outubro 26, 2005

Estamos á mercê?

Caranguejo é a primeira estação aquática, seguindo-se Escorpião e Peixes, todavia é a quarta etapa evolucionária, que começou em Carneiro. Mas sendo a primeira de Água, assume particular importância o seu conteúdo, como aliás é designada no estudo psicológico do homem, a fase da infância. O primeiro contacto com o reservatório de emoções será determinante para o desabrochar do ser em todo o seu potencial, colorindo toda a personalidade. Todos temos casa 4 no mapa, uns com cúspide em Virgem, outros em Leão, etc, em função do Ascendente de cada um. Existem portanto 12 hipóteses, no entanto, se analisarmos o regente da casa 4, que poderá estar em Escorpião – sendo Plutão portanto – isso fornece-nos muito mais pistas sobre o tema Caranguejo no mapa. Para que o tema fique completo temos que verificar se existem planetas em Caranguejo, qual é o regente da casa 4, que aspectos faz a outros planetas (se Plutão, no caso citado estiver em aspecto com Lua, isso passa a ser da maior importância no mapa) e também, onde está a Lua e que aspectos faz com outros planetas. Ou seja, a questão é de tal modo complexa que qualquer análise é sempre redutora da realidade, mas é partindo de algo que chegamos a outro lado, há que começar.

O reservatório de emoções descrito pelo tema de Caranguejo/Lua/casa 4, tanto pode ser uma água parada e pantanosa, como um rio permanentemente renovado e fresco. Independentemente do que aconteceu na infância – se entendermos não recuar mais atrás no nosso percurso evolucionário – estamos à mercê ou somos plenamente responsáveis por cada passo das nossas vidas? Será que cada encontro, cada acontecimento, tem um significado concreto nelas? Atraímos alguém ou algum acontecimento às nossas vidas por mero acaso? Ou estaríamos a precisar desse alguém ou de algo para que alguma coisa acontecesse dentro de nós? Se estivermos conscientes dessa noção, saberemos aproveitar o que veio e saberemos porque atraímos a situação ou pessoa. Caso contrário, a experiência repetir-se-á até que a “lição” seja aprendida e a nossa evolução possa prosseguir. Tudo parece ser consequência das nossas necessidades interiores, cujo objectivo último é a evolução do nosso ser. Só conhecendo o nosso interior, podemos estar conscientes do que/quem atraímos e porquê. Existe um fenómeno psicológico chamado de distorção, esse fenómeno é consequência da repressão (armazenamento deficitário) dos acontecimentos na consciência, que por sua vez geram a distorção dos mesmos acontecimentos a gravar no inconsciente. Muito simples: se algo foi mal interpretado, vai ser mal gravado, e se foi mal gravado, irá ser mal reproduzido, fazemos o que fazemos mas não sabemos porquê e então questionamos “porquê eu” “Deus não é justo” “eu não merecia isto” etc. Se tivermos conhecimento das nossas distorções, podemos começar a atrair o que é verdadeiramente bom para nós e desse modo “actualizar as nossas possibilidades, o nosso potencial” ao nível relacional, profissional, pessoal, familiar.

Em última análise, se compreendermos que somos seres limitados no espaço e no tempo de que dispomos, rapidamente percebermos que não há vítimas, somos sempre responsáveis por aquilo que nos acontece. Importa perceber o que vai dentro de nós, as nossas raízes e é essa a grande questão de Caranguejo. A dinâmica simbólica do animal associado é a de que temos que andar para trás, para seguir em frente, mais ajuizado não poderia ser, olharmos o passado emocional é fundamental para a nossa evolução e crescimento. Conhecer as nossas emoções, só é possível através da volta ao que está armazenado, ao reservatório emocional representado por Caranguejo. Dado que isso é um acontecimento sempre doloroso, as mais das vezes negamo-nos a fazê-lo, todavia é esse o caminho do crescimento, “o que arde cura” como diz Gabriel, o Pensador.

A própria colocação da casa 4 no mapa, como sendo o fundo do mapa, as “raízes” do mapa, que afinal de contas são as nossas raízes - porque os mapas são pessoas - demonstra esta tese, de que é necessário olhar para trás (para dentro talvez seja mais correcto) , de modo a seguir em frente. As emoções não estão no futuro, e no presente, está a capacidade em lidar com as mesmas, na medida em que se resgataram do passado, do fundo da psique, que representa um passado imaginário, mas que é intemporal. O inconsciente não conhece passado nem presente, vejam-se os sonhos que são vivenciados por nós como se lá estivéssemos presentes, naquilo que para nós é naquele momento em sonhamos o presente, apesar de poderem ser sonhos algo futuristas J

Quando questiono se estamos à mercê do nosso passado emocional, esteja ele a que distância se considere e mesmo considerando que o Inconsciente não conhece passados, quero dizer que não somos propriamente alheios a esse passado, em última análise somos responsáveis por ele, dado que os acontecimentos passaram-se foi connosco e não com o vizinho do lado. É sobre esse património emocional que podemos trabalhar, de molde a poder reganhar não só o nosso presente como também o futuro. Disso depende toda a nossa saúde física e psicológica, e em última análise, o impacto que teremos na nossa passagem pela vida. Uma árvore sem raízes fortes e sem terreno firme, rapidamente vai ao chão. Um terreno sem árvores, rapidamente se torna num deserto. Estamos á mercê?

Um esclarecimento astrológico

Tenho recebido alguns mails de pessoas que se sentem visadas pelo que escrevo, não no mau sentido, mas sobretudo porque não se identificam com a problemática do seu signo pessoal. Gostaria de esclarecer um pouco mais esta questão. A minha visão da astrologia não é tanto a de descrever carácteres, mas utilizá-la como ferramenta de análise, avaliação e crescimento pessoal. A astrologia não me descreve, sou eu que me descrevo e me mudo, socorrendo-me daquilo que encontro nesse saber (e noutros). Embora esta visão me sirva a mim, poderá no entanto não servir a outros, pelo que amplio isso a tudo o que escrevo neste blog. Aquilo que escrevo e em que acredito no momento, serve-me a mim e não pretende servir de postulado ou teoria para ninguém, eu próprio tento permanecer aberto á realidade, nunca em função de teorias. Se escrevo sobre estes temas, naturalmente me interesso por eles e sei que outros podem partilhar desse interesse, no que não estou absolutamente interessado é em criar dogmas. Eu penso por mim e partilho os meus pensamentos, forma de vivenciar e teorias, mas permaneço aberto ao Outro e ao que tem para me dizer, aliás não fora a minha principal ocupação profissional a de ajudar os outros a crescerem.

Devo admitir que sobretudo na vertente astrológica, este blog não está escrito tanto para iniciados, embora também não o seja para experts, digamos que será para pessoas que já tem algum conhecimento médio da astrologia. Como tal, se escrevo sobre Sagitário, por exemplo, essas pessoas saberão que me refiro ao signo, a Júpiter a à casa 9, porque todas estas questões estão interligadas com a problemática de Sagitário. E por Sagitarianos, entendo não sómente as pessoas do signo, como todos aqueles que tem Júpiter proeminente no horóscopo ou com casas 9 fortemente ocupadas, sobretudo por planetas pessoais. Como tal, se me refiro ao signo A ou B, estou-me a referir a toda a trama astrológica associada a esse signo (regentes, casas, etc), e não de modo particular ao indíviduo que é exclusivamente desse signo. Existem pessoas que vem ao blog ler sobre o seu signo, após o que deixam de vir. Não só perdem os magnifícos :) artigos que escrevo, como perdem a possibilidade de aumentar o seu saber sobre toda a terminologia associada à sua caracterização. Se estamos a falar de um Capricorniano homem com Sol, Mercúrio e Marte em Capricórnio na casa 7, temos que ler sobre Balança, para perceber melhor a dinâmica desse individuo. Se tenho Vénus em Peixes ou em aspecto com Néptuno, devo ler o artigo sobre Peixes e os relacionamentos.

O blog não pretende ensinar astrologia, eu talvez também não seja sempre tão claro como gostaria em relação a todas as matérias que escrevo, mas pretendo apenas discutir ou demonstrar aspectos que me parecem válidos para os objectivos e temas que me proponho, nomeadamente o crescimento pessoal e os relacionamentos (eixo casa 1-casa7). Todos os restantes eixos do mapa astrológico, não sendo menos importantes, serão aqui tratados mais lateralmente. Bem hajam e continuem a enviar os vossos comentários acerca do que considerem pertinente, o que aliás já me tem servido para posteriores artigos, pois é através desta dialética entre mim e o outro, que se processa o crescimento pessoal de ambos, e é nisso que o psicótico está empenhado.

VOCÊ É...

VOCÊ É...
Você é forte quando apanha a sua mágoa e ensina a sorrir.
Você é corajoso quando supera o seu temor e ajuda os outros a fazer o mesmo.
Você é feliz quando vê uma flor e se sente abençoado.
Você é amoroso quando sua própria dor não o torna cego à dor dos outros.
Você é sábio quando conhece os limites da sua sabedoria.
Você é verdadeiro quando admite que há vezes em que você se engana.
Você está vivo quando a esperança de amanhã significa mais para você do que o erro de ontem.
Você é livre quando tem o controlo de si mesmo e não deseja controlar os outros.
Você é honrado quando descobre que sua honra é honrar os outros.
Você é generoso quando pode receber tão docemente quanto pode dar.
Você é humilde quando você não sabe como pode ser humilhado.
Você é atencioso quando me vê exactamente como sou e me trata exactamente como você é.
Você é misericordioso quando perdoa nos outros as faltas que condena em si mesmo.
Você é belo quando não precisa que um espelho lhe conte.
Você é rico quando nunca precisa mais do que o que tem.
Você é você quando está em paz com quem você não é.

Tinha este texto já guardado há algum tempo que recebi do meu amigo Horácio, para partilhar convosco...

Um credo para o meu relacionamento contigo

“Tu e eu temos um relacionamento a que dou valor e quero manter. No entanto, cada um de nós é uma pessoa, diferente, com necessidades únicas e com o direito de satisfazer essas necessidades. Quando estiveres com dificuldade em satisfazer as tuas necessidades, eu tentarei ouvir-te e aceitar-te verdadeiramente para facilitar o encontrares as tuas próprias soluções, em vez de dependeres das minhas. Eu também respeitarei o direito de escolheres as tuas próprias crenças e desenvolveres os teus próprios valores, ainda que diferentes dos meus. No entanto, quando o teu comportamento interferir com aquilo que eu preciso de fazer para satisfazer as minhas próprias necessidades, eu dir-te-ei aberta e honestamente, como ele me afecta, confiando que respeites as minhas necessidades e sentimentos o suficiente para tentar mudar esse comportamento inaceitável para mim. Também espero que, sempre que o meu comportamento for inaceitável para ti, mo digas aberta e honestamente, para que assim eu o tente mudar. Nessa altura, quando descobrirmos que nenhum de nós consegue mudar para satisfazer as necessidades do outro, vamos reconhecer que temos um conflito e comprometer-nos a resolvê-lo sem que nenhum de nós recorra ao uso do poder ou autoridade para ganhar á custa do outro perder. Eu respeito as tuas necessidades mas também preciso de respeitar as minhas. Por isso, vamos sempre esforçar-nos por encontrar uma solução que seja aceitável para nós os dois. As tuas necessidades serão satisfeitas, e as minhas também - nenhum de nós perderá - ambos ganharemos. Desta maneira, tu podes continuar a desenvolver-te como pessoa, através da satisfação das tuas necessidades, e eu também. Assim, o nosso relacionamento pode ser saudável, e nele ambos nos podemos empenhar para nos tornarmos naquilo que somos capazes de ser. Poderemos, assim, continuar o nosso relacionamento no respeito mútuo, com amor e paz.” Thomas Gordon

Thomas Gordon é um psicólogo da escola humanista, discípulo de Carl Rogers e da Abordagem Centrada na Pessoa, abordagem na qual o escriba do Psicótico fez também a sua formação como terapeuta. Se estão lembrados, uma das temáticas do blog é a dos relacionamentos amorosos, e este artigo, embora aplicável aos relacionamentos em geral, tem particular interesse para o tema. Farei uma abordagem tendo em conta pontos que me parecem de interesse, e que tem suscitado algumas questões da parte de pessoas que o tem lido e de quem recebi feedback. Como todas as teorias, o que está escrito assume quase sempre - indevidamente diga-se - letra de lei. Este caso não é excepção, mas creio que as teorias existem pela necessidade de analisar e sintetizar algo que dificilmente se pode encaixar em modelos. As teorias não perdem valor pelo facto de se revelarem utópicas, perdem-no sim quando não são devidamente avaliadas, revistas e aplicadas a cada caso real.

