidade. Sobre o primeiro, afirmou que o mundo aparece-nos aos sentidos como contínuo, mas que efectivamente não é, exemplificando com o cinema, em que as imagens passadas a uma determinada velocidade conferem a sensação de movimento, a ilusão de continuidade. Mas o Universo é um movimento vibratório, uma sequência de ON/OFF tão rápida, que apenas nos apercebemos do ON, sabemos o que está no ON, mas o que é que está no OFF? Como é que se converte vibração em matéria? E cita Sir Arthur Harrington “Something unkown, is doing we don’t know what”.

Em qualquer experiência existem 3 componentes: 1) aquilo que observamos, a matéria, que é vibração 2) o processo de observar, que é o movimento da mente 3) e um observador, uma presença (Still Presence) em que todas as observações, relações sentimentos e ambientes, vem e vão, cito o original “that still ever present witnessing awareness, our soul, where everything come and go”. Tudo vai e volta. Somente essa presença permanece, essa presença, que é a nossa alma, transcende a vida e a morte. E cita Stephen Hawking, “não há principio nem fim do tempo” (nota: a teoria do big bang já foi posta de parte pela comunidade cientifica). Se chegarmos ao princípio, o dilema é o que é que existe antes, se chegarmos ao fim, o dilema será o que é que existe depois? Essa descontinuidade, afirma Chopra, é o espaço entre o pensamento e afirma que podemo-nos conectar a essa noção através da meditação, cujo exercício consiste em permanecer no espaço entre pensamentos.

Os pensamentos são cadeias binárias de fotões objectivos e subjectivos, que fazem ON e OFF através das células cerebrais, os fotões são o autocarro da informação. Essa informação está carregada de subjectividade, mas o Universo é uma expressão de consciência, porque pensa, porque está também imbuído de subjectividade e criatividade, tal como os pensamentos, e ao qual estamos ligados. Os fotões carregam a energia e a informação, mas o gap (espaço) entre os fotões é a Descontinuidade, sendo essa a sobreposição de possibilidades infinitas, é todo o potencial do que foi, do que é e do que será, a qual tem 5 atributos: 1) o estado OFF não contém energia, informação, matéria, espaço ou tempo 2) Correlação não-local (Non local correlation), tudo está instantaneamente correlacionado com tudo, mesmo não existindo troca de energia ou informação, é uma característica de omnisciência ou omnipresença, que sabe exactamente o que fazer, como, onde e quando e exemplifica com o facto do ser humano conseguir fazer várias coisas ao mesmo tempo (criar um filho na barriga, tocar piano, ter um pensamento e conversar). Devido a este atributo, o ritmo biológico está de acordo com a sinfonia do Universo 3) Proliferação da incerteza, e cita Nietzsche “you must have chaos within you, to give birth to a dancing star”. 4) Dessa proliferação de caos, incerteza e descontinuidade, nasce a criatividade. Passa-se de um padrão de pensamento e comportamento, para outro, sem que haja transição entre os dois (quantum leap), sem que haja passagem pelo ponto intermédio, é um salto existencial. 5) Nessa descontinuidade, há algo que os cientistas chamam o feito observador (observer effect) em que “na ausência de um ser consciente, o Universo permanece uma sopa quântica radicalmente ambígua, é necessária uma consciência observadora para criar ou moldar aquilo a que se chama o objecto de percepção.

Quase poderia ser o “barro” da criação que necessita de alguém que sirva de receptor e que crie algo a partir dai…

Chopra afirma que a Alma (ou o espírito) tem exactamente as mesmas características da Descontinuidade ou seja que a) é um campo infinito de possibilidades b) é omnisciente e intuitiva, sabe exactamente o que fazer, como, onde, quando e como c) a alma abraça a incerteza, porque sabe que no meio da incerteza nasce a criatividade. Se houvesse certeza o tempo todo, nada haveria para criar d) a alma é fonte de criatividade infinita e) a alma co-cria com o Universo, co-cria com Deus, o Universo e Deus, só se manifestam a menos que nós participemos, não pode haver criação sem um criador e sem alguém que observe essa criação.

