“Tu e eu temos um relacionamento a que dou valor e quero manter. No entanto, cada um de nós é uma pessoa, diferente, com necessidades únicas e com o direito de satisfazer essas necessidades. Quando estiveres com dificuldade em satisfazer as tuas necessidades, eu tentarei ouvir-te e aceitar-te verdadeiramente para facilitar o encontrares as tuas próprias soluções, em vez de dependeres das minhas. Eu também respeitarei o direito de escolheres as tuas próprias crenças e desenvolveres os teus próprios valores, ainda que diferentes dos meus. No entanto, quando o teu comportamento interferir com aquilo que eu preciso de fazer para satisfazer as minhas próprias necessidades, eu dir-te-ei aberta e honestamente, como ele me afecta, confiando que respeites as minhas necessidades e sentimentos o suficiente para tentar mudar esse comportamento inaceitável para mim. Também espero que, sempre que o meu comportamento for inaceitável para ti, mo digas aberta e honestamente, para que assim eu o tente mudar. Nessa altura, quando descobrirmos que nenhum de nós consegue mudar para satisfazer as necessidades do outro, vamos reconhecer que temos um conflito e comprometer-nos a resolvê-lo sem que nenhum de nós recorra ao uso do poder ou autoridade para ganhar á custa do outro perder. Eu respeito as tuas necessidades mas também preciso de respeitar as minhas. Por isso, vamos sempre esforçar-nos por encontrar uma solução que seja aceitável para nós os dois. As tuas necessidades serão satisfeitas, e as minhas também - nenhum de nós perderá - ambos ganharemos. Desta maneira, tu podes continuar a desenvolver-te como pessoa, através da satisfação das tuas necessidades, e eu também. Assim, o nosso relacionamento pode ser saudável, e nele ambos nos podemos empenhar para nos tornarmos naquilo que somos capazes de ser. Poderemos, assim, continuar o nosso relacionamento no respeito mútuo, com amor e paz.” Thomas Gordon
Thomas Gordon é um psicólogo da escola humanista, discípulo de Carl Rogers e da Abordagem Centrada na Pessoa, abordagem na qual o escriba do Psicótico fez também a sua formação como terapeuta. Se estão lembrados, uma das temáticas do blog é a dos relacionamentos amorosos, e este artigo, embora aplicável aos relacionamentos em geral, tem particular interesse para o tema. Farei uma abordagem tendo em conta pontos que me parecem de interesse, e que tem suscitado algumas questões da parte de pessoas que o tem lido e de quem recebi feedback. Como todas as teorias, o que está escrito assume quase sempre - indevidamente diga-se - letra de lei. Este caso não é excepção, mas creio que as teorias existem pela necessidade de analisar e sintetizar algo que dificilmente se pode encaixar em modelos. As teorias não perdem valor pelo facto de se revelarem utópicas, perdem-no sim quando não são devidamente avaliadas, revistas e aplicadas a cada caso real.
Gordon começa por falar em satisfação de necessidades, de imediato salta à vista um dos pilares da psicologia humanista: Abraham Maslow e a pirâmide motivacional, aqui remeto para uma pesquisa no Google, pois creio que é por demais conhecida essa tese. Onde parece existir novidade é no postulado de que “eu tentarei ouvir-te e aceitar-te verdadeiramente para facilitar o encontrares as tuas próprias soluções, em vez de dependeres das minhas”. Em primeiro lugar, a capacidade de escuta, que não se resume a ouvir com atenção o outro, mas em devolver-lhe o que resultou da nossa compreensão acerca daquilo que nos disse. Parecendo uma atitude fácil, é bastante mais complexa, resultando nas mais das vezes em equívocos e discussões. O centramento de quem escuta deverá ser prioritariamente no outro e não em si próprio, se escuto “és uma besta”, facilmente me centro em mim e respondo “não sou não, tu é que és”, ao invés de dizer “estás bastante irritada/o comigo a ponto de me insultar”. Não é tão simples deixarmos o nosso umbigo, para passarmos a entender o que o outro nos está a querer verdadeiramente transmitir. No entanto se atingirmos esse patamar, facilmente desabrochará uma outra atitude em nós e a que Gordon também alude, a de aceitar o outro naquilo que ele é naquele momento. Reportando-me ao diálogo anterior, se eu responder do segundo modo, estou a revelar não só compreensão mas também, provavelmente aceitação do “modus vivendi” do outro naquele momento. Não o procurarei socorrer, ajudar, repreender ou aliviar com frases do género “não te devias sentir assim” “olha que isso é mau” “isso passa” ou etc. Embora qualquer uma destas saídas seja melhor do que o ripostar irado, ainda assim nenhuma delas é inteiramente aceitante do estado actual do outro. Se ouvirmos adequadamente e revelarmos capacidade de aceitação, é provável que o outro se torne progressivamente mais capaz de encontrar as soluções para os seus problemas, nem que seja trocar-nos por outra pessoa J . Como compreendem, face ao actual estado de relações sociais e à forma manipuladora, dependente, possessiva, passiva e agressiva como a grande maioria delas se regem, o postulado de Gordon parece claramente utópico.