Gordon começa por falar em satisfação de necessidades, de imediato salta à vista um dos pilares da psicologia humanista: Abraham Maslow e a pirâmide motivacional, aqui remeto para uma pesquisa no Google, pois creio que é por demais conhecida essa tese. Onde parece existir novidade é no postulado de que “eu tentarei ouvir-te e aceitar-te verdadeiramente para facilitar o encontrares as tuas próprias soluções, em vez de dependeres das minhas”. Em primeiro lugar, a capacidade de escuta, que não se resume a ouvir com atenção o outro, mas em devolver-lhe o que resultou da nossa compreensão acerca daquilo que nos disse. Parecendo uma atitude fácil, é bastante mais complexa, resultando nas mais das vezes em equívocos e discussões. O centramento de quem escuta deverá ser prioritariamente no outro e não em si próprio, se escuto “és uma besta”, facilmente me centro em mim e respondo “não sou não, tu é que és”, ao invés de dizer “estás bastante irritada/o comigo a ponto de me insultar”. Não é tão simples deixarmos o nosso umbigo, para passarmos a entender o que o outro nos está a querer verdadeiramente transmitir. No entanto se atingirmos esse patamar, facilmente desabrochará uma outra atitude em nós e a que Gordon também alude, a de aceitar o outro naquilo que ele é naquele momento. Reportando-me ao diálogo anterior, se eu responder do segundo modo, estou a revelar não só compreensão mas também, provavelmente aceitação do “modus vivendi” do outro naquele momento. Não o procurarei socorrer, ajudar, repreender ou aliviar com frases do género “não te devias sentir assim” “olha que isso é mau” “isso passa” ou etc. Embora qualquer uma destas saídas seja melhor do que o ripostar irado, ainda assim nenhuma delas é inteiramente aceitante do estado actual do outro. Se ouvirmos adequadamente e revelarmos capacidade de aceitação, é provável que o outro se torne progressivamente mais capaz de encontrar as soluções para os seus problemas, nem que seja trocar-nos por outra pessoa J . Como compreendem, face ao actual estado de relações sociais e à forma manipuladora, dependente, possessiva, passiva e agressiva como a grande maioria delas se regem, o postulado de Gordon parece claramente utópico.

Surge uma outra questão, que é a da independência nos relacionamentos. O que é isso, de que forma agir, como ser, etc. Não creio que exista uma solução mágica para este problema, cada um terá a sua medida. As declarações de independência de nada servem nas relações, aquilo que parece servir é a confrontação honesta e aberta de necessidades individuais por oposição às necessidades do casal. A palavra confrontação já é para muitos um problema, pelo que nem pensar em passar à acção, tudo a bem do relacionamento. No entanto, essa falta de diálogo aberto e honesto, só gera abafamento, opacidade, alienação, apatia. Novamente a capacidade comunicacional de ambos os elementos a ser posta em causa, como já o é no caso da escuta/devolução da compreensão do que se escutou. Se passarmos de um paradigma a outro, decorrerá dessa atitude, o acreditar no outro e nas suas potencialidades, a confiança, a compreensão mútua, o crescimento como casal e como individuo. Pode também acontecer que espíritos mais teimosos achem que já está tudo descoberto e que mais nada vejam naquela pessoa e aí… Devo dizer que o atingir deste patamar, só pode resultar de um claro investimento pessoal na capacidade de escutar e perceber o que o outro nos diz. Se eu não me percebo furioso, como hei-de perceber que o outro o está? A compreensão do outro está sempre dentro de mim também, só me compreendendo consigo perceber o outro e comunicar-lhe que o estou a perceber, de modo a que o outro se sinta compreendido.

Não fora uma análise mais atenta do texto e ficaríamos com a sensação de que em se tratando apenas da satisfação de necessidades, tudo isso parece ter uma carga ainda algo primitiva, sobretudo para quem considera o “amor” como algo mais elevado do que a satisfação de uma necessidade, mas não vou entrar por retóricas, sobretudo para os que ainda colocam o amor relacional num pedestal e como objectivo final das suas vidas. Gordon é bem claro, o objectivo final é a evolução e o crescimento pessoal de cada individuo. Só “cuidando” de nós, estamos aptos a relacionarmos a níveis mais profundos com outros, embora algumas pessoas creiam que é em cuidar dos outros – e menosprezando-nos a nós próprios – que está o benefício de toda uma vida. Evidentemente que o mais alto desígnio de ser humano é poder cuidar de outros, conquanto que tenhamos o devido respeito connosco próprios também, e que não cuidemos dos outros como pobres, menores e coitados, mas como pessoas que aceitamos e amamos, tanto como a nós mesmos. Não estou a afirmar que o relacionamento amoroso é um caso particular de relação de ajuda, aliás longe disso deve andar. Já existe que chegue de quem queira “ajudar” os respectivos parceiros, sobretudo quando não sabe como se ajudar a si próprio ou pelo contrário acha que tem muita boa noção de como o fazer em relação a si mesmo, e como tal decide partir para a relação médico-paciente, que já descrevi nalguns artigos atrás. Se leram bem o texto de Gordon, certamente perceberam o quanto as atitudes de escuta, compreensão, aceitação, franqueza, promoção do nosso crescimento e dos outros que amamos, parecem andar afastadas das nossas vidas.

julho 03, 2005

Curar, Corrigir ou Crescer

Este artigo tem mais que ver com a filosofia na abordagem da relação de ajuda, do que propriamente com este ou aquele signo. Subjacente está o propósito do Psicótico de tentar abordar diversas visões que digam respeito à busca pessoal, quer do ponto de vista de quem a faz, quer daquele que eventualmente a pode facilitar. Alguém que se busque conhecer/experienciar mais profundamente está a activar as suas forças de autocura, é o terapeuta de si próprio nesse momento, outrem que facilite essa busca, também aprende e por esse meio se poderá vir a curar a si próprio, em função dessa aprendizagem. Dum ponto de vista estritamente espiritual, e creio que esta é cada vez mais uma verdade percebida e incorporada por todos os “alternativos”, a cura ocorre quando o cliente “quer” ou quando está “pronto”, e não quando o facilitador deseja, pelo que se não existe vontade real e profunda de cura da parte de quem sofre, pouco ou nada mudará, não obstante os esforços e o dinheiro envolvidos.

Todavia não parece ainda possível comprovar isso de modo científico. De um modo lato, a ciência proclama que “70% das possibilidades de cura dependem da relação terapeuta-cliente e dos recursos (internos) do cliente”. Esta situação subentende estudos aprofundados da dinâmica relacional terapeuta-cliente, os quais existem de forma mais ou menos abundante, assim como o estudo de como os recursos internos do cliente influem nas possibilidades de cura. Neste último caso, parece a ciência ainda não ter encontrado respostas precisas, provavelmente porque tudo o que diz respeito ao espiritual, permanece em larga medida alheio à possibilidade de mensuração de modo quantitativo e até talvez, qualitativo.

Ao nível das práticas da relação de ajuda coexistem modelos herdados de outras relações médico-paciente. O modelo curativo ligado à visão mecanicista do homem, está hoje em dia postulado na actuação duma parte dos praticantes da psiquiatria. Uma sociedade em busca de procedimentos que sejam rápidos, efectivos e de baixo custo, é a mesma que inventou os electro-choques, as lobotomias (à custa das quais um português ganhou um prémio Nobel), e finalmente o ansiolítico, o antidepressivo, e outros similares. Indubitavelmente os progressos na farmacêutica tiveram um impacto positivo na condição de sobrevida de muitos pacientes, mas parece claramente exagerada a facilidade com que se receita este tipo de medicamentação. Infelizmente a vida na sociedade actual está neste pé, toma-se uma aspirina e já está, é esse o sentimento do cidadão comum que busca a solução milagrosa, o viver apressou-se e quem ficar para trás, está-se a condenar. Creio no entanto que uma certa visão humanista da medicina se esteja deturpando, uma parte da classe médica está neste momento mais preocupada com questões que pouco tem que ver com o juramento de Hipócrates. A indústria farmacêutica parece também estar estreitamente ligada a esta questão, pressionando ou pelo menos influenciando na venda de medicamentos. Não obstante se conhecerem os impactos na dependência física e psicológica, na vida emocional, psíquica, física e sexual dos pacientes receitados com medicamentos "mentais", o seu consumo não pára de crescer e já quase não existe família portuguesa onde uma ou mais pessoas não estejam completamente dependentes do consumo de ansiolíticos ou antidepressivos. Dependência é ilusão, como aliás referi em todos os artigos de Peixes, enquanto não se parar com a ilusão, não há auto responsabilização,nem crescimento, muito menos existirá cura.

Se ao nível físico a tentaiva de cura tem sido o paradigma e a utopia, e falo em utopia porque conhecendo-se a cada vez maior percentagem de doenças que tem características psicossomáticas, seria de apontar os esforços no sentido sensibilizar e poder proporcionar melhores condições psíquicas aos pacientes. A saúde arruína-se porque o corpo cede perante a pressão interior, ainda que aparentemente as causas possam ser encontradas no exterior. É a incapacidade que o organismo tem para reagir, que leva o corpo a dar uma nota de que algo vai mal, que leva o corpo a “falar”, através da doença.

Mas é justamente ai que reside o problema, mais tarde ou mais cedo quebrarão, todos aqueles que estão mal preparados pelas condições de vida a que foram ou estão sujeitos. Todos os que estão agarrados a predicados errados serão confrontados com as decisões que tomaram. Se o equilíbrio e a saúde advém de uma série de factores que tem que ver com estima, com segurança interior, com dinâmica interna, com capacidade de expressão emocional, que sentido faz continuar a gastar dinheiro em cosméticos arranjos exteriores, quando o que existe "dentro" de cada um é que necessita de ajustamento? Uma das questões tem que ver justamente com a gestão dos tempos, com o equílibrio entre o descanso físico, o tempo pessoal, o tempo relacional e o tempo laboral. Se as oportunidades para avançar em termos de crescimento pessoal são cada vez maiores, o tempo de que dispomos para o fazer parece cada vez mais curto, sobretudo numa sociedade que exige de todos de um modo colectivo, mas que depois esquece o individuo, existem pessoas, mas não existe a pessoa.


Sem desejar instaurar aqui uma atitude dogmática, é minha opinião que o problema psicológico dificilmente tem uma cura no sentido estreito do termo. Mesmo ao nível físico, se sofro um corte na pele, fica lá uma cicatriz, mas não existe o estado zero, não volta tudo ao que era anteriormente. Ao nível psicológico, parece existir isso sim, um reajustamento na capacidade de agir perante a vida, altera-se o viver das circunstãncias daquele que buscou ajuda para o seu sofrimento ou efectuou alguma outra forma de crescimento pessoal. Não se apagam vestígios ou traumas por decreto, não há milagres e é de desconfiar de quem os prometa. A ferida psicológica é como um prego num pedaço de madeira, ao arrancá-lo fica um buraco, também a psique ganha feridas e pode cicatrizar, no entanto, da psique nada desaparece, a não ser é claro por acidente físico que danifique os tecidos ou intervenção cirúrgica. A memória não o permite e se o faz, raramente é de modo permanente. Deste modo, parece claro que todo o circuito ligado à cura psicológica com base na receita médica, se encontra desadequado. O paradigma não será o de curar, mas o de fazer crescer. A profusão de métodos de auto-desenvolvimento também não tem contribuído para a melhora da imagem de credibilidade que as profissões de ajuda parecem necessitar. Métodos esses que na grande maioria dos casos são também meras panaceias, pois que a grande maioria deles exigiria já uma boa dose de equilíbrio mental, para que realmente pudessem aspirar a beneficiar o cliente com todo o seu potencial. Mas pelo menos não se recorre ao uso de drogas, isso já é um dado positivo. Na maoir parte dessas disciplinas o trabalho é efectuado com o próprio corpo, permitindo que haja um maior enraizamento do paciente, consequentemente trazendo-o mais para terra, mais para a autoresponsabilização. Isso já e bom, mas receio que ainda seja incompleto. Todavia esse será objecto de análise mais aprofundado em artigos posteriores.