Muitos dos problemas que assolam o mundo actualmente, são devidos ao facto de termos perdido o contacto com a nossa alma “ que bem é que faz um homem em ganhar o mundo, mas em perder a sua alma”. Ao compreendermos o que é a realidade, somos responsáveis pela ressurreição da conexão com a nossa alma e com o Universo. Chopra propõe uma mudança de ponto de referência, em que o ser humano passe da mente, do ego que é auto imagem, para a Alma, e que o faça através de certas práticas e exercícios, ele propõe que a nossa experiência de vida passe a vir directamente da fonte, através da reconexão com o Universo. Ao fazermos isso, conheceremos o princípio da sincronicidade, que é um termo cunhado por Carl Jung, passa a existir um sincronismo, com as coincidências significativas, aquilo a que Chopra afirma que na tradição védica isso se chama a “realização espontânea do desejo” (spontaneous fullfillment of desire), em que o intelecto está em harmonia (sincronização) com o Universo. Os eventos tornam-se sincronizados no espaço e no tempo, dos quais todo o Universo se torna responsável, porque inclui todo o comportamento e intencionalidade de todos os seres. Quando as coisas não nos estão a correr bem, devemo-nos perguntar “o que é que o Universo me está a querer transmitir?” e cita um poeta e místico indiano Rumi “i have lived on the leap of insanity, wanting to know reasons, knocking at the door, the door opens, i´ve been knocking from the inside”. Não estamos fora de uma consciência que se manifesta em todo o Universo, as nossas intenções são parte do comportamento dessa consciência.

Quando a verdadeira sincronicidade ocorre, tem determinadas características a) é uma conspiração de probabilidades que ocorrem fora dos limites do pensamento racional b) ocorre num domínio de consciência não causal (acausal), i.é, sem causa c) esse domínio de consciência não causal, é não local, ou seja, onde tudo está sincronizado com tudo o resto, onde há simultaneidade no espaço e no tempo d) como resultado dessa experiência, movemo-nos para um nível mais elevado de consciência através de um salto (leap) e) a intenção tem algo a ver com todo o processo, as intenções são muito poderosas f) dá-se uma transformação do nosso self, no qual não existe marcha atrás, é a jornada evolucionária da consciência g) começamos a ver que existe um sentido e um propósito no Universo e que somos parte disso h) não mais fazemos distinção entre os nossos pensamentos, intenções e sonhos interiores e o que acontece no exterior.

Estas são características da nossa alma e não da nossa mente, é lá que encontramos intuição, criatividade, imaginação, insight, intenção, sentido, propósito, livre arbítrio.
Chopra terminou a primeira parte dando um exemplo de sincronicidade, conta como certa vez, estando em Londres hospedado num hotel, não consegui estabelecer ligação do seu telemóvel e teve que sair do hotel e ir a uma cabine pública, estava muito frio e à medida que estava a efectuar a ligação, desenhou um circulo com o dedo no vidro embaciado da cabine, para abrir um espaço para vislumbrar o exterior, nesse momento passou alguém que o reconheceu através do buraquinho, era uma amiga sua, manager da banda Eurithmics. Andava a tentar encontrá-lo porque a Annie Lennox (vocalista dos Eurithmics) andava a ter um sonho estranho à vários dias e que lhe queria falar sobre isso, se ele podia parecer no estúdio nessa tarde, etc… Lá foi, a Annie Lenox contou-lhe que andava a sonhar com John Lennon e no sonho John explicava-lhe porque é que tinha escrito a música “Imagine” e que ela não estava a perceber muito bem isso etc, entretanto a sobrinha da Annie Lennox, pequenita, andava pra lá e pra cá intrometendo-se como só as crianças sabem fazer, e a tia Annie pediu-lhe para se sentar um pouco que já iria com ela ao sitio onde ela queria ir, a pequena foi-se lá sentar, sentou-se em cima do comando da televisão, o qual liga a televisão, estando nesse momento o John Lennon a cantar “Imagine”… Desde esse dia, a música da banda mudou completamente, Chopra afirma que a consciência de Lennox deu um salto (leap) evolucionário. Coincidência? O que é uma coincidência?

