outubro 26, 2005

Estamos á mercê?

Caranguejo é a primeira estação aquática, seguindo-se Escorpião e Peixes, todavia é a quarta etapa evolucionária, que começou em Carneiro. Mas sendo a primeira de Água, assume particular importância o seu conteúdo, como aliás é designada no estudo psicológico do homem, a fase da infância. O primeiro contacto com o reservatório de emoções será determinante para o desabrochar do ser em todo o seu potencial, colorindo toda a personalidade. Todos temos casa 4 no mapa, uns com cúspide em Virgem, outros em Leão, etc, em função do Ascendente de cada um. Existem portanto 12 hipóteses, no entanto, se analisarmos o regente da casa 4, que poderá estar em Escorpião – sendo Plutão portanto – isso fornece-nos muito mais pistas sobre o tema Caranguejo no mapa. Para que o tema fique completo temos que verificar se existem planetas em Caranguejo, qual é o regente da casa 4, que aspectos faz a outros planetas (se Plutão, no caso citado estiver em aspecto com Lua, isso passa a ser da maior importância no mapa) e também, onde está a Lua e que aspectos faz com outros planetas. Ou seja, a questão é de tal modo complexa que qualquer análise é sempre redutora da realidade, mas é partindo de algo que chegamos a outro lado, há que começar.

O reservatório de emoções descrito pelo tema de Caranguejo/Lua/casa 4, tanto pode ser uma água parada e pantanosa, como um rio permanentemente renovado e fresco. Independentemente do que aconteceu na infância – se entendermos não recuar mais atrás no nosso percurso evolucionário – estamos à mercê ou somos plenamente responsáveis por cada passo das nossas vidas? Será que cada encontro, cada acontecimento, tem um significado concreto nelas? Atraímos alguém ou algum acontecimento às nossas vidas por mero acaso? Ou estaríamos a precisar desse alguém ou de algo para que alguma coisa acontecesse dentro de nós? Se estivermos conscientes dessa noção, saberemos aproveitar o que veio e saberemos porque atraímos a situação ou pessoa. Caso contrário, a experiência repetir-se-á até que a “lição” seja aprendida e a nossa evolução possa prosseguir. Tudo parece ser consequência das nossas necessidades interiores, cujo objectivo último é a evolução do nosso ser. Só conhecendo o nosso interior, podemos estar conscientes do que/quem atraímos e porquê. Existe um fenómeno psicológico chamado de distorção, esse fenómeno é consequência da repressão (armazenamento deficitário) dos acontecimentos na consciência, que por sua vez geram a distorção dos mesmos acontecimentos a gravar no inconsciente. Muito simples: se algo foi mal interpretado, vai ser mal gravado, e se foi mal gravado, irá ser mal reproduzido, fazemos o que fazemos mas não sabemos porquê e então questionamos “porquê eu” “Deus não é justo” “eu não merecia isto” etc. Se tivermos conhecimento das nossas distorções, podemos começar a atrair o que é verdadeiramente bom para nós e desse modo “actualizar as nossas possibilidades, o nosso potencial” ao nível relacional, profissional, pessoal, familiar.

Em última análise, se compreendermos que somos seres limitados no espaço e no tempo de que dispomos, rapidamente percebermos que não há vítimas, somos sempre responsáveis por aquilo que nos acontece. Importa perceber o que vai dentro de nós, as nossas raízes e é essa a grande questão de Caranguejo. A dinâmica simbólica do animal associado é a de que temos que andar para trás, para seguir em frente, mais ajuizado não poderia ser, olharmos o passado emocional é fundamental para a nossa evolução e crescimento. Conhecer as nossas emoções, só é possível através da volta ao que está armazenado, ao reservatório emocional representado por Caranguejo. Dado que isso é um acontecimento sempre doloroso, as mais das vezes negamo-nos a fazê-lo, todavia é esse o caminho do crescimento, “o que arde cura” como diz Gabriel, o Pensador.