Caranguejo parte I

Tenho vindo a descrever as diversas etapas do Zodíaco como se de alguém se tratasse, esse ser imaginário começou a ser descrito com Carneiro, como se a vida ou as vidas pudessem ser ciclos evolucionários, Carneiro, a força bruta que expele para fora, Touro a consciência de ter que subsistir, de perceber que meios (e valores) se têm e de quais se necessitam, Gémeos, criando um novo ciclo de expansão pelo cultivo da mente e da Razão, em Caranguejo, um novo ciclo de retracção, mais virado para o interior, onde se tentam discriminar emoções e sentimentos, as emoções como reacção aos sentimentos, a criança começou a ter consciência de que tem emoções. No Zodíaco a vida parece andar em continuo acto de expansão-contracção, aliás essa parece ser a dinâmica do próprio Universo, com as partículas quânticas num movimento de contínuo de On/Off, tal como a ciência tem vindo a explicar (ver artigos de Deepak Chopra). Chegamos a um ciclo de viragem para o interior, é dentro de si que o indivíduo tende a ir em busca de respostas, dentro do seu quadro emocional. Contudo esta etapa da viagem evolucionária tem um cariz muito especial, é uma parte muito delicada, que a sociedade parece não estar claramente habilitada a entender, não obstante todo o esforço que se tem posto na divulgação de novos métodos educacionais.

È curioso como a mente (Gémeos) anda tão próxima das emoções (Caranguejo), no entanto é sobre a primeira que tudo roda, todas as faculdades iniciais da criança são voltadas para o trabalho da mente, quando a criança se começa a exprimir em termos emocionais, é aqui que claramente começa a falhar todo o processo natural de crescimento e é neste preciso momento que se vão estabelecer uma grande parte das dificuldades que posteriormente surgirão na vida adulta. Posso partilhar de duas visões aqui, uma mais terrena em que apenas vemos os acontecimentos como fruto de uma só vida e ai poderemos ser tentados a culpar o ambiente, a família, a cultura etc, e perpetua-se um esquema de vitimização, ou da plena escolha do espírito que em livre arbítrio escolhe as dificuldades que enfrenta de modo a que lhe seja dadas as possibilidades de evoluir. Aparentemente não são visões compatíveis, aliás a ciência psicológica andou largo tempo de costas voltadas para a espiritualidade e de facto podemos considerar que cem anos de investigação, mesmo ao ritmo a que se produz, é ainda muito pouco tempo, quando comparado com a dimensão espaço-temporal do Universo. Todos gostaríamos de ter mais certezas, e essa é quase uma demanda deste signo, certezas que confiram segurança.

Se discutirmos um pouco a base da insegurança talvez se possa descobrir uma forte componente emocional nisso, não foi seguro numa determinada fase do desenvolvimento ser-se com se era, não se era aceite pelo que se era, se o menino chora “não chora porque é feio”, se diz que está com medo “não há nada de que ter medo”, as certezas que o adulto quer transpor para uma criança, porque ele próprio não está preparado para as aceitar em si, não se permite ser inseguro, chorar. E continua assim pela vida fora, se o outro está mal, oferecemos soluções, minimizamos, ridicularizamos, etc, fazemos tudo menos entender o que o outro está realmente a querer comunicar, porque estamos largamente incapacitados para compreender as emoções desse outro. Porque não compreendemos as nossas próprias emoções, porque no momento em que quisemos exprimi-las foi-nos vedada uma maneira segura de o fazer, foi-nos devolvida uma qualquer resposta com base na razão do outro, e esse mecanismo foi-se atrofiando em mim, isso gera uma insegurança tremenda, e tudo o que me gera esse sentimento eu vou tentar esconder, eliminar, distorcer, porque fui condicionado a que não era seguro exprimir o meu sentimento, a minha emoção, a minha carga emocional. Ensinaram-me a contar, a ter ambição, a ser competitivo, mas não me ensinaram a sentir, sendo esse um mecanismo natural do organismo que foi ficando atrofiado, o próprio organismo arranjou maneira de se defender distorcendo, negando, reprimindo e assim vamos dolorosamente amputados pela vida fora. Nos consultórios dos profissionais de ajuda, muitas vezes os clientes indagam pela família, porque Freud escreveu que é na criança que começa a distorção, mas assiste-se a uma demanda aflitiva de culpados, na esperança de que se possa descobrir um fio à meada que minore a dor, cuja origem se desconhece. Será que conhecer as origens dessa dor a pode minorar? Até onde teremos que ir para a desenterrar? Será que podemos entender que para que possamos crescer é quase necessário retomar uma aprendizagem de expressão emocional, é necessário “emendar” esse trabalho que não foi feito ou que foi mal feito por negligência, por ausência, por deliberada má fé. Será que a aprendizagem da expressão emocional é a chave? Talvez possa ser uma das chaves. Caranguejo fala do momento em que o indivíduo sente necessidade de segurança interior, segurança essa que pode advir da correcta expressão emocional, e segurança essa que é necessária para enfrentar com determinação e motivação todos os passos de uma vida, por vezes também acidentada. Uma expressão emocional perturbada é geradora de insegurança pessoal, que deriva em baixa estima de si e que obviamente tentaremos colmatar com tudo o que possa ser ilusório, pessoas, empregos, bens, dependências várias, etc. Não será difícil perceber que claramente quase todos somos deficitários neste sentido, ainda que possamos não ter sido nós a escolher este tipo de vida para nós, será que podemos agora fazer algo para a modificar, será que podemos ter consciência que nos leve de volta á auto responsabilização pelo que nos acontece, ou estaremos condenados a ser vítimas? Nem sempre parece fácil, pois a vida por vezes trás acontecimentos que são de facto deveras pesados.

Espero que seja perceptível a mecânica da trama subjacente a Caranguejo, a de não terem existido condições propícias ao correcto desenvolvimento pela atrofia da emoção em detrimento da Razão. E dessa forma, o indivíduo estar “amputado” dessa faculdade e sentir-se inseguro interiormente, ainda que o não mostre por fora, mas que esse sentimento mina e queima por dentro, porque com efeito o indivíduo sente-se incompleto, incapaz de se expressar na sua totalidade e de modo adequado. O resgate das emoções pessoais, através do mergulho do que foi amputado pelas vivências da infância, os “traumas” da infância, mas em que ponto é que eles mexeram, o que é que temos agora que recuperar?

Gostaria de deixar claro que isto é o que está por detrás de Caranguejo, não é necessariamente uma descrição de todas as pessoas deste signo, mas de um modo genérico a problemática das emoções, dos assuntos familiares, da mãe, da nutrição e relação emocional com o Outro são de facto questões deste signo e de toda a restante simbologia associada, nomeadamente a Lua e a casa 4. Basta pensar que podemos não ter nenhum planeta em Caranguejo e ter vários na casa 4, ou vários aspectos à Lua e que vão chamar a atenção e dar uma ideia mais aprofundada de toda esta questão. Se me entenderam bem também, a questão do desenvolvimento pessoal tem mais que ver com a identificação e trabalho sobre as partes de nós que necessitam de trabalho, porque não foram correctamente desenvolvidas, do que propriamente andar numa procura aflitiva de causas e situações, vulgarizada hoje em dia pelas práticas regressivas, as mais das vezes completamente inadequadas, ministradas por pessoas mal preparadas e que mais não são do que meras panaceias aos reais problemas. O desenvolvimento emocional e pessoal passa pela corajosa abertura aos problemas internos, surgindo dessa forma a abertura para uma mudança, em que é necessária confiança para que a mesma ocorra, sendo dessa confiança que surge depois a segurança interior com que se encara o mundo externo.

junho 19, 2005

A química do encontro

A escolha dos parceiros amorosos permanece um mistério, ainda que sejam várias as contribuições para a solução, vindas de diversos campos da ciência. Um ponto parece indubitável, somos seres que entram em relação porque precisamos do Outro para vários fins, temos necessidades que necessitam de ser satisfeitas. As necessidades são de vária ordem, desde o patamar básico (alimentação, sexualidade, etc.) até às de ordem mais elaborada (auto-realização, amor, respeito, etc.). Se o instinto e a necessidade de sobrevivência parecem ter presidido às decisões de cooperação e associação nos primórdios da humanidade, o período civilizacional ditou a existência de novas necessidades a ser satisfeitas.

Uma contribuição da biologia, é a de que anatomicamente o cérebro primário regula todas as funções instintivas do ser humano e o instinto de sobrevivência manifesta-se também na perpetuação da espécie. Uma das razões para a existência do acto sexual parece residir na necessidade de evolução constante do sistema imunitário do organismo, que caso a reprodução fosse asexuada se veria impossibilitado de o fazer, debilitando a espécie e pondo em risco a sobrevivência, portanto parece claro que o instinto sexual é algo primário, devendo a noção de primário ser aqui vista apenas como uma mecanismo inato à sobrevivência e não de forma distorcida ou moral, como faz crer Allan Bloom em Amor e Amizade quando diz que “aquilo que a sociedade lhe faz (ao sexo) é distorcê-lo, reprimi-lo e, consequentemente, intrometê-lo, como um intruso, em todas as áreas da vida”.

O decifrar de uma lei universal da atracção, leva a identificar entre outros, um mecanismo primário que despoleta essa atracção, em que uma reacção subconsciente à secreção de feromonas, que emitem um aroma, leva os parceiros a reagirem. Através desta “pista” biológica seleccionamos parceiros de quem teremos rebentos mais evoluídos em termos de sistema imunitário, garantindo a sobrevivência da espécie. O cheiro parece ser de facto uma componente fundamental na escolha dos parceiros. Isso verifica-se por exemplo através do beijo, em que o nariz praticamente está encostado à pele do outro, e o prazer do beijo sendo aparentemente apenas gustativo, tem uma componente olfactiva fortíssima. Aliás quando estamos constipados, temos pouco odor e pouco sabor, precisamente porque a função odorífera está obstruída. Dai dizermos que há “química”, precisamente porque existem funções “primárias” que determinam essa atracção, aliás Helen Fisher em Why we love. The Nature and Chemistry of Romantic Love, fornece evidências sobre o papel da dopamina (cujos níveis altos são também encontrados nas dependências) na paixão, da vasopressina e oxitocina, que aumentam brutalmente durante o orgasmo e que parecem conduzir a sentimentos de satisfação e aprofundamento de ligação, determinando na sexualidade mais que a gratificação de instintos em bruto, mas também a solidificação de vínculos afectivos.

Astrologicamente, as necessidades instintivas de sobrevivência relacionam-se com Touro e com a casa 2, o arquétipo do que já possuímos para sobreviver mas ao mesmo tempo e que de modo dual identifica também aquilo que ainda necessitamos para sobreviver, o qual, dada essa percepção, valorizaremos instantaneamente. Esse atitude paradoxal gera uma crise interna, ao identificarmos aquilo que já temos tornamo-nos auto-sustentados e auto-suficientes, por outro lado ao percebermos aquilo que nos faz falta, isso está correlacionado com aquela parte de nós que procura fora de si próprio de modo a obter ou atrair aquilo de que necessita, e dai a importância da atracção, justamente como forma de obter aquilo que achamos que não temos e que nos faz falta para sobreviver, porque o valorizámos como tal. Jeff Green no seu livro Pluto – The Soul´s evolution through relationships afirma “A paradoxal crise de sobrevivência está enraizada naquilo que o indivíduo já possui, e naquilo que é percebido como necessário (…) está também reflectido na natureza interior de Vénus (Touro) e na natureza exterior ou projectada (Balança), ao nível psicológico, é a crise paradoxal entre a necessidade de auto-suporte e a nossa dependência de outros (relações) para sobreviver.”

O mecanismo de atracção poderá então basear-se também na percepção daquilo que não temos dentro de nós e que percepcionamos/valorizamos como vital para a sobrevivência, sobretudo de uma forma instintiva, no entanto vemos como é algo paradoxal, por um lado a necessidade de nos vermos como solucionadores das nossas necessidades, por outro lado, vermos o outro e o que ele tem, como algo que nos faz falta e que também precisamos para nós. Dessa forma projectamos as necessidades no outro e “identificamos” o outro (ambas questões da casa 7) com base na possibilidade de nos satisfazer essas necessidades que percepcionamos como essenciais.

Face ao molde de educação parental contemporâneo baseado no “dinheiro é tudo”, parece comum que o dinheiro e a segurança material que proporciona, seja o factor de primeira escolha (estatuto sócio económico do homem) do parceiro sexual das mulheres portuguesas, segundo Anália Torres, no seu livro Divórcio em Portugal, até porque também a sociedade parece ainda falhar na igualização dos papéis e das recompensas sociais à mulher. Convém referir que no que à conjugalidade (casamento) diz respeito, o critério amoroso ainda é o que predomina, no entanto considera-se na nossa sociedade que é a atracção, baseada nos mecanismos instintivos e na percepção daquilo que necessitamos, que leva á sexualidade, a qual por sua vez sedimenta o vinculo afectivo e pode levar ao casamento. Desse modo é uma consequência do processo o qual foi largamento determinado pela atracção, através dos mecanismos que atrás descrevemos.