Quando eu sai para o carro com a minha amiga, após alguma conversa no átrio, uns bons 20 minutos após a conferência ter terminado, ela liga o rádio do carro sintonizado numa estação, “imagine there’s no greed, imagine there’s no hunger”… emociono-me de tal forma a escrever isto… que não consigo encontrar palavras… decidi desde esse momento partilhar convosco o que Chopra transmitiu…

maio 02, 2005

A mudança: uma partida aos Touros?

Implícita à ideia de mudança, está a ideia de movimento. A ciência descobriu que na natureza tudo está em movimento, nada é inerte, a matéria não é inerte, a matéria é energia e energia é movimento. O conhecimento budista parece partilhar da mesma noção de que “observando com atenção o Universo, veremos que tudo é efémero, transitório, mutável e perecível. Tudo é impermanente e se transforma sem cessar.” Heraclito afirmou que “tudo é impermanente, excepto a mudança”. A mudança vista deste prisma, será o aqui e agora da existência. Existir é mudar, mudar é evoluir, existir é evolução.

“Quem está mal, muda-se”, o provérbio pode ter várias conotações, adopto a que mais me convém para este texto: o indivíduo tem tendência a mudar, apenas quando em si tem a noção de que algo está mal, caso contrário não o faz, ninguém muda a não ser que se torne absolutamente necessário, isto poderia ser o corolário da lei do menor esforço, lei essa que também rege a natureza e portanto o ser humano. Sem algum factor de stress, parece não existir propensão à mudança. Ao indivíduo que reconhece a necessidade de mudar, é inerente um determinado nível de stress, aquilo a que Kierkgaard provavelmente chamou a “angústia de existir”, dada a necessidade de reconstrução existencial em cada novo momento de vida, e que essa angústia, essa depressão, esse stress ou ansiedade, são factores geradores de mudança, portanto não necessariamente vistos como negativos. A pós-modernidade concluiu que “quem pensa, deprime-se”. Assisti recentemente a uma conferência do Psiquiatra (e escritor) Lobo Antunes em que o mesmo afirmava que “nos doentes em que não existe ansiedade, o prognóstico é sempre muito reservado, sendo a ansiedade um factor de bom prognóstico”, ou seja parece ser a ansiedade, uma característica da personalidade que deseja mudar, todavia há que distinguir a ansiedade patológica da angústia existencial.

A doença física ou psicológica parece vir do esforço em manter, mais do que do esforço em mudar. É relativamente simples de provar que é a persistência em comportamentos inadequados, que origina a doença. Um fumador adoece, porque persiste em fumar, porque lhe é difícil mudar de hábitos. A perturbação mental e existencial, tem muitas vezes subjacente a incapacidade para mudar padrões, sejam de pensamento, de comportamento, emocionais ou outros. A doença é tanto mais difícil de erradicar, quanto persistem padrões de rigidez ou de aversão à mudança.

A mudança pode ser lenta e progressiva ou cataclismica, de modo geral é lenta, pois parece impossível a adaptação e evolução se for demasiado rápida ou num contexto sempre cataclismico. Nem sempre se aceita a necessária lentidão, numa época de imediatismos. Parecemos estar a um momento de esgotamento do actual modelo vivencial, com a subjugação do homem ao tecnológico, dado que a acelerada mudança tecnológica parece estar a deixar o “homem” para trás, determinando uma acumulação de energia negativa e desperdiçada. Já não é máquina que é deitada fora, mas é o homem que está ser “deitado” fora pela máquina.