A própria colocação da casa 4 no mapa, como sendo o fundo do mapa, as “raízes” do mapa, que afinal de contas são as nossas raízes - porque os mapas são pessoas - demonstra esta tese, de que é necessário olhar para trás (para dentro talvez seja mais correcto) , de modo a seguir em frente. As emoções não estão no futuro, e no presente, está a capacidade em lidar com as mesmas, na medida em que se resgataram do passado, do fundo da psique, que representa um passado imaginário, mas que é intemporal. O inconsciente não conhece passado nem presente, vejam-se os sonhos que são vivenciados por nós como se lá estivéssemos presentes, naquilo que para nós é naquele momento em sonhamos o presente, apesar de poderem ser sonhos algo futuristas J

Quando questiono se estamos à mercê do nosso passado emocional, esteja ele a que distância se considere e mesmo considerando que o Inconsciente não conhece passados, quero dizer que não somos propriamente alheios a esse passado, em última análise somos responsáveis por ele, dado que os acontecimentos passaram-se foi connosco e não com o vizinho do lado. É sobre esse património emocional que podemos trabalhar, de molde a poder reganhar não só o nosso presente como também o futuro. Disso depende toda a nossa saúde física e psicológica, e em última análise, o impacto que teremos na nossa passagem pela vida. Uma árvore sem raízes fortes e sem terreno firme, rapidamente vai ao chão. Um terreno sem árvores, rapidamente se torna num deserto. Estamos á mercê?

Um esclarecimento astrológico

Tenho recebido alguns mails de pessoas que se sentem visadas pelo que escrevo, não no mau sentido, mas sobretudo porque não se identificam com a problemática do seu signo pessoal. Gostaria de esclarecer um pouco mais esta questão. A minha visão da astrologia não é tanto a de descrever carácteres, mas utilizá-la como ferramenta de análise, avaliação e crescimento pessoal. A astrologia não me descreve, sou eu que me descrevo e me mudo, socorrendo-me daquilo que encontro nesse saber (e noutros). Embora esta visão me sirva a mim, poderá no entanto não servir a outros, pelo que amplio isso a tudo o que escrevo neste blog. Aquilo que escrevo e em que acredito no momento, serve-me a mim e não pretende servir de postulado ou teoria para ninguém, eu próprio tento permanecer aberto á realidade, nunca em função de teorias. Se escrevo sobre estes temas, naturalmente me interesso por eles e sei que outros podem partilhar desse interesse, no que não estou absolutamente interessado é em criar dogmas. Eu penso por mim e partilho os meus pensamentos, forma de vivenciar e teorias, mas permaneço aberto ao Outro e ao que tem para me dizer, aliás não fora a minha principal ocupação profissional a de ajudar os outros a crescerem.

Devo admitir que sobretudo na vertente astrológica, este blog não está escrito tanto para iniciados, embora também não o seja para experts, digamos que será para pessoas que já tem algum conhecimento médio da astrologia. Como tal, se escrevo sobre Sagitário, por exemplo, essas pessoas saberão que me refiro ao signo, a Júpiter a à casa 9, porque todas estas questões estão interligadas com a problemática de Sagitário. E por Sagitarianos, entendo não sómente as pessoas do signo, como todos aqueles que tem Júpiter proeminente no horóscopo ou com casas 9 fortemente ocupadas, sobretudo por planetas pessoais. Como tal, se me refiro ao signo A ou B, estou-me a referir a toda a trama astrológica associada a esse signo (regentes, casas, etc), e não de modo particular ao indíviduo que é exclusivamente desse signo. Existem pessoas que vem ao blog ler sobre o seu signo, após o que deixam de vir. Não só perdem os magnifícos :) artigos que escrevo, como perdem a possibilidade de aumentar o seu saber sobre toda a terminologia associada à sua caracterização. Se estamos a falar de um Capricorniano homem com Sol, Mercúrio e Marte em Capricórnio na casa 7, temos que ler sobre Balança, para perceber melhor a dinâmica desse individuo. Se tenho Vénus em Peixes ou em aspecto com Néptuno, devo ler o artigo sobre Peixes e os relacionamentos.

O blog não pretende ensinar astrologia, eu talvez também não seja sempre tão claro como gostaria em relação a todas as matérias que escrevo, mas pretendo apenas discutir ou demonstrar aspectos que me parecem válidos para os objectivos e temas que me proponho, nomeadamente o crescimento pessoal e os relacionamentos (eixo casa 1-casa7). Todos os restantes eixos do mapa astrológico, não sendo menos importantes, serão aqui tratados mais lateralmente. Bem hajam e continuem a enviar os vossos comentários acerca do que considerem pertinente, o que aliás já me tem servido para posteriores artigos, pois é através desta dialética entre mim e o outro, que se processa o crescimento pessoal de ambos, e é nisso que o psicótico está empenhado.

VOCÊ É...