Dinheiro e poder, andando de mão dadas, tornam-se nos dias de hoje claramente nos afrodisíacos mais poderosos, porque é algo a que “instintivamente” ou por repetição da mensagem, as pessoas aspiram. Alguém que perca o seu estatuto económico, perde de imediato capacidade de atracção, o “amor e uma cabana” já não chegam, pelo que a reacção de desapaixonamento é instintiva, levando a que relações recentes terminem rápida e abruptamente, sem que ambos os parceiros consigam até explicar porque é que isso aconteceu, aquele que deixa porque não tem uma noção clara dos motivos, que se tornaram instintivos ou inconscientes, aquele que é deixado, porque não lhos foram claramente comunicados e porque permanece na confusão, embora “até houvesse química”. Dá-se uma atracção com base em mecanismos biológicos ou inconscientes, que se perde face a uma reacção instintiva de insegurança face ao futuro. Porquê? Porque a cultura e a educação tendem a tornar-se factores condicionadores que se enraízam até se tornarem instintivos, algo que de tanto se repetir se incorpora. A mensagem é a de que necessitamos de algo “tens que casar com alguém com dinheiro, senão não sobrevives”que nunca vamos conseguir por nós próprios, portanto “instintivamente” procuraremos através do mecanismo de atrair aquilo que queremos e da projecção, alguém que possa satisfazer essa nossa necessidade, que deixa de ser cultural, para passar a ser instintiva. Ficamos hipnotisados e reféns de uma mensagem que não sendo natural, se torna adquirida pela força da repetição.

Podemos verificar que essa “normalização” do instinto é forçada, quando observamos em cada mapa natal, diferentes regentes da casa 2, com diferentes posições por signo e diferentes aspectos, em que cada um conta uma diferente história pessoal, sobre o que de facto consideramos como aquilo de que “necessitamos” para sobreviver. O grande truque publicitário foi o de justamente tornar instintivo pela repetição, uma necessidade que claramente pode não o ser, nem todas as mulheres precisam de assegurar um marido com estabilidade económica, nem todos os homens tem que ter grandes automóveis, para conquistarem mulheres bonitas. Por outro lado e dado que isso acontece através do mecanismo da valorização, tudo aquilo que não temos e que pensamos que nos faz falta, atribuímos um valor imenso, pelo que tudo faremos para o obter, seja através dos nossos próprios meios (Touro), seja através do mecanismo de atracção, atraindo alguém que possua isso que percepcionamos como nos fazendo falta.

Vimos atrás como a componente química da sexualidade, através da secreção da vasopressina e da oxitocina no momento da excitação sexual e do orgasmo, podem aprofundar a atracção e o sentimento de ligação entre os parceiros, o “amo-te” e o “adoro-te” frequentes na altura do climax. Isso é claramente visível através do arquétipo de Escorpião, que é um arquétipo de sexualidade e ao mesmo tempo de obtenção através do outro, não pelos seus próprios meios (Touro) mas por osmose, daquilo que instintivamente lhe faz falta, pelo que estas duas dinâmicas parecem andar intimamente ligadas, numa vertente não distorcida, em que a sexualidade aprofunda o sentimento de ligação e conduz á satisfação do instinto de sobrevivência através da união com alguém fidedigno. Por outro lado, vemos também através deste arquétipo exemplos de como este mecanismo pode ser distorcido para obter ganhos à custa do outro, o negócio da prostituição (troca de dinheiro por sexo), as e os amantes caras(os), todo o negócio destinado á sedução que a publicidade alimenta de forma engenhosa, que tem como base algo que é instintivo, e sendo dessa forma, temos a sensação que nos faz falta, dai que o procuremos obter a qualquer preço. Dai a percepção de que o sexo é muitas vezes conduzido como uma forma de manipulação, porque está instintivamente associado à sobrevivência, e do que necessitamos para sobreviver, fazemos de tudo para obter. Continuaremos em próximos artigos a tentar aprofundar e clarificar um pouco mais esta dinâmica da atracção e porque escolhemos com quem estamos. O tema de hoje foi claramente centrado no mecanismo mais biológico ou instintivo, mas a astrologia fornece outros padrões que podem também ser levados em conta nesta dinâmica.

Gémeos e os relacionamentos II

Importa fazer alguma distinção no que diz respeito à análise dos planetas nos relacionamentos. Se habitualmente os livros de astrologia aparecem escritos em categorias bem arrumadas, isso fica a dever-se sobretudo à necessidade de sistematização dos autores e de facilitar a leitura. No entanto, à que entender que quando se fala de Vénus ou da forma como a mulher se dá no amor (Vénus-Balança), ou dos valores que perfilha (Vénus-Touro), ou da maneira como o homem projecta as suas características mais femininas e portanto “aquilo” que procura, essa Vénus não pode ser separada do resto do mapa. Se o objectivo das categorizações expostas nos livros de astrologia é o de simplificar, as mais das vezes isso parece levar a uma identificação com um símbolo, sem que contudo se entenda a forma como esse símbolo se encaixa com os outros. Frequentemente oiço “é a minha Vénus em Leão que…”, não só considero isso redutor, como uma atitude quase desresponsabilizante e fatalista perante a dinâmica natal, cujo intuito é o de justamente ser um ponto de partida para a mudança e para a evolução dessa pessoa, mas isto é um pouco desviante em relação ao tema de hoje.

A hipótese que proponho é a de que quanto maior for o número de indicadores de uma determinada tendência, maior será a propensão a que essa tendência ocorra. Se o nativo tem o Sol em Gémeos e não tem mais planeta nenhum, nem na casa 3, nem Gémeos na casa 7, se o Sol não faz aspecto com Vénus ou com o regente da casa 7, então existe uma dinâmica que é geminiana, mas que não é reforçada por nenhum outro aspecto. Podemos dizer que esse nativo é um candidato a ser considerado geminiano no relacionamento? È, sem dúvida, pela posição do Sol que já vai determinar em larga medida a estrutura da personalidade, mas e o resto? Em que cultura nasceu? Em que medida foi condicionado pelo ambiente ou pela família a um papel que pode não se lhe adequar? Espiritualmente em que estado de evolução se encontra? A análise destes indicadores tem que ser levada em conta, até porque cada um deles vai determinar o modo como o nativo irá responder aos desafios que a vida lhe vai propondo.

A definição de relacionamento geminiano pode ser uma coisa vaga, mas como disse no início do psicótico, o objectivo não é o ensino da astrologia, mas o questionamento interior, essa atitude de levar cada um a pensar sobre si, é que considero importante, não o é tanto o encaixar pessoas em predefinições, que rapidamente se tornam em preconceitos. A astrologia facilita a auto análise, sendo que essa auto-análise pode ser o mecanismo percursor da mudança e da evolução, a reflexão parece fornecer um sentido de direcção que é fundamental para implementar as acções de mudança. A astrologia visa facilitar a mudança, e o cuidado dos astrólogos deve ser posto não na criação de atitudes facilitadoras da mudança, isso é o papel do terapeuta, mas no de fazer pensar e questionar, sobre quais os pontos onde essa mudança deve incidir. A própria análise dos trânsitos disso nos dão conta, pois são os momentos onde se faz sentir uma dinâmica que pode ser mudada, melhorada, onde se pode evoluir, crescer. Um mapa de trânsitos não é um conjunto predeterminado de acções ou situações, mas um tempo em que se farão sentir energias específicas que levam o nativo a reflectir e a agir para orientar a sua vida e a forma como a mesma flúi. Não se fica pacífico perante um trânsito, tenta-se fluir com a sua energia, e como no surf, tudo tem um momento certo para acontecer.

O relacionamento parece conter em si as sementes da busca do equílibrio, somos seres relacionais, se por momentos estamos mais no Eu (Carneiro-casa 1) por outras estamos mais preocupados com o Outro (Balança- casa 7), esse parece ser o eixo fundamental de todo o Zodíaco, o eixo 1-7, Eu-Outro, isso é claramente visível na interacção humana, cuja grande dor provem quase sempre da interacção entre o Eu e o Outro.

O gemininano na relação é leve, aliviante, mas pode roçar a superficialidade e a impenetrabilidade. Denota facilidade, mas pode cair na esperteza e na dúvida acerca de si mesmo e dos outros. Vai a “todas” em estilo e agilidade, mas pode derivar no “sabe tudo, mas não compreende nada”. Esta ênfase no saber ainda que superficial (Quinquncio com Escorpião), pode trazer auto-conhecimento se existir humildade (difícil, face à quadratura com Virgem), a máxima socrática “sei que nada sei” é o calcanhar de Aquiles deste signo, dizer a um geminiano que não percebe nada é o maior insulto que se lhe pode fazer, no entanto é de notar que poucos tem de facto a humildade de reconhecer que por vezes estão errados ou simplesmente mal preparados para o que dizem, num relacionamento isso pode fazer azedar as coisas e originar trocas de palavras algo ácidas. Uma outra dificuldade pode residir na relutância em ir directo à verdade (Oposição com Sagitário), uma vez que essa via terminaria com o “saltitar” de relativo em relativo tão interessante para o nativo, mas é preciso não esquecer que esse é um dos seus desafios, descobrir a natureza relativa da verdade. Se a tendência é por vezes a de racionalizar, isso pode ficar a dever-se ao medo de não ser aceite pelo que é, pelo que se trata de uma “fuga” que não se resolve com acusações, mas com verdadeira compreensão e aceitação de si próprio e do parceiro.

O geminiano é uma figura “cool”, ainda que por vezes se possa transformar num bloco de gelo. Detêm um amplo leque de contactos, mas por vezes dá um ar esvoaçante que não se compromete com ninguém em particular. Faz do flirt uma forma de arte embora possa cair na tentação de nele permanecer e evitar qualquer contacto emocional real. É um talento com a palavra, que facilmente se desinteressa pela falta de brilho mental do Outro. Quer manter acesa a chama do Amor, sem que no entanto se transforme no “assentar” demasiado. Se existe um desejo de satisfazer os sentimentos, por outro lado pode existir o medo de realmente os encontrar (Àgua é o elemento faltante ao Ar), pelo que a excessiva racionalização, o ar de quem sabe tudo, o excesso de piadas, são apenas cortinas de fumo para o receio do confronto com o interior. Uma relação é sempre um confronto com o interior, através do mecanismo de projecção, pelo que o geminiano torna a relação fácil, leve e bem humorada, muitas vezes numa espécie de máscara, não só porque gosta de jogar às adivinhas, sendo essa uma forma de manter o interesse, mas porque se impede desse modo de ir demasiado fundo em si.

Mas esta caracterização é sempre vaga, porque se tenho Vénus em Gémeos, onde está o Sol? E a Lua? E o que é que projecto nos relacionamentos, através do signo e planeta regente da casa 7? Utilizem a astrologia para pensarem sobre vós próprios e sobre os outros, e não para os meter em caixinha muito bem arrumadas, apenas porque isso fornece um sentido de segurança. Um dos indicadores do desenvolvimento pessoal, parece ser o da aceitação de uma certa turbulência ou incerteza, de uma certa abertura ao momento e à mudança, tentemos manter vivo esse caminho, até porque a segurança excessiva tem como origem o medo, como veremos em Caranguejo, na semana que vem.

junho 05, 2005

Gémeos e os relacionamentos I

Como vimos no artigo dedicado aos Gémeos (aqui), o padrão interno do nativo parece ser um de auto-conhecimento, através do questionamento e da aprendizagem. A verdade é vista como algo relativo, pelo que o diálogo interno é incansável, no sentido de perceber quem é e também quem é o Outro. O carácter mutável do signo designa uma aprendizagem contínua, o elemento Ar, a vontade de se relacionar, ainda que de forma áerea, e a regência mercuriana que fornece uma predisposição ao pensamento. Podemos falar de uma tendência para relações geminianas quando Sol, Lua ou Ascendente estão em Gémeos, quando Marte ou Vénus se lá encontram, quando a cúspide da casa 7 está no signo, digamos que estes serão os aspectos maiores.

Os geminianos, ou aqueles que pelo posicionamento dos signos relacionais possam ter características desse signo, partilham de características comuns: abertura fácil e amigável ao Outro, abertos às possibilidades, socialmente pouco discriminatórios e bastante aceitantes das diferenças, o que lhes faculta o acesso quase imediato a praticamente todas as pessoas. O lado mais sombrio desta faceta revela-se por vezes num certo sentimento de superioridade intelectual ou mental. O seu entendimento dos sentimentos, baseia-se naquilo que pensam, frequentemente compreendem também o que o Outro está a sentir, através de uma aproximação intelectual.