Em função do não reconhecimento da necessidade de mudar, o indivíduo precipita o evento que despoleta a consciência da mudança. A mudança, quando efectuada “de dentro” parece ser integrada como processo natural que é, quando é imposta “de fora”, o indivíduo tende a considerá-la como cataclismica. No entanto a mudança é o que é, é a lei universal do movimento, cabe ao indivíduo encaixar-se na onda a adaptar-se os ritmos naturais, ou rejeitar o padrão e sujeitar-se ao cataclismo (a doença, a perda, a dor, etc). Perceber que este padrão de mudança faz parte de um processo interno de sobrevivência-adaptação-aprendizagem, é perceber que todos os processos externalizados (as identificações e o poder que outros exercem sobre nós) prejudiciais ao desenvolvimento pessoal, podem ser eliminados. Há que reconhecer que na maior parte dos casos, nem sabemos com o que nos identificamos, nem que somos facilmente manipulados nas nossas capacidades de decisão e tomada de consciência. O que quero realçar é que o processo de mudança é algo de interno, quanto maior o conhecimento sobre o mesmo, maior a capacidade de adaptação, aprendizagem e evolução. Para mudarmos algo em nós, preferimos sempre começar pelo exterior (um corte de cabelo, mudamos os móveis da sala, compramos um carro novo), raramente a mudança começa por dentro, aliás nem sempre tem que suceder dessa forma, no entanto as lentes com que vemos o mundo são as interiores, se mudamos a cor das paredes do nosso quarto para uma cor mais alegre, existe algo em nós que quer mudar ou até já mudou, que determinou o processo exterior, uma alteração na maneira de ver o mundo, portanto o processo exterior só é visível, porque o processo interno já ocorreu. Algumas pessoas, quando se encontram num estado de angústia psicológica, queixam-se de ver tudo negro, o panorama é todo muito sombrio, isso é sinal de que algo deve mudar, são os sinais externos, aos quais se deve dar a máxima atenção e que são normalmente sintomas de instabilidade, irritação, ansiedade, depressão, dor, falta de prazer, inibição, etc.

A zona onde deve ocorrer a mudança está intimamente ligada ao sinal exterior. Não há acasos na sinalização de problemas, todo o problema que persiste é um indicador. Todo o corpo humano é dotado da mais alta inteligência, o cérebro é apenas um mecanismo, tão indispensável ao correcto funcionamento como os outros órgãos.

A consciência da mudança, só é atingível pelo pensamento/conhecimento, incluindo todos os processos de alargamento da consciência, não exclusivamente racionais ou ligados à mente intelectual, logo todo o estreitamento de consciência é inibidor de mudança. O conhecimento proporcionado pelos sentidos, é o adequado à percepção da matéria, reconhecendo que nem tudo é visível ou tocável, percebe-se que nem todo o conhecimento é apreensível exclusivamente pelos sentidos. Como já disse anteriormente, o conhecimento intelectual, é apenas a primeira etapa do conhecimento. Quem já experienciou formas alargadas de percepção e consciência, sabe do que falo.

Os signos FIXOS (Touro, Leão, Escorpião, Aquário) cuja palavra chave pode ser SEGURANÇA, são os que mais dificilmente parecem encarar a mudança, embora todos eles tenham presente esse processo. O desejo de mudar, experimentar e conhecer, é limitado pela necessidade de estabilidade e segurança, a qual impõe o medo da perda, situação que é acentuada no eixo Touro-Escorpião. Embora se admita que o processo de mudanças na percepção é continuo no ser humano, com frequência a “cristalização” parece mais segura, no que aparece como uma defesa da integridade do Eu, reflectindo-se em ideias ou sentimentos que o indivíduo relucta em admitir, procurando preservar essa (suposta) integridade.

Uma certa propensão à mudança parece ser mais visível nos signos MUTÁVEIS (Gémeos, Virgem, Sagitário, Peixes), nos quais existe um sentido mais activo de inadequação, sobretudo porque a palavra chave dos mutáveis parece ser APRENDIZAGEM. Esse movimento interior de questionamento, parece favorecer a chegada à compreensão (Insight) que facilita a mudança.