VOCÊ É...
Você é forte quando apanha a sua mágoa e ensina a sorrir.
Você é corajoso quando supera o seu temor e ajuda os outros a fazer o mesmo.
Você é feliz quando vê uma flor e se sente abençoado.
Você é amoroso quando sua própria dor não o torna cego à dor dos outros.
Você é sábio quando conhece os limites da sua sabedoria.
Você é verdadeiro quando admite que há vezes em que você se engana.
Você está vivo quando a esperança de amanhã significa mais para você do que o erro de ontem.
Você é livre quando tem o controlo de si mesmo e não deseja controlar os outros.
Você é honrado quando descobre que sua honra é honrar os outros.
Você é generoso quando pode receber tão docemente quanto pode dar.
Você é humilde quando você não sabe como pode ser humilhado.
Você é atencioso quando me vê exactamente como sou e me trata exactamente como você é.
Você é misericordioso quando perdoa nos outros as faltas que condena em si mesmo.
Você é belo quando não precisa que um espelho lhe conte.
Você é rico quando nunca precisa mais do que o que tem.
Você é você quando está em paz com quem você não é.

Tinha este texto já guardado há algum tempo que recebi do meu amigo Horácio, para partilhar convosco...

Um credo para o meu relacionamento contigo

“Tu e eu temos um relacionamento a que dou valor e quero manter. No entanto, cada um de nós é uma pessoa, diferente, com necessidades únicas e com o direito de satisfazer essas necessidades. Quando estiveres com dificuldade em satisfazer as tuas necessidades, eu tentarei ouvir-te e aceitar-te verdadeiramente para facilitar o encontrares as tuas próprias soluções, em vez de dependeres das minhas. Eu também respeitarei o direito de escolheres as tuas próprias crenças e desenvolveres os teus próprios valores, ainda que diferentes dos meus. No entanto, quando o teu comportamento interferir com aquilo que eu preciso de fazer para satisfazer as minhas próprias necessidades, eu dir-te-ei aberta e honestamente, como ele me afecta, confiando que respeites as minhas necessidades e sentimentos o suficiente para tentar mudar esse comportamento inaceitável para mim. Também espero que, sempre que o meu comportamento for inaceitável para ti, mo digas aberta e honestamente, para que assim eu o tente mudar. Nessa altura, quando descobrirmos que nenhum de nós consegue mudar para satisfazer as necessidades do outro, vamos reconhecer que temos um conflito e comprometer-nos a resolvê-lo sem que nenhum de nós recorra ao uso do poder ou autoridade para ganhar á custa do outro perder. Eu respeito as tuas necessidades mas também preciso de respeitar as minhas. Por isso, vamos sempre esforçar-nos por encontrar uma solução que seja aceitável para nós os dois. As tuas necessidades serão satisfeitas, e as minhas também - nenhum de nós perderá - ambos ganharemos. Desta maneira, tu podes continuar a desenvolver-te como pessoa, através da satisfação das tuas necessidades, e eu também. Assim, o nosso relacionamento pode ser saudável, e nele ambos nos podemos empenhar para nos tornarmos naquilo que somos capazes de ser. Poderemos, assim, continuar o nosso relacionamento no respeito mútuo, com amor e paz.” Thomas Gordon

Thomas Gordon é um psicólogo da escola humanista, discípulo de Carl Rogers e da Abordagem Centrada na Pessoa, abordagem na qual o escriba do Psicótico fez também a sua formação como terapeuta. Se estão lembrados, uma das temáticas do blog é a dos relacionamentos amorosos, e este artigo, embora aplicável aos relacionamentos em geral, tem particular interesse para o tema. Farei uma abordagem tendo em conta pontos que me parecem de interesse, e que tem suscitado algumas questões da parte de pessoas que o tem lido e de quem recebi feedback. Como todas as teorias, o que está escrito assume quase sempre - indevidamente diga-se - letra de lei. Este caso não é excepção, mas creio que as teorias existem pela necessidade de analisar e sintetizar algo que dificilmente se pode encaixar em modelos. As teorias não perdem valor pelo facto de se revelarem utópicas, perdem-no sim quando não são devidamente avaliadas, revistas e aplicadas a cada caso real.