A componente emoções aparenta estar mais afastada do centro do ser, nos signos de Ar ou em nativos onde predomina o Ar, pelo menos assim o classificou Jung, dado que o acesso às mesmas se faz através do processo mental, antes que pelo valorativo ou sentimental. Digamos que o Ar tende a ver as coisas mais pelo valor facial, pela razão, enquanto que os nativos de Água, parecem ficar toldados pela reacção emocional aos sentimentos. Embora Jung não fosse um cartesiano encartado, o certo é que a maior parte dos seus seguidores o foram, acabando por prolongar uma visão da mente, que é entendida como algo puramente do domínio intelectual, da razão. As pesquisas mais recentes nos domínios da neurobiologia (ver livros de António Damásio) procuram demonstrar que todo o processo racional de tomada de decisões, assenta na existência das emoções. Damásio propõe a hipótese de um marcador somático em que o corpo experimenta antecipadamente sentimentos – sendo as emoções a reacção a esses sentimentos – como reacção a uma decisão vantajosa ou não. Sem essa reacção emocional, a capacidade para tomar decisões é totalmente comprometida. Num outro artigo, Entender a Mente, vimos como a mente é visto como um conjunto de mentes (à semelhança da ciência que classifica a mente em centros cognitivos), não sendo as emoções senão um conjunto de mentes, associado à sensação e à discriminação, algo que está perfeitamente ajustado às teorias de Damásio, sem discriminação, não saberíamos o que é bom ou mau, sem sabermos (organismicamente) o que é bom ou mau, ou seja, não existindo o marcador somático, é impossível tomar decisões racionais, logo agir. O processo parece cada vez mais inextricavelmente ligado.

De qualquer maneira isso é empiricamente observável, os nativos mais “Água” pensam com base naquilo que sentem, aqueles mais “Ar” sentem com base naquilo que pensam, isto para dizer que nuns predomina mais uma função, e noutros, outra.

Para concluir, a natureza relacional geminiana ou com esse pendor, parece imbuída de abertura às possibilidades, sobretudo se as mesmas tiverem uma componente mental activa, no intuito de que o nativo aprenda sobre ele próprio, ainda que isso possa criar algum tipo de frustração no parceiro, face ao excesso de “mental”. Esse desejo de expansão e aprendizagem contínua sobre si mesmo, por vezes leva a não “ouvir” correctamente o Outro, um paradoxo, dada a importante natureza das palavras e daquilo que se diz, para este signo, mas esse é um problema sobretudo de quem tem uma excessiva verbalidade, que se caracteriza por ser geralmente um pouco autista.

Como nota de curiosidade, refiro que conheço 4 pares de Gémeos (ela) – Peixes (ele), cujas relações parecem ser frutuosas e duradouras. A natureza mutável e bastante amigável destes 2 signos, parece designar uma boa base relacional. Embora a quadratura se “confronte” nessa união, a mesma está de acordo com um dos princípios da escolha do parceiro, que é o facto de poder ser definido por aquilo que nos “faz falta”. Parece ser uma das descobertas jungianas que frequentemente se verifica, o que falta à Água é o Ar, e vice-versa. Devo no entanto dizer, que com pouca frequência se vê esta tão harmoniosa convivência noutros tipos de quadratura, nomeadamente entre signos Fixos e Cardinais. Sendo o elemento comum a mutabilidade, parece-me ser esse o aglutinador da relação, no entanto esta é uma observação que carece de bases demonstrativas.

Tipos de relações II

Em artigo anterior (aqui) iniciou-se a digressão sobre uma possível classificação dos mais frequentes tipos de relações amorosas, tendo-se ilustrado o género de relação que se designou por co-dependência. Em resumo, as ideias principais contidas nesse artigo apontavam para que a) a selecção dos relacionamentos seria maioritariamente feita de modo inconsciente b) essa selecção visaria criar, na grande maioria dos casos, uma dinâmica que pudesse resolver/ultrapassar o modelo não resolvido da infância c) as relações criadas desse modo seriam condicionais, provocando nos parceiros, uma reacção do tipo co-dependente. Hoje iremos um pouco mais longe, na tentativa de explicação deste modelo, e apontaremos novos modelos relacionais que possam ilustrar outro tipo de dinâmicas. Começamos novamente pela infância, momento em que se parecem sedimentar as dinâmicas relacionais que perdurarão pela vida fora, até que o indivíduo tenha noção das mesmas e decida pôr-lhes termo ou mudá-las.

À medida que a criança começa a experienciar-se a si própria como um ser diferenciado e separado de outros seres, gradualmente e através da relação com outras pessoas significativas, a criança começa a formar um conceito de self (si), que por sua vez requer cuidados e protecção, não se tratando somente de protecção e cuidados físicos. Essa consciência e percepção da diferença e da separação do Self, de si em relação aos outros, leva ao aparecimento de uma nova necessidade: a do olhar positivo externo, olhar esse que não é apenas de aprovação, é algo diferente, mais do âmbito da aceitação e compreensão do mundo e da dinâmica interior da criança. A força desta necessidade não deve ser menosprezada ou sobrestimada, porque a sua satisfação torna-se na dinâmica principal para a criança em desenvolvimento. A primeira falha no modelo educacional parental surge aqui, na incapacidade para compreender e aceitar a dinâmica interior do mundo infantil, vemos a criança pelos nossos olhos de adulto, falhamos em perceber o que vai dentro desse mundo, ou seja, parte daquilo de que a criança necessita para se desenvolver e que está nas nossas mãos podermos fornecer, está intimamente ligado à nossa capacidade de compreender e transmitir essa compreensão, e isso não acontece de forma continuada e correcta. Este olhar positivo externo é um trabalho adicional para os pais? É, sem dúvida, neste gesto diário de compreensão, aceitação e comunicação adequada destes factores, estão as sementes para o desenvolvimento de uma adequada perspectiva sobre si, vejamos como.

Em conjunto com o olhar positivo, desenvolve-se também na criança, a necessidade do auto olhar, que derivará no auto conceito, que por sua vez originará a auto-estima, a segurança interior, a auto-crítica, a auto-avaliação, etc. Precisamos de nos sentir bem connosco próprios e se esta necessidade não é satisfeita, é-nos difícil funcionar no mundo. Aqueles que recolheram de seus parentes somente olhares positivos de forma muito selectiva ou condicionada, dificilmente conseguirão manter um olhar positivo sobre si, a qualidade do auto-olhar é proporcional à do olhar positivo recebido. A criança que está rodeada de ambiente crítico e desaprovador ou por aqueles que fornecem sinais ambíguos ou conflituosos torna-se dolorosamente confusa. Está em permanente ansiedade e sempre tentando descobrir novas maneiras de como ganhar, ao menos ocasionalmente, um sinal de amor ou afeição, um sinal de olhar positivo externo. É provável que algumas áreas de potencial validação sejam descobertas (muitas vezes os pais consideram que é isto a EDUCAÇÃO…) e que a criança aprenda comportamentos que lhe garantam uma aprovação limitada. Lendo livros, fazendo a cama, mantendo as roupas limpas, não perdendo o temperamento, apercebe-se que ganha a aprovação parental e também algum olhar positivo, mas há também a hipótese de isto ser convertido num frágil e precário auto olhar, especialmente se a criança souber que detesta ler, que não vê problemas em andar suja, ou que se sente altamente tempestuosa por dentro. É muito provável que desta forma se estejam a criar seres amestrados, prisioneiros da esmola do olhar positivo externo, algo que lhes foi negado e que por sua vez distorceu o seu próprio mecanismo de avaliação interior. Esta dinâmica condiciona toda a vida futura, mesmo na idade adulta, obstruindo, pelo menos em parte, o potencial evolucionário desse ser. Quando a vida proporciona oportunidades para que cada um se desenvencilhe do modelo que lhe foi imposto (o 1º retorno de Saturno, os trânsitos maiores, etc), elas nem sempre surgem pelas vias mais fáceis e as grandes crises aparecem. Não é à toa que os grandes períodos depressivos estão claramente associados aos 30 e aos 60 anos, respectivamente o 1º e o 2º retorno de Saturno, os momentos de crise surgem como indicadores das necessidades de mudança, e é sempre doloroso tomar consciência dessas necessidades. O mal está sempre nos outros…

A nossa capacidade futura para nos sentirmos bem connosco próprios, está dependente da qualidade e consistência do olhar positivo que recebemos na infância, e na medida em que foi selectivo (a quem isto não aconteceu?) somos vítimas das condições de valor. Por outras palavras, o nosso auto olhar, torna-se tão ou mais selectivo do que aquele que nos foi proporcionado. Aos nossos próprios olhos, temos valor apenas na condição de sentirmos, pensarmos e comportarmo-nos, das formas que outros nos disseram serem merecedoras de amor e respeito, do modelo relacional fornecido exteriormente. Para muitas pessoas, todo este triste processo leva a uma introjecção de valores que emanam de parentes que julgam, punem e criticam, e que pouco ou nada se apoiam nas necessidades do organismo humano para a actualização. Algo que pode ser visto diariamente quando afirmamos que “gostaríamos de nos sentir mais fortes”, mas não dizemos, “gostava de me sentir aceite como sou”, porque sabemos que sentindo-nos mais fortes, somos imediatamente aceites. Em quantos relacionamentos, quando um dos parceiros se sente enfraquecido, quantas vezes não acontece que o outro se afasta? De onde deriva o afastamento? Medo da fraqueza do outro ou da própria? Insegurança quanto ao amor do Outro ou ao próprio? Porque aceitamos os outros apenas quando estão fortes e não sempre? Qual é o condicionamento que está implícito neste gesto? Porque somos tão críticos de nós próprios? Porque escolhemos outros que nos criticam?

A dolorosa e gritante procura por olhar positivo, resulta num ser humano encarcerado num sentimento de desvalorização (uma total ausência de olhar próprio) e que está quase totalmente divorciado das suas raízes organismicas e processo de valorização pessoal. A constante introjecção de valores estranhos, porque impostos de fora, resultou na internalização de condições de valor, que tornam o viver autêntico quase impossível. Como resultado dessa desesperante necessidade de olhar positivo, é evidente que muitas pessoas desenvolvem uma total discrepância entre a maneira como o seu Self é percebido e a sua experiência organismica, aquilo a que se chama incongruência entre o Self e a experiência. Esta incongruência leva a uma vulnerabilidade psicológica, que torna a pessoa ansiosa e confusa, sempre que a experiência é percebida ou de certo modo antecipada como sendo incongruente com a estrutura do Self e com o actual auto conceito. A ocorrência desta vulnerabilidade psicológica, é uma resposta defensiva (que pode tomar várias formas, negação, distorção) a experiências que de certo modo ameaçam o sentido de Self da pessoa.

A sujeição a condições de valor e à experiência de aprovação parental, condicional a certos comportamentos, faz com que um auto-conceito gradualmente tome forma, que está alinhado com a visão parental do que é aceitável e admirável, a pessoa pode ver-se a si própria como paciente, calma, lógica, porque essas características lhe trazem a admiração e são altamente valorizadas pelos pais. Um auto conceito desses, ainda que ávido e intolerável, ganha a aprovação dos outros, no entanto o auto-olhar estará sempre dependente da manutenção desse auto-conceito.

Nas ocasiões em que a pessoa se sinta interiormente desconfortável, através da intolerância ou agitação, esse auto conceito estará ameaçado. A distorção defensiva entra em jogo quando a pessoa tenta ver a realidade, os sentimentos ameaçadores são tomados pelo resultado ou como vindos do exterior, por exemplo agarrando-se a princípios elevados ou como uma resposta inapropriada a um comportamento ultrajante por parte de outros. A negação acontece quando a pessoa rejeita terminantemente a possibilidade de intolerância ou agitação em si, quando nos outros a consegue ver perfeitamente, através de palavras e comportamentos.

Em face disto, há claramente um distúrbio psicológico, no entanto a pessoa pode não se aperceber disso, nem outros poderão se aperceber, dado que também tem um interesse velado em manter ou encorajar, aquilo que é com efeito, um trágico mas rigoroso acto individual ou colectivo de auto-ilusão.

Resumindo, necessitamos de um olhar positivo, obtemo-lo apenas de forma condicional, parecemos solicitar na idade adulta relacionamentos que prolonguem esse amor condicional, porque esse foi o modelo introjectado, deixando para o parceiro a possibilidade de nos avaliar, de nos conceder esse olhar positivo, facto esse que implica uma falta de equilíbrio, pois esse poder é na grande maioria dos casos utilizado de forma tirânica e manipuladora, ainda que sob a velada capa do amor e do romance. Porque queremos sempre ser tão agradáveis, porque é tão mais difícil à medida que o tempo passa manter essa capa, porque não somos autênticos, porque continuamos a pedir (e a dar) esmola pela vida fora…?