Os signos CARDINAIS (Carneiro, Caranguejo, Balança, Capricórnio) cuja palavra é ACÇÃO, e acção tem subjacente movimento, energia, logo predisposição à mudança. Neste últimos, a predisposição para a mudança parece diferente da dos signos mutáveis, porque há o desejo mudar iniciando, construindo, enquanto nos mutáveis, a hipótese tem mais que ver com o questionar, arrumar, classificar, reorganizar, criticar, refazer.

Touro Parte II

No texto anterior ataquei as conclusões antes da teoria, mas então o que podemos mais dizer acerca do signo Touro? É o 2º signo do Zodíaco, regido por Vénus, Lua Exaltada, Plutão em Exílio. Embora subsista um acordo quanto à regência de Vénus, alguns astrólogos não consideram os regentes de Touro e de Virgem, respectivamente Vénus e Mercúrio, como sendo realistas. Isso provavelmente significa que ainda existe margem de estudo para este corpo de conhecimento, o que aliás não deixa de ser verdade para todo o conhecimento.

Como podemos identificar no mapa natal alguém cuja simbologia esteja associada com o signo de Touro? Basicamente podemos perceber Sol, Lua ou Ascendente nesse signo, sendo o Sol, sempre o indicador principal. Se depois faz por exemplo uma Conjunção com Saturno, não deixa de ser uma personalidade essencialmente taurina, mas cuja tónica poderá ser também saturnina. Ao indivíduo de Touro, como vimos no texto anterior, é-lhe conferido um "equipamento" que visa estruturar um carácter auto-sustentável. Se em Carneiro essa preocupação não era muito visível, em Touro o indivíduo parece tomar consciência que a vida não pode continuar indefinidamente de experiência em experiência, após o impulso inicial para a vida, há que garantir a sobrevivência. Para que isso aconteça outras características são necessárias, agora diferentes das de Carneiro. O Touro é a condensação do impulso de Carneiro, é uma força produtiva direccionada, quiçá mais lenta, mais preserverante, mais reservada, mais constante.

Há que lembrar que estamos a falar de uma parte da personalidade (o Sol), o indivíduo só pode ser visto no seu conjunto e a esse respeito só a percepção integral do mapa natal pode fornecer esclarecimentos. Um Sol em Touro, tem Lua, Mercúrio e por ai fora noutros signos, e só isso pode explicar a complexidade total, a qual nunca poderá ser inteiramente vista através do mapa natal, o qual permanece uma tentativa de explicação, que não é obviamente a explicação em si, ou seja, o mapa não é o indivíduo. Continuo a afirmar a necessária precaução às identificações, porque parece ser a excessiva identificação com algo, a atitude responsável pela má utilização energética das forças postas à disposição do mapa. Um indivíduo que se identifica com tudo o que adquire pelas próprias mãos (Touro), rapidamente cai na posse, decorrendo da posse a avareza (posse de bens), o ciúme (posse de pessoas), o fanatismo e a teimosia (posse de ideias). Um outro indivíduo que se identifica com o que cria, (Leão) rapidamente cai no orgulho, na vaidade, na arrogância, etc. A identificação parece ser uma das fontes de todos os problemas. Em cada signo alerto sempre para aquilo com que esse tema tem tendência a se identificar, embora não forneça pistas quanto à forma como a pessoa se pode opor a essa identificação, elas existem, mas antes que sejam fornecidas, o indivíduo deve gerar o desejo de se libertar, de se desidentificar, de se individualizar. Após isso, certamente que as pistas lhe virão. Não há respostas, sem perguntas, aprendi por mim mesmo que muitas vezes as perguntas são incorrectas, porque centradas em motivos de orgulho, de vaidade, enquanto isso dura, as respostas vem “trocadas”.