Gordon começa por falar em satisfação de necessidades, de imediato salta à vista um dos pilares da psicologia humanista: Abraham Maslow e a pirâmide motivacional, aqui remeto para uma pesquisa no Google, pois creio que é por demais conhecida essa tese. Onde parece existir novidade é no postulado de que “eu tentarei ouvir-te e aceitar-te verdadeiramente para facilitar o encontrares as tuas próprias soluções, em vez de dependeres das minhas”. Em primeiro lugar, a capacidade de escuta, que não se resume a ouvir com atenção o outro, mas em devolver-lhe o que resultou da nossa compreensão acerca daquilo que nos disse. Parecendo uma atitude fácil, é bastante mais complexa, resultando nas mais das vezes em equívocos e discussões. O centramento de quem escuta deverá ser prioritariamente no outro e não em si próprio, se escuto “és uma besta”, facilmente me centro em mim e respondo “não sou não, tu é que és”, ao invés de dizer “estás bastante irritada/o comigo a ponto de me insultar”. Não é tão simples deixarmos o nosso umbigo, para passarmos a entender o que o outro nos está a querer verdadeiramente transmitir. No entanto se atingirmos esse patamar, facilmente desabrochará uma outra atitude em nós e a que Gordon também alude, a de aceitar o outro naquilo que ele é naquele momento. Reportando-me ao diálogo anterior, se eu responder do segundo modo, estou a revelar não só compreensão mas também, provavelmente aceitação do “modus vivendi” do outro naquele momento. Não o procurarei socorrer, ajudar, repreender ou aliviar com frases do género “não te devias sentir assim” “olha que isso é mau” “isso passa” ou etc. Embora qualquer uma destas saídas seja melhor do que o ripostar irado, ainda assim nenhuma delas é inteiramente aceitante do estado actual do outro. Se ouvirmos adequadamente e revelarmos capacidade de aceitação, é provável que o outro se torne progressivamente mais capaz de encontrar as soluções para os seus problemas, nem que seja trocar-nos por outra pessoa J . Como compreendem, face ao actual estado de relações sociais e à forma manipuladora, dependente, possessiva, passiva e agressiva como a grande maioria delas se regem, o postulado de Gordon parece claramente utópico.

Surge uma outra questão, que é a da independência nos relacionamentos. O que é isso, de que forma agir, como ser, etc. Não creio que exista uma solução mágica para este problema, cada um terá a sua medida. As declarações de independência de nada servem nas relações, aquilo que parece servir é a confrontação honesta e aberta de necessidades individuais por oposição às necessidades do casal. A palavra confrontação já é para muitos um problema, pelo que nem pensar em passar à acção, tudo a bem do relacionamento. No entanto, essa falta de diálogo aberto e honesto, só gera abafamento, opacidade, alienação, apatia. Novamente a capacidade comunicacional de ambos os elementos a ser posta em causa, como já o é no caso da escuta/devolução da compreensão do que se escutou. Se passarmos de um paradigma a outro, decorrerá dessa atitude, o acreditar no outro e nas suas potencialidades, a confiança, a compreensão mútua, o crescimento como casal e como individuo. Pode também acontecer que espíritos mais teimosos achem que já está tudo descoberto e que mais nada vejam naquela pessoa e aí… Devo dizer que o atingir deste patamar, só pode resultar de um claro investimento pessoal na capacidade de escutar e perceber o que o outro nos diz. Se eu não me percebo furioso, como hei-de perceber que o outro o está? A compreensão do outro está sempre dentro de mim também, só me compreendendo consigo perceber o outro e comunicar-lhe que o estou a perceber, de modo a que o outro se sinta compreendido.

Não fora uma análise mais atenta do texto e ficaríamos com a sensação de que em se tratando apenas da satisfação de necessidades, tudo isso parece ter uma carga ainda algo primitiva, sobretudo para quem considera o “amor” como algo mais elevado do que a satisfação de uma necessidade, mas não vou entrar por retóricas, sobretudo para os que ainda colocam o amor relacional num pedestal e como objectivo final das suas vidas. Gordon é bem claro, o objectivo final é a evolução e o crescimento pessoal de cada individuo. Só “cuidando” de nós, estamos aptos a relacionarmos a níveis mais profundos com outros, embora algumas pessoas creiam que é em cuidar dos outros – e menosprezando-nos a nós próprios – que está o benefício de toda uma vida. Evidentemente que o mais alto desígnio de ser humano é poder cuidar de outros, conquanto que tenhamos o devido respeito connosco próprios também, e que não cuidemos dos outros como pobres, menores e coitados, mas como pessoas que aceitamos e amamos, tanto como a nós mesmos. Não estou a afirmar que o relacionamento amoroso é um caso particular de relação de ajuda, aliás longe disso deve andar. Já existe que chegue de quem queira “ajudar” os respectivos parceiros, sobretudo quando não sabe como se ajudar a si próprio ou pelo contrário acha que tem muita boa noção de como o fazer em relação a si mesmo, e como tal decide partir para a relação médico-paciente, que já descrevi nalguns artigos atrás. Se leram bem o texto de Gordon, certamente perceberam o quanto as atitudes de escuta, compreensão, aceitação, franqueza, promoção do nosso crescimento e dos outros que amamos, parecem andar afastadas das nossas vidas.