O que desse modo sucede, é que passamos a ter pouca fé no nosso julgamento interior, mostramo-nos com uma baixa auto-estima, dependente da estima que outros nos dão, e com falta de confiança na nossa capacidade para tomar decisões, para sermos autênticos ou para escolher rumos satisfatórios. Deixamos de ser o centro do processo de validação ou avaliação, não confiamos na evidência dos nossos sentidos, e constantemente nos referimos ao julgamento de outros em ordem a estabelecer o valor do nosso objecto da experiência. Assim traímos esse mecanismo de avaliação interior e viramo-nos desesperadamente para o exterior, para as figuras de autoridade, ou então encontrar-nos-emos face à paralisia da indecisão. Os auto-conceitos negativos e falsos baseados no exterior, tem pouca hipótese de apoiar, manter e cuidar dum mecanismo de avaliação interno do qual necessitamos, se queremos tornar-se pessoas autónomas. É o Outro que é a minha bengala, “ele serve-me de suporte, sem ela não conseguiria viver”, quem é que temos connosco? Um objecto? Ou uma pessoa?

Esta dinâmica é encontrada a todo o momento, diariamente, nas mais variadas situações, resulta fundamentalmente da incapacidade para ouvir e compreender o outro, bem como sermos correctamente ouvidos e escutados, da nossa necessidade de mantermos o controle nas relações, que nos dá uma ilusão de segurança, emitindo juízos críticos, julgando, culpabilizando, denegrindo, desvalorizando, ordenando, ameaçando, dando soluções, lições de moral, rotulando, ridicularizando, interpretando, diagnosticando, etc. Por vezes tenho a sensação que nos relacionamentos se perpetua a “educação” que se recebeu em casa, queremos o Outro à nossa maneira, com os nossos valores, porque nunca recebemos indicações de que era bom e adequado sermos nós próprios, isso não é seguro, pelo que também nos sentimos confortáveis se o Outro os faz isso a nós, afinal foi assim que “aprendemos”!

A incapacidade para a relação resulta sempre duma incapacidade pessoal, não do Outro, o Outro apenas reflecte essa nossa incapacidade, a qual passa por manter um mecanismo de avaliação interna desadequado da nossa própria experiência, sobretudo pelo atropelo a que foi submetido, e à introjecção de valores externos, que foi ditada pela nossa necessidade precoce de olhar positivo. Esse instável, ambíguo ou condicional olhar, é a razão da degradação do nosso auto olhar, desse mecanismo de avaliação interno que é tão ou mais deturpado que aquele que nos foi fornecido. Tragicamente escolhemos parceiros que parecem perpetuar esta dinâmica, e desconfiamos daqueles que não a fazem. Deste modo parece também fácil que se chegue a um tipo de relação funcional, a qual serve apenas enquanto a função para a qual foi criada subsiste. Vejamos alguns exemplos dessas situações:

- A Relação TERAPEUTA-PACIENTE

A versão PSI de relacionamento, ou a relação de “ajuda”. Se verificarem, isto raramente se passa ao nível consciente, mas seria importante uma revisão dos motivos que nos levam a estar realmente com alguém, perceber se realmente perpetuamos modelos ou não. Neste caso, um parceiro sente que o outro tem uma informação ou conhecimento de natureza psicológica que é vital e que pensa que não possui. O poder é dado ao “terapeuta”, ficando o paciente há espera da entrega da informação, quando a tem, acaba a consulta, e vai o “terapeuta” passar a ser paciente...

O indivíduo que faz de “terapeuta” é normalmente aquele que atrai pessoas que parecem “necessitadas”. Regra geral, é extremamente inseguro – embora aparente o oposto – ao nível emocional, enfatizando entre outros: o medo da perda, da traição, do abandono, violações de confiança e medos de perseguição se revelar demasiado da sua realidade actual. Sente-se seguro na relação porque o outro precisa de si. Há uma falta de balanço na relação, em que o “terapeuta” geralmente dá mais e o paciente recebe mais. Quando o “doente” se cura, a relação acaba e são a ingratidão e a injustiça, os sentimentos que ficam no ar daquele que se sentiu abandonado.

Geralmente são as mulheres que se oferecem como “terapeutas” e que alimentam a ilusão de ajudar o Outro de alguma forma. O seu cariz mais contentor e maternal, associado à necessidade de olhar positivo e à degradação do mecanismo de olhar positivo interno, parece ser a dinâmica que leva mais mulheres a este papel, no entanto alguns homens podem também enveredar por essa dinâmica. Quanto maior for também a dependência de um papel, maior será a propensão, e muitas pessoas introjectam uma necessidade de serem úteis (cariz virginiano) ou inclusivamente de se sacrificarem (cariz pisciano) pelo Outro, o que não tendo que ser necessariamente negativo, muitas vezes o é, sobretudo pela falta de verdadeira compreensão dessa dinâmica. Muitas pessoas são úteis e maternais, porque essa é a forma distorcida de obterem aprovação e olhar positivo, não tendo que corresponder necessariamente ao seu mais profundo ser, no entanto esse facto está-lhes totalmente negado à consciência, sendo o prejuízo psíquico dessa atitude, incomensurável ao nível pessoal e relacional. Ora isto também acontece, porque inúmeras pessoas vêem também a relação como uma espécie de base para a cura emocional. Só existem “terapeutas” porque há “pacientes”, o que torna a associação desejada por ambos. O quadro típico é normalmente o rapaz/homem com problemas de dependências (álcool, drogas, etc.), ou oriundo de famílias disfuncionais, com dificuldades de expressão emocional, cuja mulher fará o esforço e/ou o sacrifício de tentar curar, educar ou modificar. Por um lado, o pressuposto básico desta atitude é sempre condicional, ié, o outro não tem dentro de si as capacidades para se orientar, eu sei o que é melhor para o outro, visão que por outro lado também emprega consigo prórpia quando se vê em inferioridade emocional, e numa outra vertente mais funcional, aquele “papel” que representa, traz-lhe um sentimento de utilidade, de valorização, de auto-estima, mas infelizmente, isto é uma ideia algo pálida do que uma verdadeira relação pode representar.

- A Relação PROFESSOR-ESTUDANTE

Esta dinâmica é muito parecida com a anterior, no entanto os papéis parecem inverter-se, se na situação anterior existiria um papel mais maternal, aqui predominará a paternalização da relação. O quadro típico é o do homem geralmente bastante mais velho, o “professor”, e a mulher geralmente bastante mais nova, a “aluna”, mas a história também pode ser contada invertendo os sexos. O conhecimento é sempre fonte de poder, de autoridade, o fascínio pelo poder é sempre grande, e julga-se poder ter poder, apenas por um qualquer mecanismo de osmose, por isso é plausível que se façam escolham relacionais com base nessas necessidades, por um lado o inexistente ou fraco mecanismo de avaliação interior, que leva à busca da autoridade exterior, por outro o desejo de ter aquilo que se não tem, e que se pensa poder obter de modo osmótico e “quase” gratuito.

A dinâmica da escolha do homem mais velho não se esgota neste modelo, algumas mulheres não sentem segurança em parceiros mais novos, ou por questões ligadas à demanda sexual dos mesmos, ou porque sentem da parte dos mais velhos uma adulação e um sentimento de que são desejadas, que é confortável e proporciona segurança, por muito “legal” que isso seja, a segurança vem do exterior e não do interior, e isso, continuará a dinamitar o crescimento e a evolução pessoais.

Aqui a variação do jogo de poder é menos sadomasoquista que a anterior, no entanto continua a existir desequilíbrio naquilo que cada um traz para a relação, não há igualdade, ambos os parceiros precisam daqueles papéis para preencher as suas necessidades de segurança. Quando os “alunos” acabarem a licenciatura, ou quando os professores deixam de andar actualizados, a relação acaba…

Resumindo, em pequenos parecemos estar dependentes de um modelo de relacionamento que nos proporcione para além dos cuidados básicos e uma atitude calorosa e carinhosa, uma compreensão e aceitação do nosso mundo interior. Esse olhar positivo exterior vai condicionar o desenvolvimento do nosso mecanismo de avaliação interno – o olhar interior – que se irá reflectir naquilo que seremos no que diz respeito à autenticidade, à segurança, à capacidade para fornecer um amor compreensivo e aceitante – dito incondicional – mas que de facto exige sempre algumas condições para sobreviver. Será que conseguimos perceber a dinâmica relacional em que estamos? Porque escolhemos esta ou aquela pessoa? O que esperamos obter ou dar?

maio 29, 2005

Gémeos Parte II

“Não encaixo porque sou 'arraçada' de virgem (meu ascendente) que se tem revelado como muito poderoso. É melhor reveres o que escreveste dos gémeos porque isso de estar sempre a chamá-los de cabeças no ar, infiéis,inconstantes, irreverentes, sem saber o que querem... também já irrita.Afinal uma pessoa pode ser Gémeos e não ser essas coisas todas (embora algumas delas não sejam tão negativas como alguns querem fazer pensar) Bom, já chega de conversa fiada. Gostei de te 'ouvir'.”

Começo o segundo artigo dos Gémeos com mais uma citação, a qual aproveito para reforçar algumas ideias acerca do que por aqui vou lançando. A minha amiga manifesta-se discordante quanto à categorização de certas características geminianas. Essa classificação poderia de facto ser dispensável, no entanto, aquilo que tenho vindo a fazer em cada signo tem para mim um sentido que é o seguinte: creio que cada signo tem uma “missão” evolucionária, e que para cada missão existem “equipamentos” adequados, embora muitas vezes esses “equipamentos” não sejam sempre utilizados na sua plenitude. Se ao Gémeos parece competir a descoberta da natureza relativa das coisas e das verdades, alguma inconstância, errância, superficialidade pode ser necessária aquela realização, todavia tudo tem um equilíbrio. Outro dos pontos que considero importante, é o facto de considerar que todas as medalhas tem um reverso, se muitas vezes os nativos “escolhem” a face menos positiva da actuação, o que alerto é justamente para a necessidade de entender que há possibilidades de passar a um registo positivo da utilização das energias (ou equipamento, como lhe chamo) postas à disposição. Como diz Deepak Chopra, “deixar de ver o mal, como meu inimigo”. Embora não o percebam, muitas pessoas funcionam claramente num registo negativo, isto não é uma afirmação moral, é uma constatação, existem outros modos de resgatar o potencial de que cada um dispõe, esse é o objectivo de “categorizar” por vezes de forma negativa os signos, se todos fossemos perfeitos, nada mais haveria para descobrir, estamos muito longe da perfeição.

Um dos primeiros artigos foi justamente sobre o estado de evolução espiritual, “cada um está a fazer o melhor que pode”, ié, parecemos não coexistir todos aos mesmos níveis. Os artigos sobre os signos, não caracterizam ninguém em especial, no entanto o meu conhecimento sobre os signos e as respectivas pessoas, leva-me a crer que existe uma tendência padrão, em que as características genéricas do signo se manifestam talvez nuns 70% das pessoas desse signo. Depois existem os casos em que predominam características de outros signos, aliás a citação acima começou pelo facto de eu ter escrito á minha amiga afirmando que não a revia em Gémeos, e finalmente existem os nativos muito evoluídos, que basicamente são todos os signos e não são nenhum, as características gerais estão diluídas e o nativo já atingiu um grau de evolução espiritual tal, que se assemelha nas suas atitudes a tantos outros. Devo no entanto notar que, em minha opinião, o Sol, a menos que severamente ameaçado ou aspectado, raramente deixa de se fazer notar, e se não o faz, de um modo ou de outro, vai tentar “brilhar”. O Sol (o signo natal) é a grande chave da natureza pessoal e é na sua caracterização que assenta toda a dinâmica astrológica, embora todo o conjunto astrológico se complexifique um pouco mais.