Surge uma outra questão, que é a da independência nos relacionamentos. O que é isso, de que forma agir, como ser, etc. Não creio que exista uma solução mágica para este problema, cada um terá a sua medida. As declarações de independência de nada servem nas relações, aquilo que parece servir é a confrontação honesta e aberta de necessidades individuais por oposição às necessidades do casal. A palavra confrontação já é para muitos um problema, pelo que nem pensar em passar à acção, tudo a bem do relacionamento. No entanto, essa falta de diálogo aberto e honesto, só gera abafamento, opacidade, alienação, apatia. Novamente a capacidade comunicacional de ambos os elementos a ser posta em causa, como já o é no caso da escuta/devolução da compreensão do que se escutou. Se passarmos de um paradigma a outro, decorrerá dessa atitude, o acreditar no outro e nas suas potencialidades, a confiança, a compreensão mútua, o crescimento como casal e como individuo. Pode também acontecer que espíritos mais teimosos achem que já está tudo descoberto e que mais nada vejam naquela pessoa e aí… Devo dizer que o atingir deste patamar, só pode resultar de um claro investimento pessoal na capacidade de escutar e perceber o que o outro nos diz. Se eu não me percebo furioso, como hei-de perceber que o outro o está? A compreensão do outro está sempre dentro de mim também, só me compreendendo consigo perceber o outro e comunicar-lhe que o estou a perceber, de modo a que o outro se sinta compreendido.
Não fora uma análise mais atenta do texto e ficaríamos com a sensação de que em se tratando apenas da satisfação de necessidades, tudo isso parece ter uma carga ainda algo primitiva, sobretudo para quem considera o “amor” como algo mais elevado do que a satisfação de uma necessidade, mas não vou entrar por retóricas, sobretudo para os que ainda colocam o amor relacional num pedestal e como objectivo final das suas vidas. Gordon é bem claro, o objectivo final é a evolução e o crescimento pessoal de cada individuo. Só “cuidando” de nós, estamos aptos a relacionarmos a níveis mais profundos com outros, embora algumas pessoas creiam que é em cuidar dos outros – e menosprezando-nos a nós próprios – que está o benefício de toda uma vida. Evidentemente que o mais alto desígnio de ser humano é poder cuidar de outros, conquanto que tenhamos o devido respeito connosco próprios também, e que não cuidemos dos outros como pobres, menores e coitados, mas como pessoas que aceitamos e amamos, tanto como a nós mesmos. Não estou a afirmar que o relacionamento amoroso é um caso particular de relação de ajuda, aliás longe disso deve andar. Já existe que chegue de quem queira “ajudar” os respectivos parceiros, sobretudo quando não sabe como se ajudar a si próprio ou pelo contrário acha que tem muita boa noção de como o fazer em relação a si mesmo, e como tal decide partir para a relação médico-paciente, que já descrevi nalguns artigos atrás. Se leram bem o texto de Gordon, certamente perceberam o quanto as atitudes de escuta, compreensão, aceitação, franqueza, promoção do nosso crescimento e dos outros que amamos, parecem andar afastadas das nossas vidas.