Outro carácter parecido com Touro é o do Sol na casa 2, embora o indivíduo não seja desse signo, mas uma das suas principais preocupações, porque o Sol ocupa essa casa, vai ser a da auto-sustentabilidade. Podemos pensar que a sustentabilidade pode ter várias vias, desde a mais material à mais espiritual. A questão é sempre valorativa, e essa é a outra designação de Touro: o que valorizo (ver o texto), para que é que isto me serve, que valores tenho devido a isso. Se o meu impulso último é o do auto-sustento, tenho que ter uma forma de discriminar o que é bom e o que é mau, em Carneiro essa consciência discriminatória e analítica quanto aos valores não era tão necessária, porque o indivíduo simplesmente não estava nessa direcção. Aqui a ideia é consolidar e conservar (signo fixo), mais do que iniciar (signo cardinal), pelo que há que saber o que guardar. Dada a ideia de SEGURANÇA MATERIAL do Touro, este “guarda” tudo o que faz falta e o que não faz, sobretudo porque pode vir a fazer. Não se trata de guardar por uma questão de nostalgia como em Caranguejo, mas sobretudo por uma questão prática, que também pode passar evidentemente pela identificação com os objectos. E tanto pode ser uma excelente memória que “guarda” tudo o que serve e o que não serve, como uma mala ou um sótão cheio de objectos.

Dada esta questão dos valores, o Touro sabe instintivamente o que fazer para se valorizar, o que está dependente justamente daquilo que valoriza. Uma preocupação é sempre a de passar a imagem que é um indivíduo que sabe o que vale, ainda que se sinta inseguro quanto a isso, esse pode ser um foco de problemas para um Touro, estar inseguro quanto ao que vale e se não é devidamente valorizado. Se valoriza a imagem, será o mais bem vestido e penteado, com as maiores preocupações em termos de cuidados na apresentação, quer em termos físicos ou de roupa, daquilo que diz, dos objectos que possui, das pessoas com quem se relaciona, com quem quer ser visto, etc. A imagem tem que ver sempre com processos externos, pelo que o indivíduo será um mestre em todo esse processo, logicamente angariando sucesso na medida do seu investimento. Esse investimento é real, não é fingido, o indivíduo acredita que esses são os trunfos, porque esses são os seus valores, e a crença também ajuda a determinar o sucesso. Não o faz pela vaidade, nem por ser narcisista, mas pela convicção de que é o necessário para vencer de acordo com o seu projecto de vida. Os Touros são indivíduos essencialmente simples, pelo que dispensam adereços se os mesmos forem dispensáveis. Resumindo, os Touros valorizam-se, em função daquilo que valorizam. Em última análise tudo está subjacente ao auto-sustento, se valorizam o conhecimento vão adquiri-lo sob as mais diversas formas, e depois provavelmente serão bons professores, que é a forma de se sustentarem através daquilo que valorizam.

Embora esse processo de identificação com algo seja necessário ao arranque da consciência, esse processo tem que ir sendo feito e refeito ao longo da vida, entendendo vida como etapa evolucionária, até para que se dê a expansão da consciência. Mencionei nos artigos sobre o retorno de Saturno (parte I e parte II) que há necessariamente momentos de desidentificação, e ou o indivíduo está preparado para os receber e perceber, ou necessariamente a sua natureza interior tem formas de lho transmitir que podem ser bem menos pacatas, caso não se disponha a acolher as transformações, as quais implicam sempre desidentificação.

Uma das grandes dificuldades de todos os signos fixos (Touro, Leão, Escorpião, Aquário) é justamente a aceitação da mudança (ver texto), e mudança passa também pela desidentificação. Dado que se identificam com os temas a que pertencem e sobre os quais estão naturalmente habilitados a gravitar e a conservar, é-lhes tremendamente complicado “largar” essa identificação, obviamente dificultando o crescimento e a mudança. O eixo Touro-Escorpião parece especialmente dificultado nesta tarefa dada a temática de Segurança e Conservação dada pelo carácter FIXO, e porque se tratam também de elementos AGUA e TERRA, para quem se torna mais difícil queimar e abandonar determinado tipo de padrões energéticos. A terra mesmo queimada nunca deixa de ser matéria (cinza), e a água mesmo fervendo passa a vapor, pelo que a densidade da matéria neste elementos, é sempre maior em comparação com a volatilidade do AR e do FOGO.