Voltando à astrologia, Gémeos parece caracterizar-se pela função mercuriana, embora Meercúrio tenha a regência do signo e de Virgem, não estou muito crente na regência mercuriana de Virgem. Existe um livro que defende Quiron, como o regente de Virgem e sinto-me inclinado a concordar. Podemos então caracterizar alguém mercuriano, como sendo alguém com Sol, Lua ou Ascendente em Gémeos, em menor grau, com Mercúrio em aspecto estreito com o Sol, ou Sol na casa 3, todavia Mercúrio é uma influência “leve” e mesmo em aspecto estreito com outros planetas, nunca torna o processo muito evidente, tratam-se sobretudo de influências subtis, aliás como a própria natureza da mente. Os próprios nativos evidenciam essa plasticidade, um ascendente mais forte, ou um aspecto mais pesado ao Sol em Gémeos e o nativo ganha “outras” cores em que a característica geminiana perde dominância, todavia é só isso, perde, mas não desaparece e na generalidade, continua a fazer-se sentir necessária pela vida fora, como se o nativo tivesse que “honrar” aquela necessidade. Compreende-se que num adulto por vezes exista a tendência a perder uma certa espontaneidade, ou até “mascarar” as suas tendências mais juvenis, mas ainda assim existem outras formas bem geminianas perfeitamente adequadas à expressão dessas energias: cantar, dançar, jogar ao faz de conta, etc. Não é difícil perceber, tenho uma amiga que faz marionetas e é arteterapeuta e professora, outra que patina (campeã da Europa) e é médica-cirurgiã, um amigo que pertence à Polícia Judiciária e faz teatro à vários anos, esses não deixaram morrer o geminiano que há neles, e trouxeram-no até à idade adulta, de forma sublime, todos eles. Quem disse que a leveza era coisa má?

Entender a mente

O título do artigo de hoje é também o título de um livro escrito por Geshe Kelsang Gyatso Rinpoche, Lama da Nova Tradição Kadampa. O que vou escrever é apenas um resumo muito breve desse livro, pelo que se tiverem interesse mais aprofundado, podem solicitá-lo para os contactos no final do texto(*). Mesmo para um resumo, considero que seria preferível que fosse feito por alguém que estivesse mais inserido no conhecimento desta linhagem budista, pois corro o risco de deturpar o significado, todavia tal não é possível, pelo que peço que considerem qualquer má interpretação, como erro meu.

É o conhecimento da mente que abre as portas à Iluminação “se realizares a tua própria mente, tornar-te-ás um Buda; não deves procurar a budeidade em nenhum outro lugar”.

Todos os fenómenos são meras aparências, tal como os sonhos. Aquilo que nos desagrada, são estados mentais impuros, que podemos fazer com que cessem, tal como um sonho. A mente tem o poder de criar todos os objectos agradáveis e desagradáveis, não existe outro criador para além da mente. (nota: confiando nas explicações de Buda, os budistas não crêem em Deus).

Todos os fenómenos são objectos, porque são objectos de conhecimento, alguns são também possuidores de objecto, porque expressam ou conhecem um objecto. O principal objectivo da mente é conhecer objectos.

Definição de nome. Um nome é um objecto de audição que expressa a designação de um fenómeno, o nome não é uma característica natural do objecto, se me chamo João, isso é-me meramente imputado de acordo com as convenções específicas da língua portuguesa, mas eu não sou João, eu chamo-me João. Todos os objectos de conhecimento são meramente imputados na dependência de seus nomes. Sempre que vêem o meu corpo, pensam “este é João” porque o meu corpo é uma base legítima para este pensamento.

Definição de pessoa. Pessoa é um eu imputado na dependência de qualquer dos cinco agregados (forma, consciência, sensação, discriminação e factores de composição). Pessoa, ser, self e eu são sinónimos. A função de uma pessoa é executar acções e experienciar seus resultados. O agregado forma é o corpo; o agregado consciência é constituído por suas mentes primárias; e os agregados sensação, discriminação e factores de composição são suas mentes secundárias ou factores mentais. Os cinco agregados estão contidos no corpo e na mente da pessoa, a função de uma pessoa – executar acções e experienciar os resultados – se não tivesse discriminação não poderia executar acções, se não tivesse sensações não poderia experienciar os resultados.

A realização da vacuidade, da inexistência do eu, acontece porque todos os fenómenos, inclusive nosso eu, são meramente imputados pela mente e não existem do seu próprio lado de modo algum. (nota: existem 4 escolas centrais no budismo, nem todas concordam quanto ao “onde está o eu” e “o que é o eu”).


Os budistas assumem que a base para a auto-identificação (auto-imagem, Ego, etc.) é o agregado corpo/mente e a função (o papel social) específica que exercemos, que constitui a base para que nos seja imputada uma identidade. Ao passarmos por incontáveis renascimentos (uma elemento central do budismo), em cada um assumimos uma nova identidade (o conjunto corpo/mente/papeis sociais), contudo se procurarmos por uma pessoa verdadeiramente existente em qualquer um deles, nada encontraremos, porque em cada renascimento cada eu é meramente imputado pelo pensamento, na dependência dos agregados daquela vida.

Definição de mente. Mente é aquilo que é clareza e que conhece, “clareza” refere-se à natureza e “conhece”, à sua função. Ainda que a mente não tenha forma, ela pode estar relacionada com uma forma, pode estar relacionada com nosso corpo e localizada em diferentes lugares dele. Do ponto de vista de como é gerada, há dois tipos de mente: percepção sensorial, os sentidos e percepção mental, dividida em três tipos: densa, subtil e muito subtil. A mente desperta normal, é uma mente densa. As mentes subtis e muito subtis só se manifestam durante o sono, a morte e para alguns praticantes, durante o equilíbrio meditativo (nota: meditação sugere um estado de equilíbrio).

A mente muito subtil, ou mente raiz, ou mente residente continua (ou talvez aquilo a que se chama alma ou espírito), é aquela que sobrevive de uma vida para outra, e vive no chakra do coração. Todas as mentes são clareza e tem a função de conhecer, e embora não tenham forma, estão relacionadas com forma.

Embora a mente não possa ser obstruída fisicamente, ela tem as suas próprias obstruções, as delusões e as suas marcas. Corpo e mente não são uma única entidade, mas são entidades inter-relacionadas. Se fossem um só, tudo o que servisse para destruir um, destruiria outro. Comer demais, aumenta o volume do corpo, mas não o da mente, doenças físicas prejudicam o corpo, mas não necessariamente a mente, mas é claro que existe uma relação entre estado mental e condição física, mas isso só indica que existe uma relação, não quer dizer que seja ambos a mesmo entidade.

A prática budista leva anos de avanço sobre a ciência no que diz respeito à descoberta sobre as faces ocultas da ou das mentes. O profundo conhecimento empírico, aliado aos princípios cultivados pelos grandes mestres, levam a crer que o conhecimento de que dispõem é uma valiosa fonte de informação para a compreensão do fenómeno mental. A partir deste ponto o livro entra em descrição detalhada de todos os factores mentais e tipos de mentes. O artigo visa apenas lançar algumas questões acerca da natureza da mente, das coisas, dou eu, na continuidade de outros mencionados no psicótico. Mentalizem e contribuam, fazendo o vosso comentário.

(*)Centro Budista Deuachen - www.cbd.pt
Rua do Crucifixo, 86, 2º Dto.
1100-184 Lisboa
Tel: 21 342 32 86
Tlm: 91 994 2115
Email: info@cbd.pt

Deepak Chopra em Portugal – Parte III

#8 Não verei o mal (evil) como meu inimigo, ao compreender as minhas próprias sombras, ultrapassarei o mal e transformá-lo-ei.
Carl Jung afirma que temos um Self Sombra (shadow self) e as tradições antigas também nos dizem que a Alma é feita de ambiguidade, Freud afirmou que “as neuroses proviriam da incapacidade em tolerar a ambiguidade, em tolerar a sombra”, em pensar que tudo seria a preto e branco, mas a alma humana não é assim, tem muitas nuances, divinas e diabólicas, sagradas e profanas, porque todas as experiências que atravessamos vem da criação de energias opostas. Há uma expressão que diz que “o santo e o pecador estão meramente a trocar notas, o santo tem um passado e o pecador tem um futuro :-)”, “aquele que não tem pecado em si, que atire a primeira pedra”, portanto todos temos uma sombra, que tentamos esconder, que se manifesta através da repressão, da falta de responsabilidade pelos próprios actos, pela pobre auto e hetero-liderança. O mal (evil) é uma projecção manifestada da sombra colectiva, da repressão colectiva, ao trazer luz às nossas próprias sombras, trazemos luz ao mundo. Dalai Lama afirma que não há mal per si, existem apenas maus comportamentos que aparecem perante determinadas situações.

Comentários: Este compromisso contém indicações preciosas acerca da natureza humana. A tentativa de sermos seres humanos bons está intimamente ancorada na capacidade para reconhecermos que não somos perfeitos. Toda a medalha tem um reverso, e o desespero provém muitas vezes da incapacidade em o aceitar.

#9 Eu explorarei a minha natureza multidimensional, as manifestações subtis e causais do meu ser
De acordo com a sabedoria védica, cada estado de consciência cria a sua própria realidade, há vários tipos de consciência, a) a consciência acordada, reagimos ao que acontece, ouvimos um ruído e viramo-nos para ver o que é b) depois há a consciência de sonho, neste estado, temos uma determinada experiência, tudo o que aconteceu no sonho, foram projecções da nossa consciência, somos o observador e tudo aquilo que observamos, fui eu que criei tudo aquilo, ambos o cenário e aquele que o observa, são projecções da minha consciência. Ao compreender isso, posso ter a habilidade de criar a minha própria versão c) consciência para além do tempo, espaço e causalidade, aquela que nos ancora à sabedoria da alma d) consciência cósmica, tu como espírito observas o teu corpo a dormir, é a tua consciência sempre presente (ever present witnessing awareness), é perceber que eu sou mais que os papéis que represento e) consciência divina, que é ter a experiência da sempre presente consciência observadora nos objectos de percepção. Se eu olhar para esta planta, eu verei que ela também é água, vento, terra e espaço vazio, se for para além disso, sinto a presença do espírito e comungo com isso, em cada objecto vejo a verdade que é a verdadeira natureza das coisas. Nesta consciência, Deus não só não é difícil de encontrar, Deus é impossível de evitar, pois não há sitio onde se vá, onde não se encontre a sua manifestação. Num último tipo de consciência, a sempre presente consciência observadora, é simultaneamente sujeito e objecto da experiência, ambas se fundem e tornam-se unas, todo o universo se transforma numa única consciência e essa consciência única está disponível a cada um de nós, nas profundezas do nosso próprio ser, através da transformação do Self Pessoal em Self Colectivo, e do Colectivo em Universal. Desse modo podemos ver como o Universo nos contém e é ao mesmo tempo, uma projecção do nosso próprio self. Explorar estas dimensões, é ultrapassar o medo da morte, porque existem mundos infinitos dentro da nossa consciência.

Comentário: Neste como noutros pontos, Deepak apela à meditação em níveis cada vez mais profundos.

#10 Vou explorar cada morte, como um salto quântico criativo (creativ quantum leap) na evolução
No início desta conversa mencionei o termo Descontinuidade, como tudo sendo uma sucessão extremamente rápida de ON/OFF, todo o Universo está em ON/OFF, fotões, átomos, moléculas, células, etc., o Universo está-se a recriar através desse movimento ON/OFF, o ON é o mundo, o OFF é a morte, sem um não há o outro, o que torna este movimento no princípio fundamental do Universo, a morte torna a vida possível e vice-versa. As células do estômago morrem a cada 5 dias, permanecemos saudáveis porque há morte dentro de nós. A criança tem que morrer para que o adolescente emerja, o adolescente tem que morrer para que o adulto emerja, o adulto tem que morrer para que o idoso emerja, o idoso tem que morrer, para que nós possamos de novo rever o Universo com um olhar fresco e rejuvenescido. O Universo recria-se a si próprio através deste processo de morte, e nós somos apenas cópias do Universo. Ao nível prático, passa por deixar ir o conhecido e saltar para o desconhecido, aceitemos a morte do passado, nem o passado nem o futuro são a realidade, estão ambos na imaginação, e portanto se conseguirmos manter a nossa atenção no momento presente, então seremos capazes de perceber a presença de Deus.

Comentário: Este é outro dos compromisso “difíceis”, a nossa mente está agarrada ao que vê, é quase impossível não pensar na morte sem temor e não exclusivamente ao nível físico, a morte das relações que pode representar um novo momento de criatividade, de livre auto e hetero descoberta, representa na mais das vezes apenas sofrimento e prisão. Compreender a morte como um processo fundamental é estar permanentemente aberto à vida, cada momento presente é a morte e a abertura à vida em simultâneo.

#11 Eu compreenderei que o Universo pensa através de mim.
Quando eu olho, o Universo está a olhar para si próprio através destes olhos. Aquele que olha através dos meus olhos, é também aquele que olha através dos teus olhos.

#12 Eu cuidarei de estar centrado e atento no momento presente.
A minha atenção estará naquilo que é o momento e verei toda a sua imensidão a todo o momento. Nessa atenção, sentirei a presença de Deus e abraçá-lo-ei.

#13 Serei livre quando compreender que não sou uma pessoa
Teilhard de Chardin
afirmou que “nós não somos seres físicos que temos uma experiência espiritual ocasional, nós somos seres espirituais que temos uma experiência física ocasional”. Alterar e mudar a nossa atenção de sermos um corpo físico para um espírito que habita um corpo, é ser livre e tentar compreender todo o significado oculto por detrás os eventos significativos que nos aparecem sincronizadamente, como coincidências. Desse modo, penetramos na simultaneidade e na mente não local, na mente sincronistica, onde tudo é orquestrado ao mesmo tempo.

Comentário: Na prática budista, só atinge a Iluminação aquele que realiza a sabedoria da vacuidade, uma das mentes virtuosas do Bodhisatva. O eu não tem existência inerente, é apenas um conjunto de agregados. È algo difícil de entender, até intelectualmente, mas vale a pena tentar…

#14 Eu verei o significado oculto de todos os eventos significativos na minha vida.

Nunca ignorem uma coincidência, sempre que acontece, questionem-se sobre o que quer dizer. Sempre que se questionarem sobre o significado disso, aparecerão eventos, situações, pessoas que vos darão a oportunidade de participarem na evolução criativa do Universo.

#15 Descobrirei quem sou, donde vim e qual é o meu propósito
Um poeta indiano disse “cada criança que nasce, é um sinal de que Deus ainda não desistiu de nós”. Continuem a fazer perguntas como uma criança…

Gostaria de terminar com um assunto que me parece importante. Apesar de todas as descobertas, de todo o conhecimento, continuamos a olhar á nossa volta e a ver um mundo caótico em que os 4 grandes assuntos do nosso tempo são 1) resolução de conflitos através da violência, guerra, terrorismo 2) extrema tirania e injustiça social 3) extrema disparidade económica, 50% do mundo vive com menos de 2 dólares por dia e desses, 20% com menos de um dólar, 4) devastação ecológica e do ecossistema. Os cientistas sociais afirmam que todos estes eventos estão inextrincavelmente ligados. Não haverá paz enquanto houver desigualdade económica, não haverá saúde enquanto houver desastre ecológico, somos violentos porque não somos saudáveis. Se tudo está ligado com tudo, a única solução para o problema global é uma mudança na consciência colectiva. E quando olhamos para os enormes saltos criativos do Universo, há sempre caos, a biologia evolucionária reconheceu que ocorreram alguns saltos evolucionários, que são realmente saltos quânticos na criatividade de o Universo. Não existiu uma transição entre os anfíbios e os voadores, houve um salto, não há uma transição directa entre os primatas e os humanos, há um salto quântico criativo ao nível da consciência do Universo. Muitos cientistas evolucionários acreditam, que a humanidade tem neste momento massa crítica para um novo salto evolucionário.

Na biologia há um processo conhecido como metamorfose, a lagarta que se transforma em borboleta. Eis o que se segue de uma perspectiva biológica: a um certo nível do seu desenvolvimento, a lagarta que tem um metabolismo muito lento, começa a consumir tudo aquilo que o seu metabolismo necessita, quando o consumo excede as necessidades metabólicas, o corpo da lagarta começa a morrer, a liquefazer-se. Nesse corpo existem algumas células (imaginal cells) que tem imaginação, que sonham, e quando as células imunitárias olham para estas células dizem “estas não pertencem aqui, vamos atacá-las”, mas como as imaginal cells vibram numa frequência diferente, as outras não as conseguem combater, e estas ficam imunes começando a juntar-se em pequenos clusters, e a fazerem conexões umas com as outras. Começam então a utilizar o corpo decadente da lagarta como uma sopa nutriente, e um dia, a conectividade dos clusters das imaginal cells chega a um limiar criativo, e então, um código genético que até ai estava adormecido, acorda, e nesse gene está a informação para uma nova criatura, totalmente nova, com um metabolismo totalmente diferente. Num dia, todo o código genético explode e a borboleta nasce. Estou-vos a dizer isto porque acredito que nesta sala, somos um cluster de células imaginárias, não estamos cá acidentalmente, porque sonhamos com um novo salto na nossa existência, e cita Raul Seixas, poeta brasileiro “o sonho que sonhei sozinho, é só um sonho, mas o sonho que sonhamos juntos, tornar-se-á realidade”. Por favor continuem a sonhar…

E poderia ter citado António Gedeão e a Pedra Filosofal… O sonho comanda a vida… Obrigado Deepak.

maio 23, 2005

Gémeos Parte I

“Mas estou curiosa...dizem que este ano é bastante favorável aos Gémeos... (não sei porquê) mas eu não vejo nada...... Nada, não sei... se este presente desencontro comigo mesma tiver alguns frutos positivos...
...mas, sabes... tenho andado mais calma, tenho dormido e levado uma vida mais ou menos normal. Isto parecendo que não, é facto para celebrar...… tentar acreditar em algo infinitamente maior que eu, têm-me ajudado a lidar com a minha ansiedade e insegurança......mas ás vezes penso: será que o eu acreditar presentemente em algo (mesmo não sabendo no quê) não será simplesmente uma forma mais fácil de viver a vida!?
... E não necessariamente a verdadeira...Ou melhor... Pergunto-me se estou agora nesta fase de pesquisa espiritual, de busca de respostas... simplesmente por não estar a aguentar a forma 100% racional como levava a vida. Isto pode crer dizer que estou a tentar encontrar um caminho mais fácil simplesmente por não estar a conseguir percorrer o primeiro......sendo o que me leva para este caminho, angústias e frustrações pessoais...e a incapacidade de encontrar satisfação no mundo que me rodeia...... Só quero ter a certeza que estou a ser honesta comigo e com o que eu realmente sou...mas neste momento há uma grande confusão na minha cabeça... pois já não sei bem se sou o que sempre pensei ser...e também já não acredito no que sempre acreditei....mas também ainda não sei muito bem quem sou no presente momento e em que é que acredito....Sendo este facto relativamente desconfortável para mim...”


Cá estamos em Gémeos… acreditam nisto? :-) Roubei uma carta-mail de uma querida amiga e da sua presente situação existencial, que me permitirá ilustrar algumas teias deste signo.

Pois bem, saímos de Touro, de um momento evolucionário de contracção após a expansão de Carneiro, o Universo parece funcionar num mecanismo de contracção/expansão, pelo que voltamos novamente a um tempo de viragem “para fora”. No nosso corpo temos vários exemplos desse mecanismo (coração, pulmões, etc.), nós próprios engordamos e emagrecemos. Gémeos exemplifica bem esta dinâmica dual, sendo um signo de absorção de conhecimento, de exposição ao conhecimento, deve em determinados momentos retrair-se, de modo a poder digerir e absorver esse conhecimento. Sendo um signo mutável, a sua palavra chave é a APRENDIZAGEM, pertencendo ao elemento Ar, que significa MENTAL ou RELACIONAL, vemos como a regência de Mercúrio é quase totalmente virada para a mente, o conhecimento, a razão, o intelectual, a palavra, a comunicação, o pensamento, o estabelecimento de relações entre isto e aquilo. O nativo de Gémeos é quase sempre um mestre nestas artes, afinal de contas é uma das áreas em que desde cedo, mais informação existe disponível, e dada a sua propensão para estes temas, torna-se exímio, é o que melhor fala e durante mais tempo, sobre todos os assuntos, pensando em muitas coisas, perdendo-se nos pensamentos e… não fazendo nada… este é por vezes um dos perigos, pensar mas não agir.

Mas bem, voltemos à criança que tem vindo a ser caracterizada no início dos temas, que desatou a fazer perguntas, porquê isto, porquê aquilo, a brincar com a linguagem, a inventar personagens (o Hobbes do Calvin), e a brincar às personagens (o próprio Calvin que se transfigura no intrépido Spiff e noutros seres…). O Universo de Gémeos é de brincar, representar, inventar, nada de muito sério ou de muito pesado. Embora isto possa ter uma conotação negativa, nada existe na Natureza que seja deixado ao acaso, todos nos devemos tornar em adultos responsáveis por nós e pelas nossas acções, e os Gémeos não são excepção, contudo a aprendizagem, a trama evolucionária e o “equipamento” natal dos nascidos neste signo tem um tom muito próprio, quiçá avaliado de forma ligeira as mais das vezes, no entanto tão complexo como o de qualquer outro signo.

A aprendizagem do signo tem sobretudo que ver com a descoberta da natureza relativa da verdade, “com o saber cresce a dúvida”, afirma Goethe, e uma das armadilhas vem justamente do signo oposto – Sagitário – que quando descobre algo que lhe parece verdade, o transforma em verdade universal. Por outro lado aquilo em que acreditamos, é aquilo que somos? Numa das citações iniciais “mas também ainda não sei muito bem quem sou no presente momento e em que é que acredito....Sendo este facto relativamente desconfortável para mim...”, verificamos uma das questões que pertencendo a todos os signos, é de facto muito premente em Gémeos “quem sou eu, em que é que acredito”. O nativo vai procurar através de vários meios aprender quem é, a aprendizagem faz-se modo relativo, a uma relação por exemplo, os Gémeos, como as crianças vão aprendendo a representar um papel, ou melhor, vários papéis, através da imitação, as crianças gostam de brincar aos papéis, de representar, uma terapia com crianças faz-se através de brincar, ou representando papéis, se observarmos como essas crianças, brincam ou representam, podemos ter algum acesso á sua dinâmica interior.

Cada nova pessoa lhes serve para essa dinâmica de auto-conhecimento, diz-se que utilizam uma máscara, mas não é a verdade total, são simultaneamente a máscara e eles próprios, e jogam muito bem esse jogo ambíguo, o que se vê é a verdade, ou não? Estou a representar ou é esta a realidade? Evidentemente isto pode originar formas mais ou menos veladas de impedir o acesso ao seu interior, mas é para isso que servem as máscaras, ou não? “Dizem que finjo ou minto tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação.” Fernando Pessoa (Sol e Lua em Gémeos)

Para estes nativos, o relacionamento interpessoal é uma forma de autoconhecimento, é um campo de experimentação, cada nova pessoa lhes permite um campo de experiências totalmente novo, através do qual vão dando um pouco mais de forma à sua personagem, imitam o outro nos gestos, na pose na voz, quiçá no pensamento, porque querem perceber se isso lhes serve ou não, com facilidade passam no entanto de uma pessoa a outra, entre os grandes actores, contam-se inúmeras influências do signo, Sol ou Lua ou o Ascendente em Gémeos. Em ambiente social o Gémeos é sempre o mais saltitante, fala com todos e quem espera alguma fidelização relacional (não falo em fidelidade conjugal, são tão fiéis/infiéis como qualquer outro signo) desengane-se, o Gémeos precisa de liberdade para se relacionar, faz parte do seu processo de auto-conhecimento.

Algumas dificuldades podem ser encontradas pelos aspectos difíceis que fazem com os outros signos mutáveis: a Oposição com Sagitário podendo indiciar alguma falta de fé, uma tentativa desesperada de se agarrar a algo tangível, como modo de combater o desconhecido; a Quadratura com Peixes, que pode apontar para uma natureza que suspeita do espiritual, dada a sua propensão quase exclusivamente intelectual ou racional; a Quadratura com Virgem, que aponta para uma falha na discriminação experiencial e na capacidade para se concentrar em escolhas e acções que conduzam a algum lado, apontando para uma incapacidade para retirar conclusões, derivada da sensibilidade extrema à necessidade de experimentar e absorver. Parece existir um falha no mecanismo de contracção, o Gémeos sabe expandir-se, adquirir novos conhecimentos, mas não sabe quando parar ou mesmo como parar, a retracção, a reflexão e a digestão e aplicação parece falhar, como alguém que se perde em fórmulas mas que não chega nunca ao fim, porque vai derivando mais um pouco aqui e um pouco ali e agora vai por acolá, porque se deslumbra com cada nova vereda que encontra.

Numa outra vertente, a dúvida constante, que impede o progresso, ...mas ás vezes penso: será que o eu acreditar presentemente em algo (mesmo não sabendo no quê) não será simplesmente uma forma mais fácil de viver a vida!?... E não necessariamente a verdadeira..., a bagagem geminiana é de dúvida, apreender a natureza relativa da verdade leva ao questionamento, esse leva à dúvida e assim sucessivamente num ciclo que rapidamente se torna vicioso, mas todos temos mais planetas no horóscopo que exibem outras necessidades, não somos apenas Gémeos, porque não descobrir outras dimensões ocultas da nossa existência?